  PAIXO EXPLOSIVA
    Led Astray
    Sandra Brown
     Bestseller 06


      A DESCOBERTA DO PRAZER
      E DA PAIXO SELVAGEM!

      Generosa, Jenny Fletcher punha em segundo lugar os seus prprios sonhos e necessidades, e em primeiro os de seu noivo, Hal, um homem mais comprometido com 
uma causa que com ela. Na vspera de sua viagem para a Amrica Central, ele lhe deu o que Jenny mais queria na vida... uma noite de paixo. Foi seu ltimo presente.
      Cage Hendren contrastava em tudo com o irmo, Hal. Ovelha negra da famlia, ele s tinha ternura por Jenny. Mas ela sempre o achara selvagem e implacvel demais... 
ai que Cage lhe mostrou o lado selvagem que ela mesma no sabia que tinha dentro de si. E agora que fora desencaminhada... j no podia mais voltar atrs!
      
Digitalizao:Vicky
Reviso: Lu Machado


      
      
      
      SANDRA BROWN  ex-modelo e apresentadora de televiso. Casou-se com o namorado dos tempos do colgio, Michael. O casal e os dois filhos moram em Arlington, 
Texas.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      ROMANCES Nova CULTURAL
      Copyright  1985 by Sandra Brown
      Originalmente publicado em 1985 pela Mira Books.
      Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.
      Esta edio  publicada atravs de contrato com a Mira Books.
      Mira e o colofo e colofo so marcas registradas e licenciadas e patenteadas.
      Todos os personagens desta obra so fictcios.
      Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas
      ter sido mera coincidncia.
      Ttulo original: Led Astray
      Traduo: Luiz A. Arajo de Oliveira
      Editor: Janice Florido
      Chefe de Arte: Ana Suely Dobn
      Paginador: Nair Fernandes da Silva
      EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
      Rua Paes Leme, 524 - 10(J andar CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil
      Copyright para a lngua portuguesa: 1999 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
      Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda. Impresso e acabamento: Grfica Crculo
      
      
      
      
      
      
      
      
   
   
   CAPTULO I
      
      
      
      Se no parassem de falar naquilo, Jenny iria gritar.
      Mas nenhum deles parecia ter a menor inteno de calar-se. O grande acontecimento estava na cabea de todos, e nada era mais remoto que a possibilidade de 
mudarem de assunto. O tema em discusso os levara a comer carne de panela, o tipo do prato geralmente reservado aos domingos, como se aquela fosse uma ocasio para 
comemorar, no para lamentar.
      Sarah se esfalfara na preparao do jantar. Havia at pezinhos recm-sados do forno para embeber no molho denso e saboroso da carne, sem falar no pudim to 
escandalosamente gostoso, recheado com calorias.
      Mas a julgar pelo que Jenny aproveitou da iguaria, seu paladar devia estar entorpecido. Sua lngua parecia grudar-se no cu da boca a cada garfada, a garganta 
ameaava fechar-se na hora de engolir.
      Agora, enquanto Sarah servia o caf nas xcaras de porcelana chinesa pintadas com motivos florais, eles continuavam falando na iminente viagem de Hal  Amrica 
Central. Viagem por tempo indeterminado e que virtualmente faria dele um fora-da-lei e, com toda certeza, colocaria sua vida em perigo.
      No entanto, todos se mostravam entusiasmadssimos, principalmente o prprio Hal, que no cabia em si de contente. Seus olhos castanhos brilhavam de expectativa.
        uma tremenda faanha. Mas, no fosse  coragem daquela pobre gente de Monterico, tudo que fizemos e pretendemos fazer teria sido em vo. A glria  toda 
deles.
      Sarah serviu a ltima xcara e, ao sentar-se, acariciou com ternura o rosto do filho caula.
       Mas foi voc que estimulou a construo dessa ferrovia clandestina para ajud-los a fugir. Eu acho maravilhoso. Simplesmente maravilhoso. Mas...  seu lbio 
inferior tremeu um pouco ... voc vai tomar cuidado, no vai? Jura que no h perigo?
      Hal deu um tapinha carinhoso na mo que lhe segurava o brao.
       Mame, eu j disse mil vezes que os refugiados polticos estaro a nossa espera na fronteira de Monterico. S precisamos encontr-los, atravessar o Mxico 
com eles e...
       Ajud-los a entrar ilegalmente nos Estados Unidos  completou Cage com azedume.
      Sarah fuzilou o irmo mais velho de Hal com o olhar, mas ele no deu a mnima para a expresso de censura, j estava acostumado com aquele desdm. Limitou-se 
a esticar as pernas e afundar na cadeira do modo que sempre irritava a me. Na adolescncia, fazia questo de manter aquela postura  mesa at ver Sarah nervosa 
e indignada. Os longos sermes de nada serviam. Ele pousou um tornozelo no outro, exibindo as botas de salto carrapeta e o jeans desbotado, e encarou o irmo. Tinha 
sobrancelhas espessas e claras como a areia.
       Quero s ver se voc vai continuar com esse entusiasmo fantico quando a polcia da fronteira o jogar na cadeia com um pontap.
       Se voc no  capaz de incentivar seu irmo,  melhor sair da mesa  ralhou o reverendo Bob Hendren.
       Desculpe papai.
       Se Hal for preso  prosseguiu o pastor , ser por uma boa causa, por uma coisa em que ele acredita.
      Cage tomou um gole do caf antes de falar:
       No foi isso que disse quando foi me tirar do xadrez.
       Voc foi preso por bebedeira! 
      O rapaz arreganhou um sorriso.
       Eu acredito num bom pileque. Faz bem de vez em quando.
       Por favor, meu filho  interferiu Sarah com um longo suspiro de contrariedade.  Procure se comportar pelo menos uma vez na vida.
      Jenny baixou os olhos e olhou para as prprias mos. Detestava aquelas cenas de famlia. Era evidente que Cage estava provocando, mas, naquele momento, tinha 
toda razo em apontar sem rodeios os riscos do envolvimento de Hal naquela aventura. Por outro lado, qualquer um conseguia ver que sua atitude era apenas uma reao 
 bvia preferncia dos pais pelo filho mais novo, que, alis, movia-se desconfortavelmente na cadeira. Por mais que estivesse satisfeito com a aprovao de Bob 
e Sarah, sentia-se mal com aquele favoritismo descarado.
      Cage apagou o sorriso irnico do belo rosto, mas continuou argumentando.
       O problema  que essa obra de caridade, essa misso de Hal, pode ter como resultado um tiro na cabea. Para que arriscar a pele num lugar onde eles atiram 
primeiro e perguntam depois?
       Voc nunca vai entender os motivos de Hal  disse Bob, endereando-lhe um gesto de desprezo.
      Cage endireitou o corpo na cadeira e, apoiando os braos na mesa, inclinou-se para frente a fim de enfatizar suas palavras:
       Eu entendo que ele queira libertar pessoas marcadas para morrer, claro. Mas no acho que esta seja a melhor maneira de faz-lo.  Impaciente, passou a mo 
nos cabelos loiros.  Aventurar-se em uma estrada de ferro clandestina, atravessar o Mxico com refugiados polticos, entrar ilegalmente nos Estados Unidos  disse 
num tom irnico, enumerando nos dedos os estgios da misso do irmo.  E como esses pobres-diabos vo sobreviver quando estiverem aqui no Texas? Onde vo morar? 
Que vo fazer? Como conseguiro trabalho, habitao, comida, remdio e roupa? Voc no pode ser ingnuo a ponto de acreditar que sero recebidos de braos abertos 
s porque vieram de um pas conflagrado. Eles sero vistos como trabalhadores clandestinos, como qualquer estrangeiro que entra ilegalmente no pas. E tratados como 
tal.
       Seja tudo como Deus quiser  disse Hal sem dissimular a incerteza. Sempre ficava inseguro diante do pragmatismo do irmo. Toda vez que pensava que uma convico 
sua era inabalvel, Cage a questionava e o fazia vacilar. Qual um terremoto, seus argumentos abriam fissuras nas certezas que ele antes considerava slidas e indestrutveis. 
Depois de muito meditar e rezar, Hal sempre chegava  concluso de que Deus se servia de Cage para test-lo. Ou seria a astcia do irmo um dom que o diabo usava 
para tent-lo? Seus pais no teriam dvida em optar pela segunda hiptese.
       Pois bem, s espero que Deus tenha mais bom senso que voc...
       Chega!  atalhou Bob com indignao.
      Cage encolheu os ombros e, pousando os cotovelos na mesa, levou a xcara de caf  boca. No usava a pequena asa. Jenny duvidava de que seus longos dedos coubessem 
no oco daquela estreitssima salincia da porcelana. Ele a segurava com ambas as mos, como se fosse uma tigela.
      Sentia-se deslocado na cozinha da casa paroquial, com as cortinas finas e muito franzidas  janela, o piso de vinil amarelado e o armrio de portas de vidro, 
no qual ficavam guardados os servios de delicada loua usados unicamente nos feriados. Sua presena parecia ocupar demasiado espao, turvando a atmosfera aconchegante. 
No que fosse to corpulento ou alto. Fisicamente os dois irmos se pareciam muito. De longe, estando eles de costas, era difcil distinguir um do outro, a no ser 
pela constituio um pouco mais robusta de Cage. E essa diferena se devia mais  ocupao a que cada um se dedicava que  hereditariedade.
      No entanto, toda semelhana entre ambos cessava ali. Suas atitudes nada tinham em comum. A presena marcante de Cage dava a impresso de encolher as dimenses 
de qualquer sala em que entrasse. Um qu indefinvel o rodeava qual uma aura e fazia parte dele tanto quanto sua pele bronzeada. Entre quatro paredes, era como se 
sua exagerada corpulncia estivesse forando as costuras da roupa muito justa. Num ambiente fechado, ele parecia oprimido como se s coubesse em espaos amplos e 
abertos, como se precisasse de muita terra e de muito cu. Uma essncia de liberdade o acompanhava aonde quer que fosse. Cage parecia levar o vento dentro de si, 
na roupa, nos cabelos.
      Jenny nunca se aproximara dele o bastante para averiguar, mas alguma coisa lhe dizia que sua pele devia ter o cheiro do sol. As longas horas passadas na intemprie 
se estampavam em seu rosto, particularmente no canto dos olhos de um castanho muito claro. A rede de finssimas rugas fazia-o parecer mais velho do que era. Assim 
como a vivncia que ele acumulara em seus trinta e dois anos.
      E, aquela noite, como sempre quando Cage se achava presente, tudo indicava que haveria discrdia, se no um conflito aberto. A agitao e a revolta o acompanhavam 
como uma sombra. Ele era um predador em plena selva, que, ao passar, inquietava seus pacficos habitantes, perturbava, irritava e tirava o sossego mesmo quando no 
estava procurando barulho.
       Tem certeza de que checou todos os pontos de encontro?  Sarah perguntou. Embora contrariada porque o filho recalcitrante havia arruinado o perfeito jantar 
de despedida que preparara para Hal, tentava no fazer caso dele e manter a qualquer custo a aparncia de harmonia.
      Vendo Hal comear a repassar pela centsima vez o seu plano de viagem, Jenny se levantou discretamente para tirar a mesa. Quando ela se inclinou por cima de 
seu ombro para pegar o prato, ele lhe segurou a mo, acariciou-a, levou-a aos lbios e a beijou, tudo sem interromper o zeloso monlogo.
      Ela teve vontade de se curvar e beijar-lhe a cabea loira, de apert-la no peito e pedir-lhe que no fosse. Mas no fez isso. Tal atitude seria um ultraje, 
todos  mesa pensariam que ela havia perdido o juzo.
      Jenny reprimiu as emoes e levou os pratos para a pia. Ningum ofereceu ajuda. Ningum a notou. Desde que se mudara para a casa paroquial, era sua tarefa 
lavar a loua do jantar.
      Quinze minutos depois, enxugou as mos no pano de prato, e cuidadosamente o pendurou no gancho perto da pia. Ela saiu pela porta dos fundos e desceu os degraus 
do alpendre. Atravessou o quintal e, apoiando os braos na cerca branca que o delimitava, ali ficou.
      A noite estava agradvel, quase sem vento, o que era uma bno no oeste do Texas. Notava-se apenas um vestgio de poeira no ar. A lua cheia, muito redonda, 
parecia colada no negrume do cu. As poucas estrelas que as luzes da cidade no empanavam eram grandes e pareciam prximas.
      Uma noite perfeita para os amantes, para estar abraada com algum, sussurrando tolices romnticas. No para despedidas. E, se o adeus fosse inevitvel, essa 
palavra devia ser dita com paixo e saudade, temperada com juras e carcias, no com detalhes do itinerrio.
      Jenny estava inquieta, como que s voltas com um comicho impossvel de localizar.
      A porta telada dos fundos se abriu e voltou a fechar-se com o baque suave da madeira antiga. Ela se voltou e viu Cage descendo os degraus. E o acompanhou com 
o olhar at que se aproximasse da cerca e parasse ao seu lado. Sem falar, ele tirou o mao de cigarros do bolso da camisa, sacudiu-o, aproximou-o da boca e puxou 
um deles com os lbios. Acendeu-o com um isqueiro cuja chama lhe iluminou momentaneamente o rosto. Apagou-o e tornou a guard-lo no bolso, com os cigarros, ao mesmo 
tempo em que dava uma tragada profunda.
       Isso mata  disse Jenny, os olhos perdidos na noite.
      Cage voltou  cabea e a fitou em silncio, depois girou o corpo at ficar quase de costas para a cerca.
       Eu comecei a fumar com onze anos e continuo vivo.
      Ela o encarou sorrindo, mas sacudiu a cabea.
       Que vergonha. Imagine o que isso j deve ter feito com seus pulmes. Voc devia parar.
       Devia?  perguntou ele com aquele sorriso que mexia com o corao das mulheres, fossem moas, velhas, solteiras ou casadas. No existia uma nica em La Bota 
capaz de ficar indiferente ao sorriso de Cage Hendren. Algumas se perguntavam o que ele dizia. Quase todas sabiam. Eu sou macho, voc  fmea:  tudo que a gente 
precisa saber.
       , devia parar. Mas no vai. Ouvi dizer que Sarah lhe pede h anos que pare de fumar.
       Ela no gosta dos cinzeiros cheios nem do cheiro. Nunca me pediu que parasse de fumar por estar preocupada com a minha sade.  Um brilho de tristeza passou 
fugazmente pelos olhos cor de mbar. Uma pessoa menos sensvel que Jenny no teria notado.
       Eu me preocupo com a sua sade  disse ela.
        mesmo?
       .
       Por isso me pede que pare de fumar? 
      Jenny sabia que ele estava apenas provocando-a, mas continuou o jogo. Erguendo ligeiramente o queixo, respondeu com firmeza:
       Por isso.
      Cage jogou o cigarro no cho e o esmagou com a bota.
       Pronto. J parei.
      Ela riu. Mal sabia quanto ficava bonita quando inclinava a cabea para trs daquele modo e ria. Seu pescoo se arqueava com graa, exibindo o tom de mel da 
pele. Os cabelos castanhos e sedosos oscilavam cheios de liberdade, roando-lhe os ombros. Seus olhos verdes se iluminavam. O narizinho arrebitado se enrugava encantadoramente. 
Seu riso um tanto rouco era uma seduo, muito embora Jenny estivesse longe de perceber.
      Mas Cage percebeu. Seu corpo reagiu de pronto quele som delicioso, e ele nada pde fazer para evit-lo. Ficou olhando fascinado para os seus lbios, para 
os seus dentes brilhantes.
        a primeira vez que a vejo rir hoje. 
      Jenny ficou sria instantaneamente.
       No tenho motivo para rir.
       Porque Hal vai viajar?
        claro.
       Porque vo adiar o casamento mais uma vez? 
      Ela baixou a cabea e arranhou a cerca com a unha do polegar.
       Tambm. Mas no  isso que importa.
       Como no?  surpreendeu-se Cage.  Sempre pensei que o dia do casamento fosse o mais importante da vida de uma mulher. Quer dizer, pelo menos de uma mulher 
como voc.
       , mas em comparao com a misso que Hal vai cumprir...
      Cage murmurou uma palavra escandalosamente obscena, coisa que a calou de sbito.
       E as outras vezes?  perguntou bruscamente.
       Est se referindo aos outros adiamentos?
       Estou.
       Hal precisava fazer o doutorado. Era importante que conclusse a dissertao antes de nos casarmos... e comearmos uma famlia.
      Como sempre, Cage a fizera gaguejar feito uma idiota. Ela queria lhe pedir que no se aproximasse tanto, mas ele no estava to perto assim. Era s impresso. 
Tinha sempre aquele efeito sobre ela. Fazia-a ficar sem flego, sentir uma leve tontura. Provocava-lhe uma necessidade estranha de unir as mos e apert-las com 
fora, de manter-se intacta como se estivesse a ponto de explodir em pedaos. Aquele homem a perturbava. Jenny no sabia por que, mas era assim. Especialmente aquela 
noite, em que ela estava com os nervos  flor da pele e mal conseguia manter o autocontrole, era difcil enfrentar aquele olhar penetrante. Ele via demais.
       Diga-me uma coisa: quando voc e Hal comearam a sair juntos afinal?
       A sair juntos?  O tom de voz de Jenny sugeria que aquela expresso no fazia parte de seu vocabulrio.
       E, sair, ficar de mos dadas. Ficar se beijando no drive-in. Namorando. S pode ter sido quando eu estava na faculdade, porque no me lembro.
       Bom, ns nunca comeamos a sair juntos propriamente. Apenas... apenas aconteceu. Estvamos sempre juntos. ramos considerados um casal.
       Jenny Fletcher  disse Cage, cruzando os braos no peito largo e olhando para ela com incredulidade , est querendo me dizer que no teve nenhum outro namorado?
       No. Ningum queria me namorar!  ela retrucou numa atitude defensiva.
      Cage ergueu as mos num gesto de capitulao.
       Calma mocinha. No foi isso que eu quis dizer. Voc podia ter todos os rapazes da cidade aos seus ps.
       Eu nunca quis ter algum aos meus ps. No me parece uma coisa digna.
      Jenny corou, e Cage no resistiu  tentao de roar o dorso da mo em seu rosto. Ela afastou a cabea, e ele interrompeu o gesto.
       Qualquer homem estaria disposto a mandar a dignidade s favas por voc, Jenny  disse pensativo, depois falou num tom mais leve.  Mas nunca saiu com outro 
rapaz porque isso no seria justo com Hal, no  mesmo?
       Exatamente.
       Mesmo quando os dois estavam na Unio Crist do Texas?
       Sim.
       Hum...  Num gesto automtico, Cage fez meno de pegar o mao de cigarros, mas, lembrando-se, mudou de ideia. No tirava os olhos de Jenny.  Quando foi 
que Hal a pediu?
       Faz tempo. Anos. Acho que quando estvamos na UCT.
       "Acho"? Voc no se lembra? Como pode ter esquecido um momento to decisivo?
       No quero falar sobre isso, Cage.
       No foi decisivo?
       A vida no  como no cinema.
       Voc deve ter assistido aos filmes errados  ele comentou com um sorriso irnico.
      Jenny lhe endereou um olhar acusador.
       Eu sei muito bem a que filmes voc assiste. Aos que Sammy Mac Higgins exibe na sala dos fundos da piscina coberta de madrugada.
      Cage tentou ficar srio ante aquele tom solene, no conseguiu e, desistindo, exibiu uma vez mais o seu sorriso estonteante.
       As damas tambm podem assistir. Quer ir comigo um dia desses?
       No!
       Por que no?
       Por que no? Nem morta eu assistiria a um filme desses. So nojentos.
      Ele se inclinou para frente, aproximando o rosto.
       Como pode saber que so nojentos se nunca assistiu a eles?  Jenny lhe empurrou o ombro, e ele recuou, mas no antes de sentir-lhe o perfume fresco e floral. 
O sorriso se desfez aos poucos, dando lugar a uma expresso sombria, seus olhos procuraram os dela.
       Jenny, quando foi que Hal a pediu em casamento?
       Eu j disse, foi...
       Onde vocs estavam? Descreva o lugar. Que aconteceu? Ele se ajoelhou? Foi no banco traseiro do carro? De dia? De noite? Na cama? Quando?
       Pare com isso! Eu j disse que no me lembro.
       Meu irmo chegou a fazer o pedido mesmo?  falou to baixo que ela precisou aguar os ouvidos.
       Como assim?
       Ele disse alto e bom som: "Jenny, quer se casar comigo?"
      Ela desviou o olhar.
       Ns sempre soubemos que amos nos casar.
       Quem sempre soube? Voc? Hal? Mame e papai?
       Todo o mundo.  Ela virou as costas e fez meno de voltar para a casa.  Eu preciso entrar e...
      Cage lhe segurou o pulso, detendo-a. Sua mo era grande e clida.
       Pea a Hal que desista dessa viagem maluca. 
      Ela deu meia-volta.
       Qu?
       Voc me ouviu. Mande-o ficar aqui, onde  o lugar dele.
       Eu no posso.
       Voc  a nica pessoa a quem Hal daria ouvidos. No quer que ele v, quer?
      Jenny no respondeu.
      Cage repetiu a pergunta com mais nfase.
       No!  gritou ela, afastando-se com um safano.  Mas no posso impedi-lo de cumprir uma misso divina.
       Ele a ama?
       Ama.
       E voc o ama?
        claro.
       Quer se casar com ele e ter uma casa, filhos e tudo o mais, no quer?
       Isso  problema meu e de Hal.
       Droga, no estou querendo me intrometer em sua vida pessoal. Estou tentando impedir que o meu irmo se mate estupidamente naquele fim de mundo. Agora, queiram 
ou no, continuo sendo membro da famlia, e voc vai responder.
      Jenny cedeu ante aquelas palavras. Sentiu vergonha de estar excluindo-o dos assuntos da famlia do mesmo modo que seus pais costumavam fazer. Afinal, a pessoa 
de fora era ela, no Cage. Seus olhares se encontraram.
       E claro que quero tudo isso. H anos que espero esse casamento.
       Muito bem  disse ele com mais calma , ento lhe d um ultimato. Diga-lhe que no vai estar aqui quando ele voltar. Mostre-lhe o que est sentindo.
      Ela sacudiu a cabea.
       Hal se sente na obrigao de participar dessa misso.
       Pois ento o obrigue a fazer outra coisa, Jenny. Eu penso nele tanto quanto voc. Puxa vida, se nem os presidentes, os diplomatas, os mercenrios e sabe 
Deus quem mais conseguem dar um jeito naquela confuso na Amrica Central, Por que Hal acha que vai conseguir?
       Deus h de proteg-lo.
       Voc s est repetindo o que ele disse. Eu tambm conheo a Bblia, Jenny. Enfiaram versculo por versculo na minha cabea. Houve uma poca em que estudei 
muito os generais hebreus. Sim, eles foram capazes de algumas batalhas milagrosas, mas Hal no conta com um exrcito. No conta nem sequer com o apoio do governo 
dos Estados Unidos. Deus deu a cada um de ns um crebro com que raciocinar, e o que meu irmo est fazendo  irracional.
      Jenny concordava com Cage. Porm ele era especialista em distorcer as palavras e as verdades a fim de ajust-las aos seus prprios fins. Aceitar a sua maneira 
de pensar significava flertar com a heresia. Alm disso, a obrigao dela era ser leal com Hal e com a causa  qual ele se dedicava.
       Boa noite, Cage.
       H quanto tempo voc mora conosco, Jenny?
       Desde os meus quatorze anos. H quase doze.  Os Hendren a acolheram em casa quando seus pais morreram tragicamente. Um dia, estando ela na escola, o aquecedor 
a gs explodiu em sua casa, incendiando-a por completo. Jenny se lembrava de ter ouvido as sirenes do caminho dos bombeiros e da ambulncia durante a aula de lgebra. 
No sabia que o acidente envolvera seus pais e sua irm menor, que aquele dia ficara em casa com dor de garganta. O pai tinha voltado do trabalho na hora do almoo 
para saber se a menina estava melhor. Ao anoitecer, Jenny se viu sozinha no mundo, sem nada seu alm da roupa do corpo.
      Os Fletcher eram muito amigos do pastor Bob Hendren e de sua esposa Sarah. Como Jenny no tivesse parentes vivos, no houve muita discusso sobre o seu futuro.
       Eu lembro que voltei da faculdade no feriado de Ao de Graas e encontrei-a aqui  disse Cage.  Mame havia transformado a sala de costura num quarto digno 
de uma princesa. Finalmente tinha a filha que sempre desejara. Mandaram-me trat-la como uma pessoa da famlia.
       Seus pais foram muito bons para mim  concordou Jenny com voz sumida.
        por isso que nunca se ope a eles? 
      Ela ficou ofendida e no o dissimulou.
       No sei do que est falando!
       Ora, sabe sim. Ser que tem medo que a joguem na rua se no concordar com eles?
       Isso  ridculo!
       No, no  ridculo.  triste  retrucou Cage, projetando o queixo quadrado e firme.  Eles sempre decidiram quem podia ou no ser seu amigo, a roupa que 
devia usar, o colgio que freqentava, at mesmo com quem ia se casar. E agora parece que vo decidir inclusive a data do casamento. Ser que tambm vo planejar 
quantos filhos voc ter?
       Pare com isso, Cage. Nada do que est dizendo  verdade, e eu no vou ouvir mais nenhuma palavra. Voc andou bebendo?
       Infelizmente no. Mas eu deveria ter tomado um porre.  Avanou um passo e lhe agarrou o brao.  Acorde Jenny. Eles a esto sufocando. Voc  uma mulher, 
uma mulher lindssima. Que poder acontecer se fizer uma coisa que eles no aprovam? J no tem catorze anos. Ningum poder puni-la. Se a mandarem embora, coisa 
que nunca vo fazer, que importa? Voc pode ir aonde quiser.
       Ser uma mulher independente?  isso?
       , acho que a palavra  essa.
       E acha que eu devia "cair na vida" como voc?
       No. Mas tambm acho errado que ocupe noventa por cento do tempo envolvida em grupos de estudos bblicos.
       Eu gosto de trabalhar para a igreja.
       Excluindo tudo o mais?  Agitado, ele passou os dedos nos cabelos.  O trabalho que faz na igreja  admirvel. Eu no tenho nada contra. Mas no suporto 
v-la definhando feito uma velha senhora muito antes do tempo. Voc est jogando a vida fora.
       No estou. Vou ter a minha vida com Hal.
       No se o matarem na Amrica Central.  Ele a viu empalidecer de sbito e abrandou o tom de voz.  Escute, eu lamento. No queria ser to rude.
      Ela aceitou o pedido de desculpas com indulgncia.
       O que importa agora  Hal.
        verdade.  Cage lhe tomou as mos.  Fale com ele, Jenny.
       No posso mudar o seu modo de pensar.
       Ele precisa ouvi-la. Vai se casar com voc.
       No tenha tanta esperana.
       No vou responsabiliz-la pela deciso dele, se  isso que est querendo dizer. S peo que me prometa tentar convenc-lo a no ir.
      Ela olhou na direo da cozinha. Pela janela viu Hal e os pais ainda reunidos em torno da mesa, discutindo animadamente.
       Vou tentar.
       timo.  Apertou-lhe as mos antes de solt-las.
       Sarah disse que voc vai dormir aqui hoje.  Por alguma razo, Jenny no queria que Cage soubesse que ela havia arrumado o quarto para que ele passasse a 
noite, arejando-o durante a tarde e trocando a roupa de cama. Preferia deix-lo pensar que a me tinha se dado ao trabalho.
       , prometi estar aqui para a grande despedida de Hal amanh cedo. Espero que no acontea.
       Bom, de qualquer modo, Sarah fica contente quando voc dorme aqui.
      Ele sorriu com doura e lhe roou a face.
       Ah, Jenny, voc  uma grande diplomata. Mame me convidou e, logo depois, mandou-me aproveitar para levar embora todos os trofus de futebol e de basquete 
do meu quarto. Diz que est cansada de tirar o p de tanta porcaria.
      Com pena de Cage, tomada de emoo, Jenny engoliu em seco. Poucas semanas antes ela e Sarah tinham embrulhado os trofus esportivos de Hal em panos limpos 
e os guardado em caixas no sto. Havia doze anos que sabia perfeitamente quem era o filho preferido. Mas Cage no podia culpar ningum disso a no ser a si mesmo. 
Havia escolhido um estilo de vida que seus pais jamais aprovariam.
       Boa noite, Cage.
      Jenny teve o sbito desejo de abra-lo. Muitas vezes ele parecia carente, o que era uma idia ridcula em face de sua reputao de "garanho" na cidade. Mas 
ser que aquele tipo de amor era suficiente mesmo para um homem to arisco e dado a aventuras?
       Boa noite.
      Ela o deixou com certa relutncia e entrou na casa pela porta dos fundos. Hal a fitou e fez um sinal com a cabea para que se aproximasse. Estava ouvindo atentamente 
os planos do pai de angariar doaes em todo o estado quando os refugiados chegassem ao Texas.
      Colocando-se atrs da cadeira dele, Jenny lhe abraou os ombros e se inclinou a fim de apoiar o queixo em sua cabea.
       Cansada? Vai ter de acordar cedo amanh para me ajudar.
      Ela suspirou e ocultou o rosto nos cabelos do noivo: no queria que ningum visse o seu desespero.
       Eu no vou conseguir dormir.
       Tome um dos comprimidos que o mdico receitou para mim  sugeriu Sarah.  So fracos, um s no vai fazer mal. Ajuda a descansar o crebro e a dormir.
       Vamos  disse Hal, afastando a cadeira.  Eu subo com voc.
       Boa noite, Bob. Boa noite, Sarah  disse Jenny com desnimo.
       Filho, voc no me deu o nome do seu contato no Mxico  lembrou o pastor.
       Ainda no vou dormir. Eu volto j. Em um minuto.
      Os dois subiram juntos a escada. L em cima, Hal parou  porta do quarto dos pais.
       Voc quer o comprimido?
       Sim. Do contrrio vou acabar passando a noite em claro.
      Ele se afastou para retornar um momento depois com dois pequenos comprimidos rosados na palma da mo.
       A bula diz um ou dois. Acho melhor tomar dois.
      Entraram no quarto dela. Jenny acendeu o abajur do criado-mudo. Cage tinha razo. Assim que a levaram para a casa paroquial, aquele quarto se havia transformado 
nos aposentos de uma verdadeira princesa. Infelizmente, ela no tivera oportunidade de dar o menor palpite na decorao. E, poucos anos antes, quando Sarah chegara 
 concluso de que estava na hora de fazer algumas mudanas, a detestvel cortina de bolinhas azuis foi substituda por uma de bolinhas cor-de-rosa. O quarto era 
muito juvenil para o gosto de Jenny. Mas por nada neste mundo ela magoaria Sarah. S esperava que, quando se casasse, lhe fosse permitido decorar a sute que lhe 
estava reservada. No se falara em mudana para uma casa s deles porque Hal assumiria a parquia quando Bob se aposentasse.
       Tome o remdio e ponha o pijama. Eu espero para cobri-la.
      Jenny foi para o banheiro, onde engoliu ambos os comprimidos como ele mandara. Mas no ps o pijama. Vestiu a camisola que havia comprado s escondidas na 
esperana de ter uma ocasio como quela para us-la.
      Olhou-se no espelho e tomou a deciso de agir como Cage recomendara. No queria que Hal viajasse. Era uma misso perigosa, louca. E, mesmo que no fosse, atrapalharia 
uma vez mais seus planos de casamento. Que mulher se dispunha a suportar semelhante coisa?
      Tinha o pressentimento de que seu futuro dependia daquela noite. Precisava impedir Hal de viajar, do contrrio sua vida ficaria alterada para sempre. Precisava 
entrar no jogo, e o prmio seria tudo ou nada. Usaria o estratagema mais antigo do mundo para assegurar a vitria.
      Deus sancionara a noite de Rute com Boaz. Talvez aquela fosse uma ocasio equivalente.
      Mas Rute no se apresentara com uma camisola a roar-lhe pecaminosa e sensualmente a pele, as duas alas finas como cordas de violino a segurar a pea, cujo 
decote descia entre seus seios, expondo-lhes as generosas curvas. A camisola prola se ajustava perfeitamente ao seu corpo, sem deixar escapar nenhum detalhe, alargando-se 
levemente nos quadris. A barra roava-lhe o peito dos ps.
      Ela ps um suave perfume floral e escovou os cabelos. Estando pronta, fechou os olhos e tentou com todo ardor reunir coragem para abrir a porta. Apagou a luz 
antes.
       Jenny, no se esquea de...
      O que Hal ia dizer se apagou por completo em sua mente no momento em que ele a viu. Aquela viso, ao mesmo tempo sensual e etrea, caminhou devagar at a porta, 
os ps descalos, fechou-a mansamente e a trancou. A luz dourada do abajur lhe banhava a pele, projetando a sombra de suas pernas na transparncia da camisola.
       O que voc... Onde arranjou essa... h... essa roupa?  balbuciou Hal.
       Estava guardada para uma ocasio especial  respondeu Jenny em voz baixa, estendendo as mos para ele, tocando-lhe o peito.  Acho que  hoje.
      Ele riu sem jeito. Enlaou-lhe a cintura, embora frouxamente.
       Seria melhor guard-la at o dia do casamento.
       E quando vamos nos casar?
      Jenny acomodou o rosto no peito desnudo pela camisa de algodo. Hal se vestia com simplicidade, estava de jeans.
       Assim que eu voltar. Voc sabe. Eu prometi.
       J prometeu tantas vezes.
       E voc sempre foi to compreensiva  disse ele com fervor. Roou-lhe os cabelos com os lbios, acariciou-lhe as costas.  Desta vez, no vou quebrar a promessa. 
Quando eu voltar...
       Isso pode levar meses.
       Pode  disse Hal com tristeza, inclinando-lhe a cabea para trs a fim de lhe ver o rosto.  Sinto muito.
       Eu no quero esperar tanto tempo, Hal. 
       Como assim? 
      Jenny se acercou mais, encostando o corpo no dele, fazendo com que suas pupilas se contrassem como se estivessem diante de demasiada luz. 
       Me ame.
       Mas eu a amo, Jenny.
       Eu estou dizendo...  Ela umedeceu os lbios e respirou fundo.  Me abrace. Venha para a cama comigo. Vamos fazer amor.
       Jenny...  murmurou Hal.  Por que est agindo assim?
       Porque estou desesperada.
       E est me fazendo ficar mais desesperado ainda.
       No quero que viaje.
       Eu preciso ir.
       Fique, por favor.
        um compromisso.
       Case-se comigo  sussurrou ela com os lbios colados em seu pescoo.
       Vamos nos casar quando tudo estiver acabado.
       Eu preciso de uma prova de amor.
       Voc tem todas.
       Ento mostre. Ame-me agora.
       Eu no posso. No seria correto.
       Para mim, seria.
       No seria para nenhum de ns.
       Ns nos amamos.
       Por isso mesmo temos de fazer sacrifcios um pelo outro.
       Voc no me deseja?
      Apesar da hesitao, Hal a estreitou com mais fora e beijou seu pescoo.
       Desejo sim. s vezes fico imaginando como seria bom ir para a cama com voc e... Sim, Jenny, eu a desejo.
      Beijou-a. Entreabriu os lbios nos dela, deslizou a mo na curva de seu quadril. Ela reagiu apertando-o com mais fora, roando a coxa na dele. Suas lnguas 
se encontraram. Ela gemeu.
       Por favor, faa amor comigo, Hal  pediu, agarrando-lhe a camisa.  Eu preciso de voc hoje. Preciso do seu abrao, do seu carinho, preciso ter certeza de 
que voc vai voltar.
       Eu vou voltar.
       Mas no tenho certeza. Quero fazer amor antes que voc parta.  Cobriu-lhe de beijos os lbios, o rosto, o pescoo. Hal tentou se afastar, mas Jenny continuou 
beijando-o. Por fim, ele lhe prendeu os braos e a arredou de si. Estava muito srio.
       Pense um pouco, Jenny!
      Ela o encarou como os olhos arregalados, como se tivesse sido esbofeteada. Sem flego, engoliu em seco.
       Ns no podemos fazer isso. Seria contra os nossos princpios. Amanh cedo, vou partir numa misso enviada por Deus e no posso permitir que voc, linda 
e desejvel como , me distraia. Alm disso, meus pais esto me esperando.  Inclinou-se e a beijou castamente no rosto.  Agora seja uma boa menina e v se deitar. 
 Levou-a para a cama e afastou as cobertas. Obediente, Jenny se deitou. Hal a cobriu, esforando-se para no olhar para os seios fartos.  At amanh.  Sua boca 
tocou a dela de leve.  Eu a amo sim, Jenny. Por isso no vou fazer o que est me pedindo.  Apagou o abajur, saiu e fechou a porta, deixando o quarto na escurido.
      Jenny se virou para o lado e comeou a chorar. As lgrimas quentes e salgadas rolavam em seu rosto, molhando a fronha. Nunca se sentira to abandonada, nem 
mesmo ao perder a famlia. Estava sozinha, mais sozinha do que em qualquer outro momento da vida.
      At mesmo seu quarto parecia estranho e desconhecido. Talvez fosse o efeito do sedativo. Ela tentou distinguir a forma dos mveis e o contorno das janelas 
na escurido, porm tudo parecia borrado e confuso. Sua percepo estava embotada pela droga que tomara.
      Jenny teve a sensao de flutuar, de adormecer, mas as lgrimas continuavam escorrendo, impedindo-a de dormir. Que humilhao! Acabara de violar o seu prprio 
cdigo moral. Oferecera-se ao homem que amava. Hal jurava que a amava, mas a rejeitara pura e simplesmente!
      Mesmo que no houvesse chegado a consumar o ato de amor, ele podia ter se deitado a seu lado, abraando-a, oferecendo-lhe uma prova da paixo que afirmava 
sentir, deixando-lhe um fragmento de lembrana a que se ater enquanto ele estivesse ausente.
      Mas a rejeio fora total. Afinal, que lugar ela ocupava na ordem de prioridades da vida daquele homem? Hal tinha coisas mais importantes a fazer que am-la 
e confort-la.
      Ento a porta do quarto se abriu.
      Jenny se virou na direo do rudo e tentou focalizar os olhos marejados no facho de luz que se recortava na escurido. Viu a silhueta de um homem no sbito 
claro, um segundo antes qu ele entrasse e fechasse a porta atrs de si.
      Jenny se sentou e estendeu os braos para ele, o corao a saltar de alegria.
       Hal!  exclamou.
      
      
      
      
      
      
              
   CAPTULO II
      
      
      
      Ele se aproximou e sentou-se na beira da cama. Sua sombra se fundiu com as outras que povoavam o quarto.
       Voc voltou, voc voltou!  repetia Jenny, segurando-lhe as mos, levando-as aos lbios, cobrindo-as de beijos.  Eu estava to triste. Preciso de voc hoje. 
Abrace-me.  Suas palavras se afogaram em soluos. Ele a estreitou com ternura.  Oh, sim, abrace-me com fora.
       Psiu...
      O movimento repentino de erguer o corpo na cama, as poucas palavras que acabava de dizer, tudo contribuiu para lhe entorpecer ainda mais a coordenao j afetada 
pelo remdio. Sem foras, Jenny pousou o rosto na concha daquelas mos. Ele lhe acariciou as bochechas com o polegar, enxugando-lhe as lgrimas.
       Psiu.
      Ela mergulhou a face na depresso entre o pescoo e o peito dele. Sentiu-lhe a aspereza da barba. Num gesto espontneo, ergueu a mo para lhe tocar o rosto. 
Passou delicadamente as unhas em seu queixo, roando-lhe acidentalmente os lbios com a ponta dos dedos.
      Ele deixou escapar um gemido. Um gemido que parecia vir de longe, embora a excitao de seu corpo estivesse muito prxima, muito presente. Com o peito vibrando, 
fez com que Jenny inclinasse a cabea para trs e procurou sua boca. Num gesto possessivo, segurou-lhe o rosto. Oferecendo os lbios, ela abandonou os derradeiros 
pensamentos conscientes, entregando-se unicamente ao instinto sensual que a dominava.
      Ele a beijou. Desta vez, sua hesitao foi breve. No tardou mais que um instante para que sua lngua mergulhasse na doura da boca de Jenny, agitando-se loucamente, 
buscando seus mais secretos recessos.
      Estonteada, ela se agarrou com mais fora quele corpo quente e convidativo. No sabia se o zumbido em sua cabea e o delicioso flutuar dos sentidos se deviam 
ao poder do beijo ou aos comprimidos que tomara. Era to bom! O beijo prosseguiu mais impetuoso e voraz a cada segundo, a cada batida do corao.
      Acaso o lenol e o cobertor haviam cado no cho? Sim, com certeza, pois ela sentiu frio. Depois calor. Era a mo dele a aquec-la. A mo? Sim, sua mo lhe 
percorria o corpo, tocava-lhe os seios, roando e acariciando.
      Jenny sentiu na cabea a maciez do travesseiro e se deu conta de que ele a havia deitado suavemente. As alas da camisola caram de seus ombros. Ela gemeu 
sem saber se num protesto ou se para manifestar consentimento. No sabia de nada. S sabia daquelas mos que passeavam em sua nudez, que exploravam as suas formas, 
moldando-se aos volumes e curvas de seu corpo. S sabia daqueles dedos resvalando em seus mamilos, repetidamente, prendendo-os com delicadeza, acariciando-os.
      Depois, ela se sentiu entregue a um turbilho de sensaes clidas e envolventes, que se arrastavam em sua pele. Uma boca? Sim, sim, sim! A doce umidade de 
uma lngua a beij-la mansamente, a afag-la em movimentos ora circulares, ora em linha reta, devagar, depressa, de leve.
      Jenny quis agarrar-lhe a cabea e prend-la contra si, mas no conseguiu. Seus braos jaziam na cama, pesados e inteis, como que presos por mos invisveis. 
O sangue latejava em suas veias, mas ela no tinha nem fora nem energia para se mover.
      Recebeu com prazer o peso de seu corpo quando ele se estendeu na cama, cobrindo-a parcialmente. A lngua explorava o interior de sua boca, com doura, feito 
um invasor furtivo. Era delicioso. Ele era delicioso.
      Orientada por aquelas mos, Jenny ergueu os quadris, ajudando-o a despir-lhe a camisola. Ficou nua e vulnervel debaixo dele. Contudo, as mos que lhe percorriam 
o corpo eram doces, gentis, davam-lhe prazer. Tocavam-na em toda parte, detendo-se com freqncia, tornando cada carcia um adorvel presente.
      At mesmo seus ps acariciavam os dela. Ou seria sua lngua? Sentiu-a nas panturrilhas. Nos joelhos. Nas coxas. Ento as mos a ergueram, posicionaram-na, 
e ela sentiu o contato do lenol na sola dos ps.
      Jenny obedecia a cada silenciosa ordem sem pensar. Seria inconcebvel recusar, resistir. Era escrava daquele amo sedutor, uma sacerdotisa da sensualidade, 
uma discpula do desejo.
      Os cabelos dele fizeram ccegas em seu ventre quando ele se ps a mover a cabea de um lado para outro, mordiscando de leve a carne macia entre seus lbios, 
passando a lngua, sugando com delicadeza.
      E, ao sentir aquela mo espalmada em seu pbis, ela pousou a cabea no peito largo e saboreou a encantadora carcia, a doce frico.
      Oh, sim! gritou sua mente com alegria. Ele a amava! Desejava-a! E ela tratou de mostrar seu amor, movendo o corpo num tempestuoso bailado.
      Os dedos curiosos e investigantes provocaram a reao natural: sua carne se tornou mida e escorregadia. Uma massagem sensual lhe acelerou a respirao e lhe 
apressou as batidas do corao.
      Mais. Mais depressa. Com mais sensualidade. Num ritmo vertiginoso. At que...
      Jenny sentiu a alma abrir-se e dela escapar um bando de pssaros a cantar, que se espalharam com um rumor de asas.
      No bastava! Ela ainda ansiava por mais.
      O brim do jeans dele era spero, mas no desagradvel. Os botes se abriram. O tecido caiu. Ento...
      Plos. Pele. Um membro rijo, quente e aveludado. Um doce roar de corpos, as lnguas se encontraram e houve uma exploso de cores.
      A penetrao foi rpida e segura.
      Ela ouviu o grito agudo um instante depois de sentir o ardor espalhar-se em todo o seu corpo, mas no lhe ocorreu que sara dela aquele som carregado de surpresa. 
Estava demasiado fascinada pela sensao de plenitude. Porm, assim que ela chegou a perceber o esplendor daquela posse, ele comeou a escapar.
       No, no!
      As palavras ecoaram nos espaos escuros de sua mente, e ela se perguntou se de fato as havia dito em voz alta. Estava consumida pela convico de que no tinha 
acabado ainda, no podia ter acabado.
      Como que movidas por vontade prpria, suas mos escorregaram por dentro do jeans aberto e lhe pressionaram os msculos das ndegas. Ela sentiu o espasmo agitar 
o corpo masculino, ouviu-lhe um gemido animal, sentiu na orelha o seu hlito febril e, como num milagre, sentiu aquela rigidez penetrando-a ainda mais uma vez.
      Dctil, malevel, Jenny se rendeu sob ele e ficou numa posio mais confortvel, que permitia o mximo de sensaes. Uma chuva de beijos lhe caiu no pescoo, 
no rosto, nos seios, deixando impresses ardentes em sua pele.
      Todo seu corpo reagiu  mirade de sensaes que a invadiu. Ela parecia presa ao ritmo que sacudia seus corpos unidos em perfeita harmonia.
      Ento, a mola que vinha se enrolando cada vez mais dentro dela soltou-se de sbito.
      Seu corpo ficou tenso e Jenny sentiu cada preciosa erupo do amor.
      Ela estava quase dormindo quando ele finalmente se afastou e, deitando-se a seu lado, aninhou-a nos braos. Jenny se agarrou quele corpo slido, sentindo 
sua camisa mida. Uma sensao de paz e segurana nunca experimentada antes se apossou dela.
      Ainda tonta, ainda arrebatada, ainda confusa com a experincia, estava sorrindo quando resvalou docemente num sono sem sonhos.
      Jenny acordou cedo. Estava sozinha. Hal a havia deixado durante a noite. Era compreensvel, e ela lhe perdoou, mesmo pensando que teria sido maravilhoso despertar 
em seus braos. Mas os Hendren jamais aprovariam o que se passara aquela noite. Do mesmo modo que Hal, Jenny achava melhor manter aquela noite como um segredo s 
dos dois.
      Ouviram-se passos no patamar da escada, um sussurro de vozes atravessou as paredes da velha casa. Ela sentiu cheiro de caf. Eram os preparativos da partida. 
Ao que tudo indicava Bob e Sarah ainda no sabiam de nada.
      A noite anterior havia alterado tudo. Agora, Hal devia estar to ansioso pelo casamento quanto ela. Jenny relembrou a deliciosa noite de amor e no sentiu 
vergonha, mesmo tendo-a usado para convenc-lo a ficar.
      O lugar dele era ao lado dela. Podia continuar sendo o pastor auxiliar at que o pai se aposentasse, ento assumiria plenamente a parquia. Jenny se sentia 
preparada para ser a esposa do reverendo. Decerto seu noivo tinha compreendido que era aquilo que Deus queria para eles.
      Mas como reagiriam os Hendren  mudana de planos?
      Para no deixar que Hal enfrentasse a tempestade sozinho, Jenny afastou as cobertas e quase se surpreendeu ao ver que estava nua. Oh, sim, ele lhe havia despido 
a camisola, no havia? E com muita impetuosidade, alis, pensou sorrindo com malcia.
      Estava muito corada quando entrou no banheiro e ligou o chuveiro. Nada mudara em sua aparncia, embora, numa inspeo mais detida, pudessem se notar certas 
marcas rosadas em seus seios.
      Sim, Hal deixara em sua pele um sinal indelvel. Pensando nisso, ela voltou a sentir o peso gostoso de seu corpo, os movimentos flexveis de seus msculos, 
tornou a ouvir-lhe os gemidos de gratido. E ficou ao mesmo tempo envergonhada e emocionada ao sentir a reao de seu corpo s lembranas.
      Vestiu-se apressadamente e desceu a escada ansiosa por ver o noivo. Ao entrar na cozinha, estava com o corao palpitante de expectativa. Sem flego, parou 
na soleira e observou a cena.
      Os Hendren achavam-se em atitude de orao  mesa posta para o caf da manh. Cage tambm estava presente, muito reclinado na cadeira, porm olhando fixamente 
para a xcara que ele mantinha equilibrada na fivela do cinturo.
      E Hal, onde estava? No era possvel que continuasse dormido.
      Bob disse amm e levantou a cabea. Viu-a.
       E Hal?  ela perguntou.
      Os trs a fitaram em silncio. Jenny sentiu o ar pesado, como se nuvens de chumbo estivessem se acumulando num horizonte ameaador.
       Ele j foi minha filha  respondeu Bob com delicadeza. Levantou-se, ps a cadeira no lugar e deu um passo em sua direo.
      Ela recuou como ante uma ameaa. Alguma coisa a sufocava, impedindo-a de respirar. A cor sumiu de seu rosto.
       No pode ser...  Suas palavras eram quase inaudveis.  Ele nem se despediu de mim.
       No quis submet-la a uma cena triste de despedida  explicou o reverendo.  Achou que seria mais fcil assim.
      Aquilo no podia estar acontecendo. Jenny havia representado mentalmente a cena: Hal hipnotizado ao v-la. Imaginara os dois entreolhando-se, dois amantes 
a compartilhar um segredo que ningum mais conhecia.
      Mas ele tinha partido, e tudo o que Jenny via eram aqueles trs rostos voltados para ela, dois deles com compaixo, o de Cage sem demonstrar o menor vestgio 
de emoo.
       Eu no acredito!  gritou. E, atravessando precipitadamente a cozinha, quase tropeou numa eira antes de sair pela porta dos fundos.
      O quintal estava deserto. Ela contornou a casa e no viu carro algum na rua.
      Hal tinha partido.
      A verdade a atingiu como um raio. Jenny teve vontade de vomitar. Vontade de se jogar no cho e esmurrar a terra dura. Vontade de gritar. Estava muito decepcionada.
      Mas que esperava afinal? Hal nunca demonstrara grande afeio por ela. Agora,  luz do dia, era fcil perceber quanto se havia iludido. Em nenhum momento ele 
prometera cancelar a viagem. Simplesmente tinha selado seu compromisso de amor com um ato fsico. Haver esperado mais que isso era falta de realismo. Nada mais caracterstico 
de Hal que poup-la da humilhao de lhe suplicar que no viajasse. Simplesmente tinha preferido evitar o sofrimento para os dois.
      Neste caso, por que ela se sentia to abandonada? Sentia-se perdida, triste, preterida e rejeitada.
      E furiosa.
      Palavra, ela estava furiosa. Como seu noivo tinha sido capaz de deix-la? Como? Como, se ela sentira tanto o fato de no poderem terminar a noite nos braos 
um do outro?
      Jenny ficou parada na calada rachada, olhando para a rua vazia. Como ele podia t-la deixado to despreocupadamente, sem nem sequer dizer adeus? Ser que 
ela era to pouco importante? Se Hal a amasse...
      A idia a fez interromper os pensamentos abruptamente. Acaso ele a amava? De verdade.
      E ela? Amava-o de fato? Ou era como Cage sugerira na noite anterior? Ser que ela e Hal simplesmente haviam assumido o relacionamento que todos esperavam deles 
porque lhes era conveniente? Para ela oferecia segurana, e para ele no lhe tomava tempo, no o desviava de seus deveres paroquiais?
      Que idia desalentadora!
      Jenny se esforou para descart-la. Por que no conseguia conservar a felicidade que tanto a acalentara, depois de fazerem amor?
      Mas as dvidas no podiam ser varridas para debaixo do tapete. Permaneciam ali, no primeiro plano, e ela se dava conta de que precisava chegar a uma concluso 
antes que Hal retornasse da viagem. Seria insensato aventurar-se no casamento com tantas incertezas a atorment-la. A unio de seus corpos fora gloriosa, porm evidentemente 
aquela no era a melhor base para alicerar um matrimnio. Sem contar que tudo acontecera quando ela estava atordoada com o sedativo. Talvez a lembrana que guardava 
da experincia sexual fosse mais encantadora do que tinha sido na realidade. Talvez tudo no passasse de uma fantasia ertica induzida pela droga.
      Girando sobre os calcanhares a fim de voltar Para a casa, quase se chocou com Cage, que havia se aproximado to silenciosamente que ela no percebera a sua 
presena.
      Jenny teve um sobressalto ante o impacto de seu olhar.
      Ele a examinava atentamente; seus olhos cor de mel, toldados pelas sobrancelhas espessas, claras como a areia, no piscavam, eram como os de um gato.
      Cage permaneceu imvel at que um canto de sua boca se erguesse involuntariamente.
      Jenny atribuiu ao arrependimento e ao remorso aquele gesto fingido. Estaria com pena dela porque no tinha conseguido convencer Hal a ficar? Seria assim que 
todos na cidade passariam a v-la, uma pobre amante abandonada, rejeitada por um homem cujo trabalho era mais importante que ela?
      Irritada com a idia, Jenny desviou o olhar, endireitou os ombros e tentou afastar-se. Ele deu um passo para o lado, bloqueando-lhe o caminho.
       Voc est bem, Jenny?  Juntou as sobrancelhas. As rugas no canto dos olhos se pronunciaram. Seu queixo parecia duro como o granito.
       Claro que sim  ela se apressou a dizer com um sorriso forado.  Por que no estaria?
      Ele deu de ombros.
       Hal viajou sem se despedir de voc. Foi embora.
       Mas vai voltar. E fez bem em partir assim, sem grandes cenas melodramticas. Eu no teria agentado a despedida  retrucou Jenny, perguntando-se se suas 
afirmaes pareciam to falsas para ele quanto para ela.
       Voc falou com ele ontem?
       Falei.
       E?
      A voz lhe falhou, ela desviou o olhar.
       E ele fez com que eu me sentisse muito melhor. Quer que nos casemos assim que estiver de volta.
      No chegava a ser uma mentira. Tampouco era verdade, e os olhos perscrutadores de Cage lhe diziam que ele no estava convencido. Jenny avanou rapidamente 
rumo ao quintal.
       J tomou caf? Vou preparar alguma coisa. Dois ovos mexidos?
      Ele sorriu.
       Voc no esqueceu que eu gosto disso?
       Claro que no.
      Subiram os degraus do alpendre, e ela abriu a porta telada. Quando Cage passou, seus corpos se roaram brevemente. A reao foi imediata. Todas as clulas 
de Jenny pegaram fogo. Seus seios se intumesceram instantaneamente. Um calor invadiu-lhe as entranhas. Seu corao disparou.
      Atnita, ela tratou de ocultar a agitao preparando o lanche de Cage o mais depressa possvel. Suas mos tremiam incontrolavelmente. E, assim que acabou de 
servi-lo, correu para o quarto.
      Agora que seu corpo adormecido tinha despertado para a sexualidade, parecia no querer dormir outra vez. Mas ser que ele no tinha o menor discernimento? 
Nenhuma discriminao? Precisava reagir desse modo a todo e qualquer homem em que ela tocasse, mesmo que acidentalmente?
      A idia a deixou constrangida. Mesmo assim, ela tirou a roupa, entrou debaixo das cobertas e encolheu os joelhos junto ao peito. As imagens sensuais da noite 
anterior desfilaram uma vez mais diante de seus olhos, desencadeando as sensaes obscenas que continuavam a lhe percorrer o corpo.
      A bebida no oferecia nenhum lenitivo para a culpa de Cage, mas o atraa como se tivesse o poder de absolv-lo.
      Havia trs garrafas de cerveja enfileiradas no tampo envernizado da mesa. Vazias. Ele mudara para o usque cerca de uma hora antes, porm a culpa que lhe envenenava 
o organismo se recusava a dissolver-se mesmo em quantidades quase letais de lcool.
      Tinha violado Jenny.
      No fazia sentido usar eufemismos para tentar aparar as arestas de sua culpa. Podia dizer que fizera amor com ela, que a havia iniciado nos ritos da sexualidade, 
que a tinha deflorado. No entanto, por mais que sua conscincia tentasse manipular a semntica, ele a violara. Podia no ter sido um estupro brutal, mas ela estava 
inconsciente, sem condies de consentir. Fora uma srdida violao.
      Cage tomou mais um gole da forte bebida. A garganta lhe ardeu. Seria bom se conseguisse ficar bbado a ponto de vomitar. Talvez se purificasse um pouco.
      Que pensamento idiota era aquele? Nada podia purific-lo. Fazia anos que ele no se sentia culpado por motivo algum. Agora, estava se afogando no remorso. 
E que podia fazer para reparar o mal? Contar a ela? Confessar?
       Oh, a propsito, Jenny, aquela noite, voc sabe, na vspera da viagem de Hal, quando voc fez amor com ele... Bom, no foi com ele. Foi comigo.
      Cage soltou um palavro e tomou o usque de um trago. Podia imaginar o lindo rosto dela desfigurando-se diante de seus olhos. Jenny ficaria horrorizada. Saber 
que tinha dormido com ele provavelmente a deixaria num estado catatnico do qual jamais se recuperaria. O mais famoso mulherengo do oeste do Texas tinha transado 
com a doce Jenny Fletcher.
      No, no podia lhe contar.
      Eleja tinha feito muitas coisas ruins, mas dessa vez descera baixo demais. Gostava de sua reputao de mau elemento. Vivia para ela, agia para mant-la viva, 
fazia questo de lembrar as pessoas de quem ele era, para que no pensassem que Cage Hendren estava amolecendo com o passar dos anos. Chegara at a assumir o que 
no tinha feito. Limitava-se a responder com um sorriso vago quando lhe imputavam alguma culpa: os interlocutores que tirassem suas concluses quanto  veracidade 
ou no do boato.
      Mas agora...
      Fazendo um sinal para o garom, Cage se deu conta do ambiente familiar em que se achava. A fumaa dos cigarros enevoava a atmosfera estagnada, aumentando ainda 
mais o rano de cerveja do bar. Letreiros de non azuis e vermelhos, anunciando vrias marcas de cerveja, piscavam nas Paredes como espectros fosforescentes. Um 
triste ouropel* ali deixado desde o ltimo Natal oscilava numa luminria em forma de roda de carroa, onde uma aranha tinha feito sua teia entre dois raios. Na vitrola 
do canto, Waylon Jennings lamentava um amor fracassado.
      Era ordinrio. Era vulgar. Era o lugar dele.
       Obrigado, Bert  disse Cage laconicamente quando o garom colocou outro copo de usque a sua frente.
       Um dia difcil?
      Uma semana difcil, pensou Cage. Fazia uma semana que convivia com seu pecado, e a culpa continuava incomodando-o. Seus dentes afiados no cessavam de lhe 
dilacerar a alma. A alma? Acaso ele tinha isso?
      Bert se curvou sobre a mesa e colocou as garrafas vazias na bandeja.
       Ouvi dizer uma coisa que pode lhe interessar.
       ? O qu?  Havia uma gota de gua na parte de fora do copo de usque, que o lembrou das lgrimas de Jenny. Ele a enxugou com o polegar.
       Sobre aquelas terras a oeste da meseta.  Apesar do estado de esprito sombrio Cage se interessou instantaneamente.
       O stio do velho Parson?
       Isso mesmo. Parece que os filhos esto dispostos a falar em dinheiro com o primeiro que se interessar.
      Cage abriu um sorriso digno de um comercial de pasta de dentes, e deu a Bert uma nota de dez dlares.
       Obrigado, compadre.
      Bert tambm sorriu e se foi. Gostava de Cage, estava contente de hav-lo ajudado.
      Cage Hendren era, sem dvida, um dos melhores negociantes da regio. Conseguia farejar o petrleo, dava a impresso de saber por instinto onde encontr-lo. 
Formara-se em geologia para tornar tudo oficial e inspirar confiana. Mas tinha um dom especial para sentir onde o mineral estava. Havia perfurado alguns poos secos, 
porm poucos. Tanto que merecia o respeito de homens que j estavam no negcio quando ele nem era nascido.
      Fazia anos que vinha tentando adquirir o direito de explorar as terras dos Parson. O velho casal tinha morrido havia poucos meses, contudo os filhos alegaram 
que no queriam profanar a propriedade da famlia perfurando poos de petrleo. Era um absurdo, e Cage sabia disso. S haviam recusado porque os preos estavam subindo. 
Ele precisava telefonar para o inventariante no dia seguinte.
       Oi, Cage.
      Estava to perdido em pensamentos que no viu a mulher at que ela se aproximasse de sua mesa, e roasse o quadril em seu ombro ao cumpriment-lo. Ele ergueu 
os olhos com evidente falta de interesse.
       Oi, Didi. Como vai?
      Sem uma palavra, ela colocou uma chave na superfcie polida da pequena mesa redonda, conduziu-a com o dedo indicador e a empurrou na direo de Cage.
       Sonny e eu finalmente nos separamos.
        mesmo?
      O casamento de Didi e Sonny estava em crise havia meses. Nenhum deles levara a srio os juramentos, muito menos o de manter a fidelidade conjugal. Mais de 
uma vez ela havia se insinuado para Cage, mas este preferira manter a distncia. Embora no tivesse l muitos escrpulos, no abria mo de um princpio: nunca com 
mulher casada. Apesar de tudo, ainda acreditava no carter sagrado do casamento e jamais quis ser responsvel por uma separao.
       Hum-hum.  mesmo. Agora sou solteira, Cage.  Didi sorriu para ele. S faltou lamber os lbios para se tornar a imitao perfeita de uma gata que acabava 
de esvaziar uma tigela de creme de leite. Dona de um corpo exuberante, estava com um jeans da griffe Neiman-Marcus e um suter muito decotado. Inclinando-se, ofereceu 
um generoso panorama de suas virtudes.
      Em vez de lhe provocar o desejo, fez com que ele se enojasse.
      Jenny. Jenny. Jenny. To limpa. Um corpo to asseadamente feminino. Sem exageros, sem extravagncia, sem volpia, apenas feminino.
      Droga!
      Mentalmente ele endireitou o corpo, embora continuasse reclinado na cadeira, girando descuidadamente o copo na mesa.
      Didi passou a unha comprida em seu brao.
       Tchau, Cage  disse com voz sedutora, e se afastou rebolando muito.
      Ele levantou um canto do lbio num sorriso sardnico. Ser que aquela mulher pensava que um convite to direto era atraente? Os modos de Didi chegavam a ser 
ridculos.
      Jenny nem sabia que era sexy. Usava uma fragrncia to sutil. Em compensao, o perfume de Didi perdurava desagradavelmente no ar depois que ela ia embora.
      A voz de Jenny tinha um tom ligeiramente rouco, era natural, espontnea, e, por isso mesmo, muito mais sensual que o ronronar afetado de Didi. E as carcias 
amadorsticas de Jenny o excitaram mais que o jogo calculado que qualquer uma de suas antigas amantes havia praticado.
      Com o cenrio montado diante de seus olhos, ele deixou o pensamento viajar ao quarto que devia pertencer a uma menina, no a uma mulher de camisola de seda. 
E era de seda. Seu tato conhecia bem a textura da seda num corpo de mulher, e a pele de Jenny tinha a mesma maciez. E seus cabelos. E...
      Sua virgindade fora um choque para ele. No era possvel, no era possvel que Hal fosse to insensvel. Como tinha podido morar sob o mesmo teto com Jenny 
durante tantos anos e no ter feito amor com ela?
      Ser que ele era to diferente do irmo? Fisicamente, nada havia de errado com Hal. Cage era obrigado a admirar a moralidade inabalvel do irmo, muito embora 
no conseguisse imaginar ningum impondo um cdigo to rgido a si mesmo.
      Jenny no era assim, era?
      Mostrara-se disposta a entregar-se ao noivo na vspera da viagem. Que idiota tinha sido Hal: no aceitar um presente to precioso. Cage no gostava de pensar 
no irmo em termos to depreciativos, mas no pde evitar. Ser que Hal no se dera conta do sacrifcio que Jenny estava fazendo por ele? No momento em que encontrou 
a frgil barreira de sua virgindade, Cage se deu conta.
      E acaso ele havia conhecido prazer maior que quando estava nos braos dela? Acaso ouvira sons mais doces do que os seus gemidos quando a paixo chegou ao auge?
      Nunca. Nunca tinha sido to bom.
      Pudera, nenhuma outra mulher era Jenny. Ela era a intocvel. A proibida. A que estava alm de todos os limites. Alm at mesmo das vastas fronteiras do prprio 
Cage.
      Ele sabia disso havia anos. Assim como sabia que ela pertencia a Hal. Estava claro. Anos antes, Cage teve de aprender a conviver com essa realidade. Podia 
ter a mulher que quisesse, exceto Jenny.
      Ele no prestava mesmo. Pacincia. No se importava com ningum, com coisa alguma. Era o que diziam em toda parte e no deixava de ser verdade. Mas no queria 
que Jenny e Hal tivessem seu amor destrudo devido a sua interferncia.
      Guardara bem o seu segredo. Ningum sabia. Ningum era capaz de imaginar. Muito menos ela, que no tinha ideia de que, toda vez que estava em sua presena, 
ele morria de vontade de toc-la. No sexualmente. Simplesmente toc-la.
      A afeio que Jenny tinha por ele era puramente fraternal. No entanto, Cage sempre sentira que ela tinha medo dele. Ele a fazia sentir-se incmoda, coisa que 
o magoou muitas vezes. Seu medo era justificado, naturalmente. Considerando sua reputao escandalosa, qualquer mulher honrada tratava de manter distncia, como 
se a sua sexualidade fosse contagiosa e temvel como a lepra.
      Mas ele sempre se perguntava o que teria acontecido se Jenny tivesse vindo morar na casa paroquial mais cedo. Se ele no estivesse na faculdade, se j no 
fosse conhecido como mau elemento. Se tivessem tido tempo de desenvolver um relacionamento, ser que Jenny o teria preferido a Hal?
      Essa era a sua fantasia favorita. Porque ele sentia que sob a aparncia reservada de Jenny havia um esprito livre que ansiava por liberdade, uma mulher sensual, 
sexual, presa na gaiola invisvel da circunspeco. Se lhe dessem essa liberdade, que aconteceria?
      Talvez ela quisesse ser libertada. Talvez vivesse pedindo silenciosamente que a libertassem e nenhum homem conseguisse perceber. Talvez...
      Voc est se iludindo, Cage. Em nenhuma circunstncia, ela aceitaria ter a vida misturada com a sua.
      Ele arrastou a cadeira e se levantou, jogando com raiva o dinheiro na mesa. Mas, nesse momento, deteve-se como que surpreendido por um pensamento.
      A menos que a sua vida mude.
      Cage no entrara no quarto de Jenny aquela noite com a inteno de fazer o que havia feito. Ouvira-a chorar e sabia que Hal no atendera o seu pedido. Ela 
estava magoada e sua inteno era consol-la.
      Mas Jenny o confundiu com Hal e, como as ondas na praia, ele se sentiu compulsivamente atrado por ela. Aproximou-se da cama no quarto escuro, dizendo a si 
mesmo que ia se identificar no primeiro momento. Tocou-a. Notou o desespero em sua voz. Sabia muito bem o que era o desespero de amar e no receber amor. Atendeu 
ao seu pedido e a abraou. E, tendo-a beijado, sentiu a reao daquele corpo clido agarrado ao seu e no conseguiu voltar atrs.
      O que ele fizera era imperdovel. Mas o que pretendia fazer talvez fosse pior. Pretendia tentar roub-la do irmo.
      Agora que a possura, no podia deix-la escapar, mesmo que o inferno se abrisse e o engolisse. No deixaria que sua famlia continuasse sufocando o seu esprito. 
Hal havia tido uma grande oportunidade de receber o amor dela, mas a rejeitara. Cage no ficaria vendo a ansiedade em seu rosto transformar-se em derrota, sua vitalidade 
converter-se em resignao e toda a sua energia definhar num casulo de moralismo.
      Ele tinha meses para conquist-la at que Hal voltasse e, por Deus, era isso que ia fazer.
       Didi!
      Ela estava num canto escuro, a uma mesa, abraada com um cafajeste que enfiara a mo sob seu suter e a lngua em sua orelha. Irritada com a interrupo, livrou-se 
do parceiro.
       Voc esqueceu uma coisa  disse Cage, jogando a chave para ela.
      Didi no conseguiu peg-la no ar, e o objeto caiu ruidosamente na mesa. Olhou para Cage com ar interrogativo.
       Para que isso?
       Eu no vou precisar.
       Bastardo  rosnou a mulher com dio.
       Eu nunca disse o contrrio  sorriu Cage quando j estava abrindo a porta do bar.
       Ei, cara  gritou o homem que a acompanhava , voc no pode falar assim com a moa...
       Ora, deixe para l, querido  sussurrou Didi, acariciando-lhe o peito. E os dois recomearam o que tinham interrompido.
      Cage saiu  noite fria e respirou fundo para livrar a cabea dos vapores de lcool e do cheiro do bar. Colocando-se ao volante de sua Corvette Stingray 63, 
ligou o motor e partiu.
      Aquele automvel clssico restaurado provocava a inveja de todos os homens num raio de mil e quinhentos quilmetros de La Bota e costumava ser imediatamente 
identificado com seu dono. Era sinistramente preto, com estofamento de couro da mesma cor.
      Cage percorreu voando a auto-estrada, depois diminuiu a velocidade para passar pelas ruas da cidade. A meia quadra da casa paroquial estacionou no meio-fio 
e desligou o motor.
      A janela do quarto de Jenny j estava s escuras, mas ele passou uma hora ali, olhando fixamente para ela, exatamente como tinha feito nas ltimas seis noites.
      
      
      
      
   CAPTULO III
      
      
      
      Do altar, Jenny olhou para a porta da igreja e, contra a forte claridade do sol l fora, viu a silhueta de um homem alto que acabara de entrar. A ltima pessoa 
que esperava ver ali era Cage. Mas ele tirou os culos escuros de aviador e atravessou o corredor atapetado da nave.
       Ol.
       Ol.
       Parece que preciso aumentar o meu dzimo  disse ele apontando com o queixo para o material de limpeza aos ps dela.  Ser que a igreja no tem dinheiro 
para contratar uma faxineira?
      Sem se perturbar, Jenny enfiou o cabo do espanador no bolso de trs do jeans, deixando para fora as plumas alaranjadas.
       Eu gosto de fazer isto. 
      Ele sorriu.
       Voc parece surpresa em me ver.
       E estou mesmo  ela admitiu com franqueza.
       H quanto tempo no entra na igreja?
      Ela estava tirando o p do altar para colocar o arranjo que acabava de chegar da floricultura. Os raios do sol se filtravam nos altos vitrais coloridos, fazendo 
as partculas de poeira danarem alegremente no ar. A luz projetava um arco-ris em sua pele e em seus cabelos, que estavam presos num coque improvisado. Usava um 
jeans bem largo e um par de tnis j muito gasto. Cage achou-a linda como um boto de flor e mais sexy que nunca.
       Desde a Pscoa.  Ele se sentou no banco da frente e apoiou os braos no encosto, estendendo-os a ambos os lados. Examinou o santurio e percebeu que no 
havia mudado, continuava exatamente o mesmo.
       Oh, sim  disse Jenny.  Ns fizemos um piquenique no parque quela tarde.
       E eu a empurrei no balano. 
      Ela riu.
       Como pude me esquecer disso? Eu gritava para que no me empurrasse com tanta fora, mas voc no parava.
       Mas voc gostou.
      Ela sorriu. O brilho travesso em seu olhar o encantou.
       Como sabe?
       Intuio.
      Quando Cage tambm lhe endereou um sorriso. Jenny pensou que ele era capaz de intuir muita coisa com relao s mulheres: nenhuma sem malcia.
      Ele, por sua vez, ps-se a recordar a primavera anterior, o domingo de que estavam falando. Era Pscoa, o cu estava azul e lmpido, o ar, quente. Jenny trajava 
um vestido leve, solto, que ora oscilava ao redor de seu corpo, ora colava-se a ele com o sopro do vento do sul.
      Fora delicioso pux-la para junto do peito quando ela se sentou no velho balano preso  rvore gigantesca por cordas grossas como seu pulso. Ele a segurou 
bem perto de si mais tempo que o necessrio, provocando-a, ameaando empurr-la para frente, mas sem solt-la. 
      Aquilo lhe deu oportunidade de aspirar ao aroma fresco de seus cabelos, de sentir no peito o contato de suas costas esguias. Quando finalmente a soltou, ela 
riu com alegria de criana. A msica daquele riso ainda soava nos ouvidos de Cage. Toda vez que o pndulo do balano a trazia de volta, ele empurrava o assento, 
quase lhe tocando os quadris. No ousou tanto.
      Era verdade o que escreviam os poetas romnticos sobre as fantasias dos rapazes na primavera. As sensaes viris lhe invadiram o corpo aquele dia, enchendo-o 
de impetuosidade, do desejo de acasalar-se.
      Queria deitar-se na relva com Jenny, deixando os raios do sol beijarem suavemente a sua face enquanto ele lhe beijava os lbios. Queria pousar a cabea em 
seu colo e contemplar-lhe o rosto lindo. Queria fazer amor com ela, sem pressa, suave e delicadamente.
      Mas Jenny era a namorada de Hal, sempre fora. E quando Cage se cansou de v-los juntos, foi com passos largos para o carro e bebeu uma das cervejas geladas 
que havia trazido numa caixa de isopor. Seus pais manifestaram sua desaprovao com veemncia.
      Por fim, para no arruinar  tarde de todos, principalmente a de Jenny, pois sabia que ela detestava brigas na famlia, Cage grunhiu um at-logo para todos 
e foi embora em sua Corvette preta.
      Agora, estava sentindo a mesma compulso de toc-la. At vestida para a faxina ela era desejvel, merecia ser tocada. Ele se perguntou se as paredes da igreja 
no desabariam caso a tomasse nos braos e a beijasse como ansiava.
       Quem doou as flores esta semana?  perguntou antes que seu corpo denunciasse os pensamentos lbricos que o assediavam.
      Todo ano distribuam um calendrio aos fiis. Cada famlia escolhia o domingo em que se encarregaria de fornecer as flores do altar, geralmente em homenagem 
a uma ocasio especial.
      Jenny pegou o carto preso ao buqu de palmas-de-santa-Rita vermelhas.
       Os Randall. "Em memria de nosso querido filho, Joe Wiley"  leu em voz alta.
       Joe Wiley Randall  murmurou Cage com um sorriso nos lbios.
       Voc o conheceu?
       Claro que sim. Ele estava bem mais adiantado que eu na escola, mas andvamos juntos s vezes.  Inclinou a cabea e, por cima do ombro, olhou para um banco 
vrias fileiras mais atrs.  Olhe ali, na quarta fila. Joe Wiley e eu estvamos sentados naquele banco, quando a bacia de esmolas passou e ele grudou um chiclete 
na parte de baixo. Ficamos acompanhando a trajetria da bandeja, de mo em mo. Voc pode imaginar a cara das pessoas quando ficavam com os dedos grudados no chiclete? 
Era de morrer de rir.
      Com os olhos brilhando, Jenny se sentou ao seu lado.
       Que aconteceu?
       Eu levei uma surra. Ele tambm.
       No,  que o carto diz "em memria".
       Oh! Joe morreu no Vietn.  Cage passou um longo momento olhando para as flores.  No voltei a v-lo depois que concluiu o colegial.
      Jenny estava imvel, calada, ouvindo apenas.
       Ele era um puto jogador de basquete  prosseguiu Cage pensativo. Mas logo encolheu os ombros e baixou a cabea como se Deus fosse castig-lo com um raio. 
 Desculpe a gente no diz essas coisas na igreja, diz?
      Ela riu.
       Que diferena faz? Deus o ouve dizer palavres o tempo todo.  De repente ficou sria e o fitou nos olhos, tentando sond-lo.  Voc acredita em Deus, Cage?
       Acredito.  Sem dvida era verdade. Raramente seu rosto ficava to sombrio.  E eu O adoro  minha maneira. Sei o que dizem de mim. At meus pais pensam 
que sou ateu.
       Tenho certeza de que no  isso o que pensam. 
      Ele pareceu em dvida.
       E voc? Que pensa de mim?
       Que voc  um tpico filho de pastor. 
      Cage inclinou a cabea para trs e riu uma boa gargalhada.
        muito simples, no acha?
       De jeito nenhum. Na adolescncia, voc se comportava mal para que ningum pensasse que; fosse um "santinho".
       Faz tempo que sa da adolescncia, mas continuo no querendo ser "santinho".
       No se preocupe ningum o acusaria disso.  provocou ela, cutucando-lhe a coxa com o indicador. Retirou a mo depressa. Sua carne era dura, exatamente como 
a de Hal, e lhe trouxe  lembrana coxas musculosas, vestindo jeans, esfregando-se nas suas pernas nuas. Para dissimular o constrangimento, tentou mudar de assunto,
       Lembra que voc tentava me fazer rir quando eu estava cantando no coro?
       Eu?  perguntou ele com ar indignado.  Nunca me passou pela cabea fazer uma coisa dessas.
       Voc vivia fazendo caretas para mim, envesgava de propsito. L no ltimo banco, onde ficava com suas namoradas. Costumava...
       Com "minhas namoradas"? At parece que eu tinha um harm.
       E no tinha? No tinha?
      Ele baixou a vista, percorrendo-lhe o corpo lentamente.
       Sempre h lugar para mais uma. Quer se candidatar?
       Ora!  exclamou Jenny, levantando-se de um salto e encarando-o com simulada fria, as mos nos quadris.  Quer dar o fora daqui? Eu tenho muito que fazer.
       , eu tambm  suspirou ele, erguendo-se.  Acabo de assinar um contrato para explorar dois hectares nas terras dos Parson.
       E isso  bom?  Jenny pouco sabia do trabalho de Cage, s que tinha a ver com petrleo e que ele era considerado bem-sucedido.
       Muito bom. J estamos prontos para comear as perfuraes.
       Parabns.
       E melhor esperar at que o primeiro poo comece a jorrar.
      Distrado, ele prendeu uma mecha de cabelo castanho que tinha escapado do coque. Depois deu meia-volta e se afastou rumo  sada.
       Cage!  Jenny o chamou de sbito. Ele se voltou.
       Sim?
      Estava bonito, queimado de sol, os cabelos revoltos. Irreverente. Perigoso. Os polegares presos no cinturo. O zper da jaqueta jeans puxado at o queixo.
       Por que veio aqui? 
      Cage deu de ombros.
       Por nenhum motivo especial. Tchau, Jenny.
       Tchau.
      Fitou-a um momento antes de pr os culos e sair.
      Jenny estava lutando para prender o lenol molhado no varal antes que a forte ventania o arrancasse das mos. A roupa j pendurada inflava-se como velas e 
sacudia-se ao seu redor feito asas gigantes.
      Quando ela prendeu o ltimo pregador e deixou cair os braos exaustos, seus ouvidos foram invadidos pelo rugido de um monstro. Um vulto ameaador surgiu atrs 
do lenol e a agarrou. Envolveu-a nos enormes braos ao mesmo tempo em que rosnava como para devor-la.
      Ela deixou escapar um grito, mas sua exclamao foi abafada pelo brao que a prendia.
       Eu a assustei?  o atacante ainda invisvel grunhiu em seu ouvido ao mesmo tempo em que a puxava mais para junto de si.
       Solte-me!
       Pea, por favor.
       Por favor!
      Cage a soltou e, contornando o lenol, de cujas dobras Jenny ainda tentava se livrar, olhou para ela. Miraculosamente, a pea de roupa de cama continuava bem 
presa na corda apesar da brincadeira.
       Cage Hendren, que susto voc me pregou!
       Ora, que bobagem, voc sabia que era eu.
       S porque j fez isso comigo antes.  Fez um esforo desesperado para afastar dos olhos os cabelos agitados pelo vento. Foi to intil quanto o esforo para 
no sorrir. Por fim, acabou s gargalhadas com ele.  Voc vai ver...  ameaou, sacudindo o dedo. Num movimento rpido, Cage lhe agarrou a mo e a prendeu na sua.
       O qu? Vou ver o qu, Srta. Fletcher?
       Um dia desses, voc me paga.
      Ele levou o dedo de Jenny  boca e o mordeu de leve, rosnando feito um canibal.
       Eu no apostaria nisso.
      Ver seu dedo preso entre aqueles dentes fortes e brancos a deixou confusa, ela queria achar um modo de retir-lo sem causar constrangimento a nenhum dos dois. 
Por fim Cage a soltou, e Jenny recuou como se tivesse se aproximado demais do fogo sem perceber, saindo chamuscada.
      No entendia por que ele estava na casa paroquial aquele dia nem por que suas visitas tinham se tornado to freqentes. Desde que Hal viajara, Cage aparecia 
a toda hora e pelos motivos mais banais. O pretexto de tais visitas era saber se haviam chegado notcias de Hal, mas alegava desculpas de tal modo esfarrapadas que 
Jenny se perguntava se no as fazia por considerao aos pais. Se fosse assim, era um gesto comovente.
      Ele fora diversas vezes  casa paroquial para tirar de seu antigo quarto tudo que Sarah lhe havia pedido que tirasse, muito embora pudesse ter feito o trabalho 
numa s viagem. Depois apareceu com um enorme bolo comprado na quermesse da cooperativa, argumentando que no conseguiria com-lo sozinho. Uma noite foi pedir emprestada 
a lixadeira eltrica de Bob para polir o carro com a pea para lustrar.
      Todos esses pretextos eram vlidos, porm Jenny continuava suspeitando de que havia algum motivo por trs.
      No era prprio de Cage mostrar tanto interesse pelo estado das coisas na casa paroquial. Habitualmente, ele gastava as noites nos bares, batendo papo com 
bomios, caubis e homens de negcio, quando no estava s voltas com algum rabo-de-saia.
      E quanto mais tempo passava em sua companhia menos Jenny gostava de imagin-lo com outras mulheres. As pontadas de cime que sentia eram inexplicveis, e ela 
no tinha a menor idia de porque comearam a incomod-la to subitamente,  conta de nada.
       O secador de roupa est quebrado?  Cage perguntou, erguendo no ombro o cesto de roupa vazio e acompanhando-a a porta dos fundos.
       No, mas os lenis e as fronhas ficam mais cheirosos quando secam no varal.
      Ele sorriu e abriu a porta para ela.
       Voc  um caso perdido, Jenny.
       Eu sei, antiquada at a medula.
        o que gosto em voc.
      Uma vez mais Jenny sentiu necessidade de aumentar a distncia entre os dois. Quando ele ficava to perto, fitando-a nos olhos com aquele seu modo particularmente 
penetrante, ela mal conseguia respirar.
       Voc quer... quer um refrigerante?
       Boa idia.
      Cage levou o cesto  lavanderia contgua  cozinha enquanto Jenny abria a geladeira, punha gelo nos copos que tirou do armrio e os enchia com o lquido borbulhante.
       Mame e papai, onde esto?
       No hospital. Tinham muita gente para visitar hoje.
      Dando-se conta de que estava a ss com Cage no velho casaro, Jenny ficou extremamente nervosa. Foi com mos trmulas que colocou o copo na mesa, diante dele. 
No queria correr o risco de toc-lo. Sempre evitava toc-lo se possvel, mas ultimamente...
      Inquieta, sentou-se na cadeira em frente e bebeu sofregamente o refrigerante gelado. Cage a estava observando. Embora no estivesse olhando diretamente para 
ele, Jenny sentiu seus olhos escrutando-a. Por que no tinha posto nada sob a camiseta aquele dia?
      Ento, para seu grande tormento, como se o fato de pensar neles tivesse provocado uma reao, seus seios comearam a intumescer-se sob a malha macia.
       Jenny?
       Qu?
      Ela se sobressaltou como se tivesse sido surpreendida fazendo alguma coisa muito errada. Sentiu-se febril e com tontura, exatamente como na noite em que fizera 
amor com Hal. Ele estava vestido exatamente como Cage agora: jeans e camisa de algodo.
      Jenny quase podia sentir a diferena de textura dos tecidos na pele nua, o frio contato da fivela de metal antes que ele a tivesse soltado, o clido volume 
de sua virilidade quando se despiu. Ela se encolheu na cadeira e, juntando os joelhos, pressionou-os com fora embaixo da mesa, tentando manter o rosto impassvel.
       Alguma notcia de Hal?
      Ela sacudiu impetuosamente a cabea, tanto para responder  pergunta quanto para negar as sensaes que a agitavam por dentro.
       Nada desde aquele carto-postal datado de um ms atrs. Ser que isso significa alguma coisa?
       Significa.  Ela ergueu bruscamente a cabea, mas Cage estava sorrindo.  Que tudo est em ordem.
       Nenhuma notcia significa que est tudo bem.
       Mais ou menos isso.
       Bob e Sarah no dizem nada, mas eu sei que esto preocupados. No imaginvamos que ele fosse entrar no pas, no devia ter passado a fronteira. J devia 
estar voltando para casa agora.
       Pode ser que esteja e no teve tempo de nos avisar.
       Pode ser.
      Jenny estava magoada porque, nas poucas vezes em que escrevera, Hal tinha endereado os bilhetes a todos. Comunicava que a situao em Monterico estava ruim, 
mas que ele se achava bem e fora de perigo. No acrescentou uma palavra especial para ela. Sua noiva. Acaso aquilo era normal num homem apaixonado, sobretudo depois 
do que tinha acontecido na vspera da viagem?
       Est com saudade?  perguntou Cage em voz baixa.
       Muita.  Ela ergueu os olhos para ele, porm baixou-os em seguida. Era impossvel mentir diante daquele olhar. Impossvel at mesmo omitir a verdade. Ela 
estava com saudade de Hal, mas no tanto assim, no como pensava que ficaria, no como devia. De certo modo, sentia-se at aliviada porque ele no a estava censurando 
constantemente. No era esquisito?
      Agora que estivera na cama com Hal, no o queria mais? Ser que ela estava afundando numa espcie de depravao?
      Jenny ansiava muito por tornar a experimentar aquela alegria plena e total, aquele indescritvel prazer fsico, mas no se sentia particularmente ansiosa por 
rever o noivo. Provavelmente porque ainda estava zangada por ele ter partido sem se despedir. Pelo menos era a resposta que ela dava a si mesma. No chegava a ser 
satisfatria, mas era a nica que lhe ocorria.
       Ele est bem. Hal sempre se sai bem de qualquer enrascada.  Cage se reclinou na cadeira, equilibrando-a nos dois ps traseiros.  Havia uma famlia do outro 
lado da rua... bem antes que voc viesse morar conosco. Eu devia ter uns doze anos; Hal, oito ou nove. A filha do casal era muito gorda. Obesa mesmo. Os meninos, 
na escola, a chamavam de Tanque, de Baleia, de Leitoa. Havia uns moleques que costumavam esper-la na esquina para lhe gritar nomes quando voltava para casa.
      Jenny ficou atrada por seu tom de voz. Era grave, ligeiramente spero, como se um pouco da areia do Texas estivesse presa a suas cordas vocais. Enquanto falava, 
ele corria os dedos distrados no copo, que a condensao tornara escorregadio. Os plos em suas falanges pareciam mais claros em contraste com a pele bronzeada. 
Ela nunca tinha reparado nisso antes. O modo como Cage acariciava o copo quase a hipnotizou, ela chegou a imaginar como seria se...
       Um dia Hal estava voltando para casa com a menina e, quando os moleques comearam a caoar dela, avanou contra eles feito uma ona. Saiu com o nariz sangrando, 
um olho roxo e o lbio cortado. Mas defendeu a amiga. De noite, meus pais o elogiaram como um heri. Mame preparou uma sobremesa especial para ele. Papai comparou 
sua boa ao com a luta entre Davi e Golias. Eu pensei, ora, se  isso que os faz feliz, eu tambm posso faz-los. Sempre soube brigar muito melhor do que Hal. Assim, 
no dia seguinte, fiquei esperando os garotos escondido atrs da garagem. Queria que se arrependessem de terem batido no meu irmo e de no darem sossego  pobre 
menina.
       Que voc fez?
       Eles caminhavam seguros de si pela calada, rindo, falando alto. Eu sa de trs da garagem e joguei a tampa de uma lata de lixo no rosto de um deles. Quebrei-lhe 
o nariz. Dei um soco no estmago do outro e o deixei sem ar. No terceiro eu acertei um pontap no... bem, ali onde mais di nos meninos.
      Jenny sorriu sem jeito, corou e baixou a cabea. Depois, tornou a olhar para ele.
       Que aconteceu?
       Eu esperava o mesmo elogio que Hal recebera na noite anterior.  Ele curvou os lbios num sorriso amargo.  Pois me deram uma surra, fizeram-me escutar um 
terrvel sermo e me mandaram para o quarto sem jantar. Alm disso, proibiram-me de andar de bicicleta durante quinze dias.  Cage bateu com os ps dianteiros da 
cadeira no cho como para arrematar o relato.  Portanto, Jenny, se eu tivesse me encarregado dessa misso na Amrica Central, teriam me rotulado de desordeiro, 
de demagogo, diriam que eu estava procurando confuso. Mas Hal sempre faz as coisas certas...
      Sem pensar, ela estendeu o brao por cima da mesa e lhe cobriu a mo com a sua.
       Eu lamento muito, Cage. Sei como isso di.
      Ele segurou imediatamente a mo que acariciava a sua e a fitou nos olhos verdes, banhados de lgrimas de empatia.
       Jenny! Ns j chegamos. Onde voc est? 
      Os Hendren acabavam de entrar pela porta da rua. 
      Cage e Jenny permaneceram cativos um do outro, s soltando-se as mos e desviando o olhar um segundo antes que Sarah e Bob irrompessem na cozinha.
       Ah, voc est aqui! Ol, Cage.
      Jenny se levantou de um salto, perguntando se o velho casal queria um refresco ou um caf. Cage tambm se levantou.
       Eu j vou. S passei para saber se havia notcia de Hal. Mais tarde eu volto. Tchau.
      No havia por que prolongar a visita. Ele queria saber de Hal, mas o principal motivo que o levara  casa paroquial era Jenny.
      Precisava v-la.
      Ela o havia tocado.
      Na verdade, fora iniciativa de Jenny estender a mo para toc-lo.
      Que bom!
      
      Jenny se curvou para colocar a sacola do supermercado no banco traseiro do carro. Os Hendren tinham lhe dado aquele modelo popular guando ela se formara na 
UCT. Um longo assobio de admirao a fez endireitar o corpo depressa, alto que quase bateu a cabea.
      Cage estava montado numa motocicleta de aspecto agressivo, com uma expresso que combinava perfeitamente com o assobio. Um capacete preto e brilhante oscilava 
pendurado em seu brao. Vestia uma camisa azul de cambraia, cujas mangas tinham sido arrancadas. Ou o vento tirara todos os botes das casas, ou ele no tivera o 
cuidado de aboto-la. Em todo caso, a nica coisa que o salvava da indecncia era o fato de a camisa estar por dentro do jeans.
      Nada nele era decente.
      Trazia no pescoo um leno vermelho desbotado. Parecia um bandido. Os HelFs Angels o teriam recebido de braos abertos e seriam capazes at de eleg-lo presidente.
      Jenny ficou intrigada com a quantidade de plos aloirados que lhe cobriam o peito. Espalhavam-se nos msculos do trax e iam se estreitando mais abaixo, at 
se tornarem uma linha que lhe dividia a barriga em duas partes. No foi fcil para ela tirar os olhos daquela charmosa viso: a pele bronzeada, o crespo tapete de 
plos masculinos.
       Que maneira escandalosa de se vestir!  exclamou ela com simulada indignao.
       Obrigado, senhorita. 
      Jenny riu.
       Que maneira escandalosa de se vestir!  retrucou Cage.
       Que h de errado com a minha roupa?
       Seu jeans  muito justo, pode incendiar a imaginao de um homem.
      Olhando para baixo a fim de se examinar, ela replicou:
       De alguns homens. Talvez dos que s pensam em sexo.
       Hum... Parece que est se referindo a mim.
       A carapua serviu... Nenhum outro homem assobiou para mim hoje.
       E que nenhum a viu na posio em que voc estava.
      Ela o fuzilou com o olhar.
       Depravado!
       E me orgulho disso.
      Jenny ps as mos na cintura e perguntou:
       E se eu ficasse atrs de voc  assobiasse desse jeito?
       Eu a levaria para o mato no mesmo instante.
       Voc no vale nada mesmo!
        o que dizem.  Cage sorriu, e seus dentes brilharam ao sol. Apoiando as mos no guidom da moto, inclinou-se ligeiramente. Os msculos de seus braos se 
avolumaram, e ela viu as grossas veias por baixo da pele morena.
       Vamos dar uma volta?
      Desviando a vista, Jenny bateu a porta de trs com nfase e abriu a da frente.
       Dar uma volta com voc? S se eu tivesse enlouquecido.
      Olhou com desprezo para a motocicleta.
       Ora, no sou to depravado assim.
      Ela fez uma careta, ele sorriu mais abertamente.
       Vamos, Jenny. Voc vai gostar.
       De jeito nenhum! 
       Por qu?
       No confio em voc.
      Cage explodiu numa gargalhada.
       Eu estou completamente sbrio.
       Que milagre!
      Foi  vez dele fazer uma careta. Jenny disse:
       Uma vez sa de carro com voc e arrisquei a vida a cada quilmetro. A polcia rodoviria nem se deu ao trabalho de persegui-lo. Sabia que no conseguiria 
alcan-lo.
      Ele deu de ombros, contraindo todos os msculos do corpo.
        por isso que gosto de dirigir em alta velocidade. Ningum me pega.
       Alm disso, o sorvete est derretendo  disse ela pela janela do automvel, j ligando o motor.
      Ele a seguiu at em casa, ultrapassando-a ora pela esquerda, ora pela direita, contornando o automvel, obrigando-a a frear uma dezena de vezes para no colidir 
com a moto. Abaixo do visor escuro do capacete, seu amplo sorriso era visvel. Jenny tentou manter uma expresso sria, mal-humorada at, mas estava rindo quando 
chegaram  casa paroquial.
       Viu?  Ele estacionou a motocicleta ao lado do carro e tirou o capacete.  Absolutamente inofensivo. Vamos, venha dar uma volta comigo.
      O sol bateu em seus cabelos, dando-lhe a cor do trigo maduro. Por entre os clios densos, seus olhos eram um convite. Jenny hesitou, a sacola do supermercado 
estava ficando cada vez mais pesada em seus braos.
       Quando foi  ltima vez que fez uma coisa espontnea?  Cage perguntou num tom de desafio.
      Na noite em que seduzi Hal.
      Mas Jenny nem queria pensar em Hal. Fazia dois meses e meio que ele partira. Case visitava a casa paroquial com muita freqncia. Sempre aparecia inesperadamente, 
como aquele dia, no estacionamento do supermercado. Se no o conhecesse bem, ela era capaz de dizer que a seguia.
       No posso  disse.  No posso mesmo.
       Claro que pode. Vamos, ande logo. Eu a ajudo a guardar as coisas.
      No havia como discutir com ele. Guardaram rapidamente as compras no armrio e na geladeira e, como Bob e Sarah no estavam em casa, Jenny foi uma presa fcil. 
Cage sabia muito bem farejar as fraquezas de uma mulher e valer-se delas.
       Por favor  implorou, dobrando os joelhos para ficar com o rosto  altura do dela. O sorriso lhe fez surgir duas covinhas nos cantos da boca, coisa que, 
na opinio de Jenny, devia ser proibida por perturbar a ordem pblica.  Venha comigo.
       Est bem  rendeu-se ela com um suspiro irritado. Na verdade, seu corao palpitava de ansiedade.
      Cage a segurou com firmeza e apressou-se a lev-la para fora sem lhe dar tempo de mudar de idia.
       Tenho um capacete extra.
      Jenny colocou-o em sua cabea e prendeu a correia por baixo de seu queixo. Durante um instante, s um instante, seus olhos se encontraram. Ele lhe tocou a 
face. Porm, antes que Jenny pudesse entender o que significava o brilho em seus olhos, o momento passou, e ele se ps a ensinar-lhe a viajar na garupa da motocicleta.
      Quando ela se sentou conforme as instrues, Cage se acomodou a sua frente e disse:
       Agora se segure em mim.
      Ela vacilou, depois, com muita cautela passou os braos no corpo dele. Ao entrar em contato com o peito nu, os plos encaracolados lhe fizeram ccegas nos 
pulsos, e ela afastou bruscamente as mos.
       Desculpe  murmurou como se tivesse pisado n p de um desconhecido no elevador. Seu corao batia aceleradamente.
       Tudo bem.  Cage lhe segurou as mos e as colocou juntas na altura de sua cintura.  Precisa segurar com fora.
      Jenny estava atordoada. Sentia a garganta seca. Se no estivesse com tanto medo de ficar com tontura e cair, teria fechado os olhos quando ele ligou o motor 
e desceu a rua. Manteve as mos imveis, muito embora sentisse uma vontade urgente de correr os dedos nos plos do peito dele, de apalpar-lhe os msculos rijos.
       Est gostando?  gritou Cage por cima do ombro. Tendo superado a inibio inicial, ela respondeu com franqueza.
       Adorando!
      O vento quente aoitava-os implacavelmente quando saram dos limites da cidade, e Cage comeou a acelerar. Entraram velozmente na rodovia, com a preciso de 
uma vespa em pleno vo. Era incrivelmente excitante ter unicamente as duas rodas da moto a separ-la do asfalto que passava vertiginosamente por baixo dela. A poderosa 
vibrao do motor lhe sacudia as coxas, o ventre, os seios. Era delicioso.
      Cage saiu da rodovia e entrou por uma estrada estreita, embora asfaltada, e finalmente passou por um largo porto. A casa no alto de uma elevao no terreno 
plano era autenticamente vitoriana. O ptio cercado estava coberto de plantas e flores, e uma grande variedade de rvores lhe davam sombra. A varanda, que compreendia 
trs lados da casa, ficava protegida do sol pelos terraos do primeiro andar. No alto de um dos cantos da fachada havia uma cpula em forma de cebola. Digna de um 
carto-postal, a estrutura cor de areia tendia ligeiramente para um matiz de ferrugem.
      De um lado ficava a garagem. Jenny viu a Corvette estacionada junto a uma coleo de outros veculos. Mais adiante, achava-se o estbulo. Vrios cavalos pastavam 
no campo que se estendia na parte detrs da casa.
       Aqui  onde moro  disse Cage com modstia. Parou a moto e desligou o motor. Esperou que Jenny descesse. Ela tirou o capacete e ficou olhando admirada para 
o imvel.
        aqui que voc mora?
       . J h dois anos.
       Nunca nos convidou a vir aqui.  Voltou-se Para ele.  Por que, Cage?
       Porque no aceitariam o convite. Meus pais consideram esta casa o prprio antro do pecado, nunca poriam os ps aqui. Hal tambm no, pois sabe que eles desaprovariam. 
Achei melhor no convidar ningum e tornar as coisas mais fceis para todos.
       E eu?
       Voc teria vindo?
       Acho que sim.
      Nenhum dos dois acreditou naquelas palavras.
       Pois agora j est aqui. Quer conhecer l dentro?
      Foi um pedido humilde. Apesar de todo o machismo, Cage parecia extremamente vulnervel. Jenny no hesitou dessa vez. Queria muito conhecer a casa dele.
       Quero sim. Posso entrar?
      Ele abriu um largo sorriso e a conduziu  porta.
       A casa foi construda na virada do sculo. Pertenceu a vrios proprietrios, e cada um a deixou deteriorar-se um pouco mais. Estava quase em runas quando 
a comprei. O que me interessava era o terreno, tinha inteno de demoli-la e construir um chal em estilo contemporneo. Mas a casa comeou a ficar importante, parecia 
fazer parte do lugar. Ento decidi mant-la, e mandei reformar tudo.
      Ele falava com modstia.
        linda  observou Jenny, percorrendo os cmodos de p-direito alto e iluminados pelo sol.
      Cage a havia decorado com simplicidade, tudo pintado de branco: as paredes, as venezianas, os batentes, as portas enormes que separavam o hall central da sala 
de estar, a um lado, e da sala de jantar oval do outro. O assoalho de carvalho tinha sido raspado. A moblia, privilegiando o conforto, misturava com bom gosto o 
antigo e moderno tudo muito arrumado.
      A cozinha era um milagre da era espacial, porm todas as instalaes de ltima gerao ficavam ocultas por uma fachada com o charme da passagem do sculo. 
No primeiro andar havia trs dormitrios. S um tinha sido totalmente restaurado.
      Da porta, Jenny olhou para o quarto em que Cage dormia. Decorado com os tons do deserto, combinava com seus cabelos claros. A cama enorme estava coberta com 
um acolchoado de forma irregular, que dava a impresso de ser macio. Pela porta contgua, ela entreviu um banheiro luxuoso, com uma opulenta janela panormica perto 
da enorme banheira.
      Cage reparou no que ela estava olhando.
       Eu gosto de ficar contemplando a paisagem no banho. Dali, o pr-do-sol  espetacular  falou muito perto dela, o bastante para que seu hlito quente lhe 
arrepiasse os cabelos.  E nas noites de lua cheia, com o cu estrelado, voc no imagina como  lindo.
      Jenny sentiu uma atrao hipntica por ele, um desejo irresistvel de se acercar mais... Tratando de se reprimir, endireitou o corpo.
       A casa combina com voc, Cage. No comeo achei que no, mas combina sim.
      Ele gostou de ouvir aquilo.
       Venha ver a piscina.
      Desceram a escada, passaram por uma varanda telada e saram ao quintal calado de pedra. Era uma exploso de cores. Havia uma infinidade de vasos de barro 
com gernios vermelhos. Num canto, um canteiro de cactos prodigalizava botes amarelos e rosados. As salvas prateadas, com suas flores purpurinas, acompanhavam toda 
a extenso da cerca. A piscina era de um azul profundo como o da safira.
       Puxa!  sussurrou Jenny.
       Quer nadar?
       Eu no trouxe maio.
       Quer nadar?
      O convite veio carregado de implicaes sutis e sedutoras, mas indubitavelmente claras.
      Tudo se paralisou dentro de Jenny. O sangue cessou de lhe correr no corpo porque seu corao parou. Os pulmes detiveram a atividade. Ela no conseguia nem 
mesmo piscar, to cativada estava pelo olhar e a voz rouca que a convidava.
      Era inconcebvel, naturalmente.
      Mesmo assim ela pensou na hiptese.
      E os pensamentos, criando-lhe um caleidoscpio na mente, fizeram subir sua temperatura. Ela conseguia ver os dois nus, o sol batendo em sua pele, o vento seco 
agitando as guas ao seu redor. Cage nu, o corpo moreno coberto de plos dourados e macios. E ela desnudando-se timidamente para o homem.
      A fantasia lhe deu asas  imaginao.
      Jenny imaginou-se tocando-o, viu suas mos resvalando naqueles braos fortes, viu seus dedos acompanhando as veias que apareciam sob a pele, mergulhando na 
doce pelcia de seu peito.
      Viu-o tocando-a, viu suas mos grandes acariciando-lhe os seios, os tmidos mamilos, descendo por seu ventre at as coxas, depois subindo at...
       Eu preciso ir embora!  Ela se voltou e atravessou o quintal e a casa praticamente correndo, como se o prprio diabo estivesse no seu encalo. Aquele homem 
no tinha chifres nem tridente, mas seu sorriso era a pior das tentaes.
      Cage a alcanou na varanda. Rgida ao seu lado, Jenny ficou esperando que trancasse a porta. Quando ele lhe tocou o brao para descerem os degraus, esquivou-se 
bruscamente.
       Algum problema, Jenny?
       No, no, claro que no  disse ela, umedecendo os lbios ressecados com nervosos movimentos da lngua.
      Por que estava agindo daquele modo? Cage no ia lhe fazer mal. Ela o conhecia fazia anos, viviam sob o mesmo teto quando ele voltava da faculdade nas frias.
      Por que ele parecia subitamente um estranho, embora um estranho que ela conhecesse melhor que qualquer outro ser humano? No tomava o partido dele, como o 
de Hal, em suas silenciosas discusses. Porm sentia uma afinidade por aquele homem que no tinha nenhuma explicao racional. Por qu?
      O que sentia por ele a abrasava por dentro. Eram sentimentos to estranhos, to sexuais. Sentimentos to bons.
       Ok, agora voc j sabe...  disse Cage, saltando sobre a motocicleta assim que ela se sentou em seu lugar.  Segure-se bem, mocinha.
       Cage!
      Foi  ltima vez que Jenny conseguiu respirar para valer. Ele comeou a acelerar, na rodovia, at que a paisagem no passasse de uma mancha indefinida. Defendendo 
a vida, ela se agarrou ao seu corpo, sem nenhuma inibio de espalmar as mos em sua barriga firme e colar-se s suas costas. Prendendo as coxas em seus quadris, 
pousou o queixo em seu ombro.
      Quando chegaram  rua da casa paroquial, Cage diminuiu a velocidade consideravelmente, mas subiu na calada e dirigiu em ziguezagues entre as rvores que algum 
esprito cvico havia plantado trs dcadas antes. Como no havia pedestres, no havia perigo, mesmo assim Jenny gritou:
       Voc  louco, Cage Hendren!
      Estavam sem flego de tanto rir quando pararam na entrada da casa paroquial, e ele desligou o motor.
       Quer dar outra volta amanh?  perguntou por cima do ombro.
      Jenny desceu, seus joelhos quase se dobraram. O entusiasmo lhe roubara o equilbrio, demorou um momento para que ela o recuperasse apoiada nele.
       No. Nunca mais! A viagem de volta foi como desafiar a morte.
      Ela estava corada, seus olhos verdes brilhavam muito. Cage nunca a tinha visto sorrir daquele modo. Desaparecera a mscara conservadora atrs da qual se escondia. 
Jenny tinha uma natureza aventureira, impetuosa, e Cage a estava vendo emergir pela primeira vez.
      Ele desceu da motocicleta e tirou o capacete.
       Logo vai se acostumar.  Ajudou-a a tambm tirar o capacete e, como se fosse  coisa mais natural do mundo, alisou-lhe os cabelos com os dedos.  Da prxima 
vez, vamos romper a barreira do som.
      Ps o brao em seus ombros. Ainda com as pernas bambas, ela se apoiou nele e lhe enlaou a cintura. Juntos, foram com passos trpegos at a porta dos fundos.
      Esta se abriu de repente. Bob saiu e se aproximou dos degraus. Endereou um olhar acusador a Cage, depois a Jenny. Aquela expresso dura os fez parar abruptamente.
       Papai! Bob!  disseram em unssono. Mas eles j antecipavam a notcia.
       Meu filho morreu!
      
      
      
      
      
   CAPTULO IV
      
      
      
       Jenny...  sussurrou Cage preocupado, mas sem obter resposta.  Jenny, por favor, no chore. Quer que eu pea alguma coisa  aeromoa?
      Ela sacudiu a cabea e tirou o leno mido dos olhos.
       No, obrigada, Cage. Eu estou bem.
      Mas no estava. No estava desde o dia anterior, quando Bob Hendren lhes contara que Hal tinha sido morto por um grupo armado em Monterico.
       No sei por que deixei voc vir. Que burrice!  disse Cage, censurando-se amargamente.
       Era uma coisa que eu precisava fazer  insistiu ela, ainda enxugando os olhos vermelhos e limpando o nariz.
       Vai ser um desgaste intil, s servir para tornar as coisas mais difceis para voc.
       No, no vai. Eu no podia simplesmente ficar em casa, esperando. Se no viesse junto, ficaria louca.
      Ele a compreendia. Era uma dura misso viajar a Monterico a fim de identificar o corpo de Hal e providenciar o transporte aos Estados Unidos.
      Seria terrvel enfrentar a burocracia do Departamento de Estado, sem falar nas difceis negociaes com a arrogante junta militar do pas centro-americano. 
Mas era melhor que ficar em casa, presenciando o luto inconsolvel dos Hendren.
       Jenny, onde voc estava?  tinha gritado Sarah, estendendo os braos ao v-la entrar na sala de estar da casa paroquial. Bob acabara de dar a ela e a Cage 
a terrvel notcia.  Seu carro estava a... ns a procuramos em toda parte... Oh, Jenny!
      Sarah tombou em seus braos e se ps a soluar descontroladamente. Cage se sentou no sof, as pernas muito abertas, inclinou o corpo para frente e ficou olhando 
fixamente para o cho. Ningum se deu ao trabalho de consol-lo pela perda do irmo. Nada tinha a fazer l, a no ser padecer os olhares de condenao que Bob pousava 
nos dois capacetes de motociclista que ele deixara jogados no cho do corredor ao entrar correndo.
      Jenny acariciou os cabelos claros de Sarah.
       Eu lamento muito no estar aqui. Eu... Cage e eu fomos dar uma volta de moto.
       Voc estava com Cage?  Sarah ergueu rapidamente a cabea e olhou para o filho. Era como se sua existncia fosse uma grande surpresa para ela, como se nunca 
o tivesse visto na vida.
       Quem lhe trouxe a notcia, mame?  perguntou ele em voz baixa.
      Sarah parecia num estupor. Sua expresso no dizia nada, sua palidez impressionava. Foi Bob quem lhes contou o pouco que sabia.
       Um representante do Departamento de Estado telefonou h mais ou menos uma hora.  O pastor parecia repentinamente envelhecido. Pela primeira vez, a pele 
sob seu queixo pendia flcida, mole. Seus olhos tinham perdido o brilho e a vivacidade habituais. Sua voz, to impressionante e convicta no plpito, claudicava miseravelmente. 
 Parece que aqueles fascistas assassinos que controlam o governo de l no gostaram da interferncia de Hal. Ele e alguns membros de seu grupo foram presos junto 
com os rebeldes que deveriam sair do pas.  Olhou tristemente para a esposa e revelou o que lhe haviam comunicado oficialmente.  Mataram... todos. O governo vai 
enviar uma nota formal de protesto.
       Hal morreu!  gemeu Sarah.  De que servem os protestos agora? Nada vai trazer o nosso filho de volta.
      Jenny concordou calada. As duas mulheres passaram o resto da tarde abraadas, chorando, lamentando. A notcia se espalhou na comunidade. Os paroquianos comearam 
a chegar enchendo de solidariedade os grandes cmodos da casa e de comida a cozinha.
      O telefone tocava sem cessar. Numa ocasio, Jenny ergueu os olhos e viu Cage atendendo-o. Em algum momento, ele voltara para casa e havia trocado de roupa. 
Estava de cala social, camisa esporte e palet. Enquanto ouvia o que lhe diziam do outro lado da linha, esfregou os olhos com o indicador e o polegar. Encostado 
na parede como estava, parecia cansado. E desolado.
      Ela no tivera tempo nem sequer para subir e pentear os cabelos depois do passeio com Cage. Mas ningum parecia notar que estava desgrenhada. Todos caminhavam 
de um lado para outro, feito robs, como se houvessem perdido o interesse pela vida. No conseguiam acreditar que a existncia de Hal tinha sido irreversivelmente 
arrebatada, e com tanta violncia e crueldade.
       Voc parece exausta.  Jenny estava se servindo de uma xcara de caf e, voltando-se, deu com Cage a suas costas.  Comeu alguma coisa?
      Os pratos de comida trazidos pelos membros da comunidade estavam enfileirados nos balces da cozinha. No a atraam, na verdade, a ideia de ingerir alguma 
coisa lhe era repulsiva.
       No. No quero comer nada. E voc?
       Ainda no estou com fome.
        melhor comermos alguma coisa  disse Bob, aproximando-se deles. Sarah, que estava agarrada a seu brao, sentou-se numa cadeira.
       Papai, um sujeito chamado Whithers telefonou,  do Departamento de Estado  informou Cage.  Amanh vou buscar o corpo de Hal.
      Sarah reprimiu o pranto, apertando os dedos nos lbios.
       Vou me encontrar com esse tal Whithers na Cidade do Mxico e ele ir comigo para me ajudar nos trmites. Eu telefonarei assim que souber de alguma coisa 
para que vocs possam providenciar o enterro.
      Sarah cruzou os braos na mesa, deitou a cabea neles e comeou a chorar novamente.
       Eu vou com voc, Cage.
      Jenny declarou calmamente a sua inteno. Os Hendren tentaram impedi-la, mas ela estava decidida, e eles, transtornados demais para discutir.
      Os dois partiram de manh cedo rumo a El Paso a fim de tomar o avio para a capital do Mxico, o mesmo vo em que Hal tinha ido havia quase trs meses.
      Agora Cage viajava ao seu lado. Embora houvesse uma poltrona vazia na fila, sentara-se na do meio, perto dela, como se quisesse proteg-la do resto do mundo. 
Quando acabaram os lenos de papel, tirou um de pano do bolso do palet e o entregou a ela.
       Obrigada.
       No me agradea Jenny. Eu no agento v-la chorando.
       Eu me sinto to culpada.
       Culpada? Mas culpada de qu?
      Ela fez um gesto de frustrao e voltou a olhar para o vazio pela janela do avio.
       No sei. Por um milho de razes. Por ter ficado zangada quando ele partiu. Por ter ficado magoada e com raiva porque no mandou um carto-postal s para 
mim. Tolices, besteiras desse tipo.
       Todo mundo se sente culpado pelas pequenas coisas quando uma pessoa morre.  natural.
       Sim, mas... eu me sinto culpada por... estar viva.  Virou a cabea e o fitou com os olhos cheios de lgrimas.  Por ter me divertido com voc ontem, quando 
Hal j estava morto.
       Jenny.  Cage sentiu uma dor no peito. A mesma culpa o visitara, mas ele no ia lhe contar isso.
      Ps o brao em seus ombros e a puxou para junto de si. Com a outra mo, fez com que pousasse a cabea em seu peito e lhe acariciou os cabelos.
       No precisa se sentir culpada por estar viva. Hal no ficaria contente. Ele escolheu isso. Sabia do risco que corria e o assumiu.
      Cage tomou conscincia do quanto era bom abra-la. Quantas vezes desejara abra-la! Mas s agora tinha oportunidade: naquela situao terrvel. Ainda assim 
no pde ficar alheio ao enorme prazer de sentir aquele corpo mido e delicioso pressionado no seu.
      Por que Hal tinha de morrer? Por que, droga? Cage queria ter ganhado Jenny numa luta leal. No havia nenhuma vitria no fato de ela ter ficado subitamente 
disponvel com a morte de Hal. Ser que seu sentimento de culpa se tornaria um novo obstculo que ele teria de superar?
       Por que ficou zangada quando Hal viajou? 
      Acaso ela tinha mudado de sentimento, acaso se arrependera do que havia acontecido na cama quela noite? Oh, no, por favor! Talvez ele recebesse a resposta 
que no queria ouvir, mas precisava perguntar.
      Jenny hesitou durante tanto tempo que Cage chegou a pensar que no ia responder. Ento ela disse com a voz entrecortada:
       Aconteceu uma coisa na vspera da viagem que nos aproximou muito. Eu pensei que tudo tinha mudado. Mas, na manh seguinte, Hal partiu sem nem sequer se despedir 
de mim, como se no tivesse acontecido nada.
       que no tinha acontecido nada com Hal.
       Eu esperava que ele cancelasse a viagem  prosseguiu Jenny, suspirando, e Cage sentiu-lhe o peito dilatar-se com a respirao.  E me senti rejeitada. No 
ntimo, no acreditava que meus sentimentos fossem mais importantes para ele que a sua misso, mas...
      Cage ficara desesperado para saber o que ela estava pensando e sentindo aquela manh. Enquanto a observava  mesa da cozinha, mil perguntas lhe passaram pela 
cabea, mas ele no teve coragem de faz-las. Sua prpria traio o condenava ao silncio.
      Tivera vontade de perguntar: "Voc est bem?", "Eu a machuquei?" "Jenny, fui eu que imaginei que foi maravilhoso ou foi mesmo?", "Aconteceu de verdade ou tudo 
no passou de um sonho fantstico?"
      E continuava sem saber as respostas. Mas fossem quais fossem, pertenciam a Hal, no a ele. Jenny ficara magoada com a aparente indiferena do noivo pelo fato 
de terem feito amor pela primeira vez. No conseguia entender como ele pudera viajar como se aquilo no significasse alguma coisa para ele. Hal no merecia o seu 
ressentimento. Mas ela tambm era inocente. S havia um culpado na histria toda e, como de costume, era Cage.
      Devia lhe contar agora que seu irmo se mostrara indiferente porque no era ele que tinha feito amor com ela aquela noite? Pelo menos a livraria da culpa que 
a atormentava. Devia contar-lhe?
      No. De maneira nenhuma. Jenny no se conformava com a morte de Hal. Como suportaria saber que tinha dormido com o homem errado? Que mulher se perdoaria em 
semelhante situao? Que mulher perdoaria o homem que a enganara de forma to aleivosa?
      Talvez sentindo a tenso nos braos de Cage, Jenny endireitou o corpo de repente, aumentando a distncia entre eles.
       Eu no devia importun-lo com isso. Tenho certeza de que a minha vida ntima no lhe interessa.
      Oh, sim, interessava e muito! Eles j haviam experimentado o mximo de intimidade que dois seres humanos podiam ter. S que ela no sabia. No sabia que Cage 
a havia acariciado at que a textura da pele dela ficasse gravada na palma de suas mos e na ponta de seus dedos. No sabia que ele conhecia a forma de seus seios 
e continuava sentindo o sabor de seus lbios, de sua lngua. Que os sons que lhe escaparam da garganta no paroxismo da paixo lhe eram conhecidos como a sua prpria 
voz, pois, qual um gravador, ele os repetia sem cessar  noite, quando estava sozinho na cama, pensando nela. E tinha certeza de que nenhum homem, nem mesmo seu 
irmo, a havia beijado com a mesma intimidade. Ningum a conhecia como ele.
      Cage teve um sobressalto. 
      Que diabo estava fazendo afinal? Francamente, ele era um canalha! Um vilo! Hal acabava de morrer, e ele se permitia ficar pensando em Jenny na cama!
       Ns j vamos aterrissar  resmungou a fim de encobrir sua prpria culpa, seu desconcerto.
       Ento preciso me arrumar um pouco.
       Voc est linda.
      Jenny sacudiu a cabea.
      Apesar da raiva que estava sentindo de si mesmo pelos pensamentos que acabavam de lhe ocorrer, Cage no conseguia deixar de admirar a beleza de Jenny.
      Ela o fitou nos olhos, lembrando-se de que ningum lhe havia agradecido o trabalho que tivera para cuidar de tudo. Ele assumira as desagradveis tarefas sem 
que lhe pedissem.
       Voc tem ajudado muito, Cage. Aos seus pais, a mim.  Pousou a mo em seu brao.  Que sorte contar com voc!
       Eu tambm tenho sorte de contar com seu apoio  sorriu ele com doura.
      Fizera bem em no lhe contar que havia sido o seu amante aquela noite. O Cage de outrora, o egosta, no teria permitido que o irmo ficasse com a glria de 
ter dado prazer a Jenny. Mas o novo Cage, o mudado, podia muito bem deix-la pensar que havia feito amor com Hal e, assim, poup-la de acrescentar vergonha  tragdia.
      A capital de Monterico era uma cidade barulhenta, suja e quente.
      Em toda parte erguiam-se esqueletos de concreto e ao, sombrias lembranas dos prdios de outrora, agora meras runas. As pilhas de entulho tornavam algumas 
ruas intransitveis. Nas paredes e nos muros, os slogans polticos pichados em vermelho proclamavam a histria medonha da guerra civil. Soldados com cala de campanha, 
botas de combate e camiseta patrulhavam a cidade constantemente. Tinham expresso sombria, modos grosseiros e arrogantes. Atemorizada, a populao civil passava 
a caminho do trabalho com olhos vigilantes e assustados, com movimentos furtivos.
      Jenny nunca tinha visto um lugar to deprimente. Comeou a sentir certa empatia com a causa de Hal e a experimentar a sua determinao de corrigir tantos erros 
e dar fim quela supresso do esprito humano.
      Whithers, o funcionrio do Departamento de Estado que os recebera na Cidade do Mxico, era uma decepo. Ela que esperava um Gregory Peck cujo porte proclamava 
autoridade e impunha a obedincia, encontrou um homenzinho aparentemente incapaz de aguentar um vento mais forte, quanto menos a m vontade de um governo hostil 
aos Estados Unidos. Com seu terninho listrado e amarrotado, nada tinha de autoritrio ou impositivo. Ela o visualizava muito mais como um objeto de chacota que como 
uma ameaa  junta militar.
      Mas Whithers tinha sido gentil e se mostrara sensvel a sua dor no povoadssimo aeroporto, quando os conduziu ao avio que os levaria a Monterico. Tratara-a 
com o mximo respeito.
      Jenny preferiu que Cage falasse a maior parte do tempo, e mesmo enquanto se encarregava dos assuntos oficiais, ele no deixava de prestar ateno nela. Nunca 
se afastava muito, ficava constantemente ao seu lado, em geral com o brao protetor em seus ombros ou segurando-lhe delicadamente o brao.
      Ela confiava em sua fora, apoiava-se nela sem constrangimento. Santo Deus, que faria sem ele?
      Por que as pessoas achavam que Cage no tinha a menor sensibilidade?
      Cage Hendren no d a mnima para ningum nem para nada.
      Era o que diziam.
      Mas estavam errados. Ele gostava do irmo. Muito. E no podia ter sido mais gentil com ela.
      Ao chegar a Monterico, Jenny, Cage e o Sr. Whithers foram instalados no banco traseiro de um velho Ford. Na frente, iam o motorista e um soldado com um AK-47 
sovitico a tiracolo. Toda vez que olhava para o fuzil automtico, Jenny sentia um frio na espinha.
      O motorista e seu companheiro representavam o governo que assumira o controle do pas. No faziam o menor esforo para dissimular o desprezo que tinham pelos 
passageiros.
      Depois de dar muitas voltas na cidade, finalmente foram deixados diante de um prdio que antigamente era a sede de um banco e que, naquele momento, servia 
de quartel-general do governo. Havia um bode amarrado numa das colunas da fachada do prdio. Parecia to mal-humorado e hostil quanto os demais habitantes de Monterico.
      L dentro, os ventiladores no teto tentavam em vo fazer circular o ar denso e sufocante. Mas o saguo do antigo banco pelo menos oferecia abrigo contra o 
sol escaldante. A blusa de Jenny se havia colado a suas costas. Fazia tempo que Cage tirara o palet, a gravata, e arregaara a manga da camisa.
      Um soldado antiptico apontou com o cano do fuzil para um velho sof e grunhiu o que eles interpretaram como uma ordem para que se sentassem. O Sr. Whithers 
foi chamado ao escritrio do comandante. Minutos depois, saiu de l agitado, enxugando a testa suada com o leno.
       Fique sabendo que Washington ser notificada disso  gritou indignado.
       Notificada de qu?  quis saber Cage.
      De p, as pernas abertas, o palet pendurado no dedo em gancho junto ao ombro, a camisa desabotoada, o peito exposto, j quase rosnando entre os dentes cerrados, 
ele dava mais medo que os prprios soldados.
      O Sr. Whithers explicou que o corpo de Hal ainda no tinha chegado  capital.
       A aldeia onde ocorreu a... h...
       A execuo  completou Cage sem rodeios.
       Sim... Bem, a aldeia est isolada por causa dos combates com a guerrilha. Mas eles esperam que o corpo seja entregue ao anoitecer  apressou-se a acrescentar.
       Ao anoitecer!  exclamou Jenny. Passar uma tarde inteira naquele lugar dilacerado pela guerra era uma perspectiva desalentadora.
       Temo que sim, Srta. Fletcher.  O diplomata americano olhou com nervosismo para Cage.  Pode ser que chegue mais cedo. Ningum sabe ao certo.
       E o que vamos fazer enquanto isso?  ela Perguntou.
      O homem temperou a garganta e engoliu em seco.
       Esperar.
      E foi o que fizeram, durante horas e horas que se arrastavam com montona lentido. No lhes deram autorizao para sair do prdio. Quando o Sr. Whithers, 
valendo-se de seus poderes diplomticos, conseguiu que providenciassem comida e bebida, serviram-lhes sanduches de presunto estragado e gua morna e turva.
       Isto deve ser sobra dos campos de prisioneiros  disse Cage com cara de nojo, jogando o sanduche infame na lata de lixo mais prxima.
      Jenny tambm no conseguiu comer aquele presunto coberto por uma camada esverdeada. Mas os trs beberam a gua para evitar a desidratao. Ficaram suando no 
calor da tarde enquanto os soldados, encostados nas paredes com seus fuzis, entregavam-se  indefectvel siesta.
      Cage andava de um lado para outro, resmungando pragas contra Monterico em geral e contra aqueles guardas em particular. A pele clara e os olhos verdes de Jenny 
eram uma raridade no pas, onde a maior parte da populao tinha ascendncia hispnica. Cage sabia disso, embora ela no soubesse. E toda vez que os soldados endereavam 
um olhar cheio de malcia na direo dela, ele os encarava ameaadoramente.
      Ningum sabia que aquele estrangeiro falava fluentemente o castelhano e, quando um deles fez uma observao obscena sobre Jenny ao companheiro, Cage arremeteu 
contra ele com os punhos cerrados. Whithers o segurou a tempo.
       Pelo amor de Deus, rapaz, no faa nenhuma besteira! Do contrrio terei de mandar trs corpos para os seus pais amanh.
      O diplomata americano tinha razo, naturalmente, e, com relutncia, Cage voltou a ocupar seu lugar no sof. Segurou com fora a mo de Jenny.
       No saia de perto de mim nem um instante, acontea o que acontecer.
      Quando o sol estava se pondo no alto da densa selva visvel  distncia, um enorme caminho militar fez trepidar a rua toda e parou em frente ao quartel-general 
do governo. O motorista e sua escolta desembarcaram despreocupadamente, acendendo cigarros, fazendo piadas, espreguiando-se depois do que devia ter sido uma longa 
viagem em estradas empoeiradas. O mais barrigudo e de patente mais alta entrou lentamente no escritrio do comandante.
       Acho que chegaram  disse o Sr. Whithers cheio de esperana.
      E tinha razo. O comandante saiu do escritrio com um mao de papis na mo e lhes fez sinal para que fossem com ele para fora. Abriram a parte de trs do 
toldo de lona da carroceria, e o comandante subiu. Whithers o seguiu. Depois Cage.
       No  disse Cage a Jenny, quando ela fez meno de subir tambm.
       Mas...
       No!  repetiu ele com determinao. Havia quatro caixes no caminho. Hal estava no terceiro que abriram. Quando levantaram a tampa, Jenny soube disso pela 
expresso de Cage. A Mudana foi brusca. Ele comprimiu as plpebras e cerrou os dentes numa careta de horror. Whithers lhe fez uma pergunta. Ele respondeu com um 
gesto afirmativo. Depois, passeou os olhos no interior da carroceria como se no fosse capaz de tornar a olhar para o irmo. Mas conseguiu. Sua expresso se abrandou 
e lhe saltaram lgrimas dos olhos. Ele estendeu a mo e tocou no rosto de Hal com ternura.
      Ento, a uma ordem brusca do comandante, fecharam o caixo novamente. Cage e Whithers desceram do caminho, e quatro soldados receberam ordem de subir e retirar 
o cadver.
      No momento em que saltou da carroceria, Cage abraou Jenny. S ento ela percebeu que tambm estava chorando.
       Vamos embora daqui  disse ele ao diplomata que se aproximara.  Mande-os levar o caixo ao aeroporto, e vamos partir imediatamente.
      Whithers se afastou apressado. Colocando o dedo no queixo de Jenny, Cage perguntou:
       Voc est bem?
       Ele estava... O rosto dele est...
       No  atalhou ele com delicadeza, acariciando-lhe os cabelos.  Hal est perfeito, parece que est dormindo. Incrivelmente jovem. Em paz.
      Jenny deixou escapar um soluo e mergulhou o rosto no peito de Cage.
      Ele baixou a cabea e a estreitou, acariciando-lhe as costas. Apesar de seus sentimentos confusos por Hal, ele era antes de tudo um irmo para ela. Tinham 
morado na mesma casa o tempo suficiente para se sentirem parentes. Cage sabia o que ela estava sofrendo. Era como se uma parte dele mesmo estivesse naquele caixo.
      Whithers pigarreou ruidosamente para chamar a ateno.
       h... Sr. Hendren.  Quando Cage ergueu a cabea e o fitou, ele falou depressa.  Esto levando o corpo do seu irmo para o aeroporto agora.  Apontou para 
uma caminhonete desengonada que se afastava com as engrenagens gemendo como se estivesse subindo uma ladeira.
       timo. Eu quero tirar Jenny deste inferno o mais depressa possvel. Podemos chegar  Cidade do Mxico s...
       H um problema.
      Cage j estava se afastando. Deteve-se e, sem soltar o brao de Jenny, girou nos calcanhares.
       Que problema?
      O diplomata americano transferiu o peso do corpo de uma perna para outra, depois voltou  posio anterior.
       Eles no deixam nenhum avio decolar depois do anoitecer.
       Qu?  explodiu Cage. O sol acabava de se pr. A escurido era impenetrvel como s acontece nas regies tropicais.
       Medidas de segurana  explicou Whithers.  No acendem as luzes da pista quando escurece. No sei se hoje, ao chegar, o senhor reparou que a pista estava 
camuflada.
       Sim, sim, eu me lembro.  Irritado, Cage passou a mo nos cabelos.  Quando poderemos viajar?
       Amanh cedo.
       Se no partirmos amanh bem cedo, vou criar urna grande confuso aqui. Tambm sei jogar sujo. Eles ainda no toparam com um guerrilheiro pior que eu  ameaou 
ele com o dedo em riste.  E se acham que vou sujeitar Jenny a passar a noite neste banco, esto muito enganados!
       No, no, no se preocupe. As autoridades j reservaram lugar para ns num hotel.
       Aposto que sim  resmungou Cage.  Mas ns mesmos vamos escolher o hotel.
      Infelizmente, as opes eram limitadas, de modo que acabaram ficando no lugar indicado pelos funcionrios do governo. Se os quartos fossem to precrios quanto 
o saguo principal, pensou Jenny, aquela noite seria das mais desconfortveis. A moblia manchada estava coberta de poeira. Os ventiladores no teto giravam irregularmente. 
A barra das cortinas encardidas roava o piso esburacado. A pilha de revistas descoradas e tambm empoeiradas devia estar l havia mais tempo que as cortinas.
       No chega a ser o Fairmont  murmurou Cage com o canto da boca. O saguo estava povoado no de porteiros, empregados e carregadores, mas de soldados de ar 
sardnico e armados de fuzis automticos.
      Depois de conferenciar com o desgrenhado recepcionista, Whithers entregou uma chave a cada um.
       Vamos ficar todos no mesmo andar  disse alegremente.
       Fantstico. Vou mandar levarem champanhe e caviar para a nossa festa.
      Embora ofendido com o sarcasmo, o diplomata se voltou para Jenny.
       Srta. Fletcher, o seu quarto  o trezentos e dezenove.
      Cage interceptou a chave antes que ela a pegasse e verificou o nmero da sua.
       A Srta. Fletcher vai ficar comigo no trezentos e vinte e cinco. Vamos, Jenny.
      Tomou-a pelo brao e rumou com ela para a escada, preferindo subir a p a servir-se do elevador. Se este se encontrasse nas mesmas condies que tudo o mais 
naquele pas desolado, era melhor no arriscar a vida, usando-o.
       Mas as autoridades foram muito especficas  protestou Whithers, correndo atrs deles feito um cachorrinho.  Ns devemos ficar em quartos separados.
       As autoridades que vo para o inferno! Acha que vou deixar Jenny sozinha  merc dessa gente? Pense um pouco, amigo.
       Mas isso  romper o nosso acordo.
       Pouco me importa se a ruptura do seu acordo provocar a Terceira Guerra Mundial!
       Duvido muito de que faam mal a Srta. Fletcher. Afinal de contas, eles no so selvagens.
      Cage se virou e olhou com tanta fria para o diplomata que este se encolheu.
       Ela vai ficar comigo.
      No havia como discutir ante a firmeza com que ele pronunciou essas palavras.
      O quarto trezentos e vinte e cinco era quente, abafado e empoeirado como todo Monterico parecia ser. Cage usou o dimmer para escurecer um pouco o abajur. Foi 
at a janela e olhou para fora. Como era de se imaginar, estavam sendo vigiados por dois soldados na rua, dos quais se via unicamente a brasa dos cigarros na escurido. 
Deixando a janela aberta, ele baixou a persiana para que tivessem um mnimo de privacidade. O ar fresco da noite tornou o quarto de hotel um pouco mais habitvel.
       Whithers disse que vo mandar o jantar para c.
       Se for como o almoo vai ser uma maravilha  disse Jenny, deixando cair  bolsa no colcho e sentando-se na beira da cama. Era evidente que estava muito 
triste, mas Cage se alegrou ao ver que no tinha perdido o senso de humor.
       Tire os sapatos e deite-se.
       Sim, vou descansar um pouco  concordou ela com desnimo e se deitou. A colcha tinha um estampado de flores vermelhas que pareciam querer engoli-la viva.
      Meia hora depois, um soldado bateu na porta uma vez, abriu-a e entrou com uma bandeja. Jenny, que estava cochilando, sentou-se rapidamente na cama. Sua saia 
se ergueu, expando-lhe parte das coxas. O soldado a examinou com interesse.
      Sem fazer caso da advertncia de Whithers, Cage pegou a bandeja e empurrou o rapaz para fora. Bateu a porta encardida, trancou-a e a travou com uma cadeira 
sob a maaneta. Tais medidas no deteriam as balas de um AK-47, mas fizeram-no sentir-se melhor.
      O jantar consistia em arroz, frango, feijo e pimenta suficiente para que escorressem lgrimas dos olhos de Jenny. Em todo caso, ela estava sem apetite e, 
depois de dois bocados, deixou o garfo no prato.
       Coma  ordenou Cage.
       Estou sem fome.
       Coma mesmo assim. Pelo menos o que no estiver andando no prato.
      Continuou insistindo at que ela se dignasse a engolir meia poro, escolhendo com muito critrio os fibrosos pedaos de frango. Uma garrafa de vinho tinto 
denso e escuro acompanhava a refeio. Cage serviu-se de um pouco, provou-o e torceu o nariz.
       Acho que eles lustram os mveis com isto.
        o expert em bebidas do distrito de La Bota que est falando?
       E assim que me chamam?
       s vezes.
      Cage lhe serviu o vinho. 
      Jenny aceitou, mas ficou olhando demoradamente para o copo, indecisa.
       Beba  disse ele, respondendo a muda pergunta.  No confio na gua daqui. Pode ter certeza de que nenhum micrbio consegue sobreviver nessa beberagem.
      Jenny experimentou o vinho, fez uma careta, riu de si mesma e tornou a beber. Conseguiu tomar apenas cinco goles.
       No aguento mais  disse, estremecendo com o sabor amargo.
      Cage colocou a bandeja com os pratos sujos no cho, perto da porta. Passou um bom tempo tentando escutar algo, mas duvidava de que o estivessem vigiando. Pelo 
menos do outro lado. Em todo caso, sabia que havia uma sentinela a postos entre o elevador e a escada.
      Ser que o chuveiro funciona?  perguntou Jenny, aventurando-se no banheiro.
       Experimente.
       No corro perigo de pegar uma infeco? 
      Ele riu.
       A esta altura  melhor arriscar.  Mostrou a camisa imunda.  Eu no tenho escolha.
       Eu tambm no  sorriu ela, olhando para o seu reflexo no espelho manchado e cheio de ondulaes.
      Fechando a porta, tirou a roupa e entrou no boxe. Normalmente, no teria coragem de pisar descala num cubculo to embolorado, entretanto, como dissera Cage, 
no tinha escolha. Ou tomava banho ou teria de ficar suja coberta de suor e poeira.
      Para sua surpresa, a gua que saiu do chuveiro estava quente e o sabonete era importado dos Estados Unidos. Ela at o usou para lavar os cabelos j que no 
tinha xampu.
      Depois de se enxugar, ficou num dilema quanto ao que vestir. Precisava lavar a roupa de baixo e a blusa, do contrrio no seria capaz de vesti-las novamente 
na manh seguinte. Resolveu dormir de combinao, se bem que com o casaco do tailleur, questo de decncia. Ficou ridcula com aquela indumentria, mas no havia 
outra alternativa.
      Lavou a lingerie na pia e pendurou a calcinha, as meias, o suti e a blusa no nico toalheiro disponvel. Apagando a luz, abriu a porta.
      Seus olhos hesitantes encontraram os de Cage, curiosos, do outro lado do quarto. Constrangida, ela repuxou a gola do casaco, procurando cobrir os seios. Estava 
com os dedos dos ps muito encolhidos. Alguma vez Cage a tinha visto com os cabelos molhados?
       Eu... h...  que s havia uma toalha. Desculpe.
       Eu me seco com o ar.  Ele sorriu e tentou falar com voz despreocupada, mas seus olhos estavam presos  renda da combinao pouco acima de seus joelhos.
      Jenny se aproximou da cama ao mesmo tempo em que Cage passava por ela rumo ao banheiro. Quando a porta se fechou, lembrou-se da roupa ntima pendurada no toalheiro. 
Sentiu o rosto arder. O que era uma tolice. Tinham morado na mesma casa. Quando Cage voltava nas frias, suas roupas eram lavadas juntas. Era impossvel ir  lavanderia 
ou ao quintal sem que um visse uma pea do outro no varal. E em diversas ocasies ele a vira de camisola ou roupo.
      Mas agora era diferente. Intil fingir que no. E pensar em Cage olhando para a sua calcinha a fez corar novamente.
      Quando ele saiu do banheiro, Jenny havia tirado o casaco e estava deitada sob o lenol.
      Ele exalava um cheiro bom de sabonete. Tinha posto s a cala. Vinha descalo. Os plos de seu peito estavam midos e encaracolados. Devia ter enxugado os 
cabelos com a toalha. As mechas loiras no pingavam, mas continuavam molhadas e despenteadas.
      Apagou a luz, aproximou-se e se sentou na borda da cama.
       Muito desconfortvel?
       Nem tanto, apesar dos pesares.
      Cage segurou uma de suas mos, que seguravam o lenol junto ao queixo, e passou os dedos entre os dela.
       Voc  uma mulher e tanto, Jenny Fletcher  disse em voz baixa.  Sabia disso?
       Como assim?
       Enfrentou o prprio inferno hoje, mas no se queixou uma s vez.  Com a outra mo, roou-lhe os cabelos.  Acho-a fantstica.
       Voc tambm .  A voz dela estava trmula.  At chorou por Hal.
       Ele era meu irmo. Apesar de nossas diferenas, eu o amava.
       Eu no consigo parar de pensar...  Sem conseguir refrear o pranto, ela mordeu o lbio quando uma lgrima lhe desceu pela face.
       No pense nisso, Jenny.  Cage lhe alisou o rosto com o dorso da mo.
       Como no pensar?
       No vale  pena. Vai enlouquecer se insistir.
       Voc tambm est passando por isso, Cage. Eu sei que est. Que aconteceu a ele antes de morrer? Foi torturado? Espancado? Ser que...
      Cage pousou o dedo em seus lbios, calando-a.
       Claro que tambm pensei nisso. E tenho certeza de que Hal enfrentou tudo com bravura. Ele tinha uma f inabalvel. Estava fazendo o que achava que devia 
fazer. Duvido de que a f tenha lhe faltado nessa hora.
       Voc o admirava  sussurrou Jenny numa sbita percepo.
      O rosto dele se cobriu de tristeza.
       Sim, admirava. Nossas reaes s situaes eram sempre diferentes. Eu era violento, Hal sempre foi pacfico. s vezes a gente precisa ter mais coragem para 
ser doce e bom do que para sair dando bordoadas por a.
      Sem pensar, ela estendeu o brao e passou a mo em seu rosto.
       Ele tambm o admirava.
       A mim?  perguntou Cage com incredulidade.
       Por sua atitude desafiadora, por sua coragem, sei l que nome dar a isso.
       Pode ser  concordou ele pensativo.  Eu gostaria de acreditar.  Puxando o lenol, ele lhe cobriu os ombros.  Agora durma um pouco.
      Apagou o abajur e hesitou apenas um momento antes de se inclinar e lhe beijar fraternalmente a testa. Depois, foi se instalar na nica cadeira moderadamente 
confortvel do quarto, a que ficava perto da janela.
      O dia tinha sido longo e cansativo. Em poucos minutos ambos estavam dormindo.
       Que  isso?  Jenny se sentou na cama com um sobressalto. O quarto estava escuro, mas um forte claro iluminava a janela com regularidade.
      Cage se levantou ao ouvir a exclamao e foi precipitadamente para a cama.
       Est tudo bem, Jenny.  Sentou-se e tentou fazer com que ela voltasse a se deitar, mas no conseguiu. Estava rgida.  E a muitos quilmetros daqui. Faz 
mais de meia hora que estou ouvindo. Lamento que o barulho a tenha acordado.
       No  trovo!  balbuciou ela. Cage fez uma pausa antes de responder.
       No.
        um combate?
       .
       Oh, meu Deus!  Jenny cobriu o rosto com as mos e se deixou cair nos travesseiros.  Eu odeio este lugar.  sujo,  quente, e eles matam sem parar. Matam 
gente boa, gente bonita como Hal. Quero ir embora  gritou.  Estou com medo e tenho raiva de estar com medo. Mas no posso fazer nada.
       Ah, Jenny.
      Cage se deitou ao seu lado e a tomou nos braos, segurando-a com fora.
       Esto combatendo longe daqui. Amanh cedo iremos embora e voc nunca mais vai pensar em Monterico. Mas agora eu estou com voc.  Passou os dedos em seus 
cabelos. Beijou-lhe a testa com carinho.  No vou deixar que lhe acontea nada. Por Deus, enquanto eu estiver vivo, nada vai lhe acontecer.
      Aquelas roucas palavras, murmuradas e repetidas com tanta doura, lhe deram segurana. A fora fsica de Cage era como uma bia salva-vidas  qual ela se agarrava. 
Quando ele se encostou na guarda da cama e a puxou para junto do peito, Jenny no resistiu e se aninhou nele, procurando instintivamente o contato de seu corpo grande 
e forte.
      Mergulhando os dedos no emaranhado de plos de seu peito, pressionou o queixo naquela parede de msculos. Com o outro brao, enlaou-lhe a cintura e se abrigou 
em seu abrao.
      Cage a estreitou com fora, murmurando promessas que ela ansiava por ouvir. A mente dele estava ciente da deliciosa proximidade de Jenny.
      A combinao dela era macia e clara na escurido do quarto. A seda rendada se estreitava na cintura, moldando-se  curva atraente dos quadris. Seus seios se 
comprimiam suaves, femininos, no peito dele.
      s vezes Jenny tinha um calafrio, um tremor, e Cage lhe beijava os cabelos e, encantado com a suavidade de sua pele, acariciava-lhe os ombros nus.
      Por fim, Jenny adormeceu. Ele percebeu pela respirao regular e quente que lhe soprava os plos do peito. E quando, dormindo, ela ps a perna em cima da dele, 
repousando a coxa em sua coxa, o joelho quase a lhe roar a braguilha, ele cerrou os dentes num esforo para resistir ao desejo que o sacudia. Olhou para aquela 
mo adormecida em seu colo. A necessidade de que ela o tocasse era to profunda que quase o matou. Porm, se Jenny o tivesse tocado, ele provavelmente tambm morreria 
num espasmo de agonia e xtase.
      Ficou escutando o trovejar distante da batalha at que o silncio finalmente prevaleceu. Viu os primeiros clares do dia no horizonte. E continuou com ela 
nos braos, a noiva de Hal.
      A mulher que ele amava.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
   CAPTULO V
      
      
      
      O enterro de Hal Hendren atraiu muita gente. Todos o consideravam um mrtir. Os que zombavam dele antes de sua partida, chamando-o de fantico, estavam agora 
de cabea baixa e cheios de reverncia  beira do tmulo. As equipes de jornalismo das emissoras das principais cidades do Texas e de vrias redes nacionais de televiso 
circulavam no cemitrio  procura dos melhores ngulos para as cmeras.
      Sentada ao lado de Sarah e Bob sob o toldo de lona ali armado, Jenny continuava sem acreditar que a misso do noivo terminara daquele jeito. Ainda lhe parecia 
impossvel que ele estivesse morto. E esperava acordar a qualquer momento daquele pesadelo.
      Desde seu retorno de Monterico em companhia de Cage, a casa paroquial se havia transformado num verdadeiro caos. O telefone no parava de tocar. O fluxo de 
visitantes era constante. As agncias do governo mandaram representantes entrevist-los sobre suas impresses do pas centro-americano. Graas  interferncia de 
bem-intencionados membros da igreja, criou-se um clima de carnaval.
      Jenny tinha dormido pouco desde que despertara nos braos de Cage no quarto de hotel em Monterico. Acordara lentamente e, ao perceber que estava aninhada em 
seu tronco nu, vestindo apenas combinao, levantou-se de um salto e deu com os olhos dele abertos e vigilantes.
       Co... com licena  gaguejou, saindo desajeitadamente da cama para se refugiar no banheiro.
      Enquanto se vestiam para partir, a tenso entre os dois crepitava qual uma fogueira. Mais de uma vez, um esbarrou no outro acidentalmente, o que os obrigava 
a murmurar constrangidos pedidos de desculpa.
      Toda vez que Jenny arriscava olhar na direo de Cage, topava com seus olhos penetrantes a estud-la e analis-la. Ento passou a evit-lo, e ele se irritou.
      Outro carro caindo aos pedaos os levou ao aeroporto, onde tomaram o mesmo avio que transportava o corpo de Hal. Na capital do Mxico, o Sr. Whithers se ps 
a correr de um lado para outro qual uma barata tonta, providenciando o vo para El Paso, onde a limusine de uma casa funerria de La Bota estaria  espera deles 
a fim de levar o fretro para casa.
      Cage ficou  janela do aeroporto, olhando para o nada, os ombros cados, o rosto tenso, fumando um cigarro atrs do outro. Ao v-la observando-o com expresso 
de surpresa, resmungou uma praga entre os dentes e apagou o cigarro no primeiro cinzeiro que encontrou. Jenny no o via fumar desde a noite da vspera da viagem 
de Hal.
      No tinham falado muito durante o vo a El Paso.
      Permaneceram quase totalmente em silncio tambm na interminvel viagem de automvel a La Bota, acompanhando a limusine com sua triste carga.
      E desde ento, haviam trocado poucas palavras.
      A camaradagem que se desenvolvera entre eles em Monterico deixara de existir. Por motivos que no conseguia identificar, Jenny se sentia ainda menos  vontade 
na presena de Cage que antes. Ele entrou na sala. Fitou-a; ela desviou o olhar. No era capaz de dizer por que procurava evit-lo, mas sabia que tinha a ver com 
a noite passada no hotel em Monterico.
      Ele a havia tomado nos braos. E da?
      Da, passaram a noite abraados na cama, dormindo, ela vestia s a combinao, e ele, s a cala. E da?
      Estavam cercados pelo perigo. Estavam isolados e no tinham amigos naquele pas estrangeiro. Em situaes como aquela, as pessoas tinham atitudes que normalmente 
no teriam. No se podia levar em conta um comportamento adotado em circunstncias de tal modo excepcionais.
      E provavelmente no significava nada o fato de ter acordado com a mo dele espalmada em sua ndega, a outra pousada um tanto possessivamente em seu pescoo, 
ao passo que ela estava com os dedos enroscados nos plos do peito de Cage, os lbios muito prximos de um mamilo rosado.
      Agora Jenny olhava fixamente para frente, para o caixo coberto de flores, tentando desembaraar-se das lembranas daquela manh. No queria recordar o intervalo 
infinitesimal em que, despertando, sentira-se confortvel, serena e segura. Mas no tardou a se dar conta do quanto quela serenidade estava errada.
      No queria expor-se ao risco de se aproximar tanto de Cage novamente. Sua fora e obstinao eram como um m que a atraa implacavelmente. Ela se sentiu tentada 
a buscar apoio em seus olhos, mas ele estava sentado ao lado de Bob, seus pais entre os dois.
      O bispo concluiu a cerimnia  beira da sepultura com um longo sermo. Na limusine que os levou para casa, Sarah continuou chorando baixinho no ombro do marido. 
Sombrio, Cage ia olhando para fora. Tinha afrouxado a gravata e desabotoado o colarinho. Jenny se limitou a torcer o leno calada.
      Vrias senhoras da igreja j se encontravam na casa paroquial, preparando o caf e o ponche, cortando bolos e tortas para os que viriam dar os psames aps 
o funeral. E eram muitos. Jenny pensou que aquele desfile no fosse terminar nunca mais. Cansada de ser consolada, ela saiu da sala e foi para a cozinha, onde fez 
questo de lavar a loua.
       Por favor  disse  mulher que ela substituiu a pia , eu preciso fazer alguma coisa.
       Pobrezinha.
       O seu querido Hal partiu.
       Mas voc ainda  moa, Jenny.
       A vida precisa continuar. Pode ser que demore um pouco...
       Voc est aguentando firme.
        o que todo mundo diz.
       A viagem que fez quele pas horrvel deve ter sido um pesadelo.
       E ainda por cima com Cage!
      Esta ltima acrescentou um muxoxo s palavras e sacudiu gravemente a cabea, insinuando que, para uma mulher, viajar na companhia de Cage era um destino pior 
do que a morte.
      Jenny teve vontade de dizer a todas que, se no fosse Cage, ela dificilmente teria aguentado. Mas sabia que aqueles comentrios eram inocentes, baseados na 
ignorncia. Quando foram embora, ela agradeceu uma a uma, perdoando-lhes a burrice, pois sua preocupao era sincera.
      Terminou de lavar a loua empilhada no balco e foi procurar as peas que estavam espalhadas na casa. Ao entrar na sala de estar, ficou aliviada ao encontrar 
apenas os Hendren. Finalmente as visitas tinham ido embora. Jenny se deixou tombar numa poltrona e inclinou a cabea para trs.
      Abriu os olhos ao ouvir o clique de um isqueiro. Cage acabara de acender um cigarro. Guardando o mao no bolso, deu uma longa tragada.
       Eu j lhe pedi que no fume nesta casa  disse Sarah. Estava enrugada e encolhida no sof, quase esqueltica. Seus olhos agora enxutos continuavam inchados, 
sombrios. Sua expresso era to amarga que beirava a crueldade.
       Desculpe  disse ele. Levantou-se calmamente, foi at a porta da rua e jogou o cigarro na noite que, sem que percebessem, havia chegado.   o hbito.
       Voc precisa trazer os seus pssimos hbitos para esta casa?  perguntou Bob.  No tem respeito por sua me?
      Cage, que estava voltando para a poltrona, deteve-se surpreso com o tom rspido do pai.
       Eu tenho respeito por vocs dois  respondeu em voz mansa, embora a tenso fosse visvel em seu corpo.
       Voc no respeita ningum  retrucou Sarah.  Eu no o ouvi dizer uma s vez que sentiu a morte de seu irmo. No vi nenhum gesto de simpatia.
       Mame, eu...
      Ela prosseguiu como se no o tivesse ouvido.
       Mas tambm no sei por que cheguei a esperar alguma coisa de voc. No fez outra coisa seno me dar desgosto desde o dia em que nasceu. Nunca teve considerao 
por mim como Hal tinha.
      Jenny endireitou o corpo na poltrona e quis lembrar Sarah de que fazia dias que Cage vinha cuidado de tudo, da mdia e dos detalhes legais ligados  morte 
de Hal. Mas no teve oportunidade de dizer nada, pois Sarah continuou falando.
       Hal teria ficado o tempo todo ao meu lado numa situao destas.
       Eu no sou Hal, mame.
       E acha que no sei disso? Voc nunca chegou aos ps de seu irmo.
       Por favor, Sarah  pediu Jenny, escorregando para a beira da poltrona.
       Hal era to bom, to bom e to doce. O meu filho querido.  Os ombros de Sarah se sacudiram, e seu rosto se contraiu numa nova crise de choro.  Se Deus 
tinha de levar um dos meus filhos, por que escolheu Hal e deixou voc? 
      Jenny levou a mo  boca.
       Oh, meu Deus!
      Bob se ps de joelhos em frente  esposa, tentando consol-la. Cage passou um longo tempo olhando para os pais com incredulidade; depois, seu rosto se endureceu. 
Ele deu meia-volta e foi para a porta. Bateu-a com violncia, atravessou com passos largos a varanda da frente e desceu os degraus.
      Sem parar para pensar, Jenny correu atrs dele. Atravessou o jardim e foi alcan-lo no meio-fio, onde estava estacionada a Corvette. Ele acabava de tirar 
o palet do terno azul-marinho, que parecia queimar-lhe as costas, e de desabotoar o colete.
       Volte para l  gritou ao v-la. Sentou-se ao volante do carro esporte e deu a partida. Faltou pouco para que a chave se quebrasse no contato. Pisando com 
violncia na embreagem, engatou a primeira. Jenny abriu depressa a porta do lado direito e entrou no carro um segundo antes que ele pisasse no acelerador.
      A Corvette arrancou feito um mssil. Derrapou no meio da rua e carenou quando ele virou a esquina sem desacelerar antes de fazer a curva. Jenny agarrou a maaneta 
e, milagrosamente, conseguiu fech-la sem cair no asfalto ou deslocar o brao.
      Cage j estava em quarta marcha quando chegaram ao limite do permetro urbano. Ao manejar o cmbio, cerrou os dentes com fora como se, com isso, adquirisse 
maior controle do automvel.
      Jenny no se atreveu a olhar para o velocmetro. A paisagem era um borro. Os faris fendiam a interminvel escurido a sua frente.
      Ele manipulou os botes do rdio, com uma s mo no volante, at encontrar a estao de heavy metal que procurava. Aumentou o volume ao mximo, inundando o 
interior do carro com o som ensurdecedor e agressivo do rock.
       Voc cometeu um grande erro  gritou em meio ao barulho.  Devia ter ficado em casa.
      Estendendo o brao e roando os joelhos dela, abriu o porta-luvas, de onde tirou um frasco prateado. Prendendo-o entre as pernas, desatarraxou a tampa e o 
levou aos lbios. Tomou um longo trago. A julgar pela careta que fez ao engolir, a bebida devia ser forte. Bebeu novamente e continuou viajando em alta velocidade, 
uma s mo na direo.
      As janelas estavam abertas. Agitando os cabelos de Jenny, o vento soltou todos os grampos que os prendiam num discreto coque, e mal a deixava respirar. Ela 
no sabia como Cage conseguira acender o cigarro, porm, na penumbra do carro apenas iluminado pelas luzes do painel, a brasa brilhava entre seus lbios, afogueando-lhe 
o rosto srio.
       Est gostando?  perguntou ele com sarcasmo. Aparentemente indiferente  provocao, Jenny virou a cabea e ficou olhando para frente. No se dignou a lhe 
dar resposta. O automvel em altssima velocidade a aterrorizava. Ela desaprovava aquilo tudo, mas permaneceria muda mesmo que tivesse de morrer ali, o que podia 
acontecer a qualquer momento, sobretudo quando ele saiu bruscamente da rodovia e entrou por uma estrada de terra sem nenhuma sinalizao. Como conseguiu fazer a 
manobra, Jenny era incapaz de imaginar.
      Exigiu muito da velha Corvette, dirigindo daquele modo na pista ondulada feito uma tbua de lavar roupa. Os dentes de Jenny bateram com fora quando ela os 
cerrou para mant-los intactos. Ia agarrada ao estofamento do banco para no bater a cabea no teto com os solavancos.
      Estavam subindo. Ela sentia a mudana de altitude, muito embora no conseguisse ver nenhum relevo na escurido que os cercava. A luz dos faris oscilava loucamente 
com os movimentos errticos do veculo. At a lua havia desaparecido atrs de uma nuvem, deixando a noite ainda mais escura: parecia querer dizer que Cage Hendren 
se entregara a mais uma de suas selvagens empreitadas e era melhor que ningum a testemunhasse.
      Ele freou abruptamente, fazendo os pneus gemerem; o carro avanou uns dois metros antes de parar completamente. Jenny quase bateu a cabea no pra-brisa.
      Com o motor desligado, criou-se um repentino silncio, pois o rdio tambm emudeceu. Apoiando o brao na janela, Cage tirou o cigarro da boca e o substituiu 
pelo gargalo do frasco. Bebeu mais uma vez, estalando a lngua com satisfao. Voltou-se para Jenny, que o observava calada.
       Desculpe. Que falta de educao a minha! Aceita um trago?
      Ofereceu-lhe o frasco. Ela no se moveu, no mudou de expresso.
       No?  Ele sacudiu os ombros.  Pior para voc.  Bebeu mais, depois agitou o mao de cigarros diante dela.  E fumar, voc quer? Oh, no. Claro que no.
      Jenny o fitava enquanto ele tomou mais um gole.
       Voc  a moa mais pura e imaculada que existe. A virtude em pessoa. Perfeita. Intocvel. Digna unicamente de um santo como o nosso falecido Hal Hendren. 
 Deu uma longa tragada e soprou a fumaa diretamente em seu rosto.
      Jenny no reagiu.
      Talvez irritado com tanta compostura, ele jogou o cigarro pela janela.
       Vamos ver. O que pode abalar voc? O que preciso fazer para que comece a gritar de pavor? Para que d o fora do meu carro, para que suma da minha frente, 
para que suma da minha vida maldita?
      Cage berrava. Estava ofegante, desfigurado. Jenny, contudo, percebeu que se esforava para se controlar. Quando ele tornou a falar, a voz ainda lhe saiu trmula 
de dor e carregada de dio, mesmo assim parecia mais calma.
       O que preciso fazer para lhe dar nojo? Para que fuja daqui com a sua grande virtude? O qu? Dizer palavres? Sim, pode ser. O mais provvel  que no conhea 
nenhum, mas no custa tentar. Quer que os coloque em ordem alfabtica ou prefere que os diga conforme me ocorrerem?
       Voc nunca vai me dar nojo, Cage.
       Quer apostar?
       Pode fazer ou dizer o que quiser, eu no vou embora daqui.
       No mesmo? Quer dizer que est disposta a me salvar?  isso?  Ele soltou uma gargalhada histrica.  No perca tempo, menina!
       Eu no vou embora.
       No?  Um sorriso sdico lhe retorceu os lbios.   o que vamos ver.
      Inclinou-se no banco e, segurando-lhe a nuca, puxou-a para junto de si. Pressionou os lbios nos dela. Chocou brutalmente os dentes com sua boca delicada. 
Jenny no ofereceu resistncia. Mesmo quando ele mergulhou a lngua entre seus lbios, violando-lhe a boca da maneira mais srdida, suportou tudo sem se defender.
      A roupa que ela escolhera para o enterro de Hal era um conjunto preto de duas peas. Cage lhe apalpou a cintura, levantou o casaco e mergulhou a mo por baixo 
dele.
       Tenho certeza de que conhece a minha reputao com as mulheres  murmurou seu hlito ardente a queimar-lhe o pescoo.  Eu sou implacvel, no tenho escrpulos. 
Um deflorador, um destruidor de lares, uma mquina de sexo totalmente descontrolada. Dizem que sou tarado, que no consigo ficar com a braguilha fechada.  Enfiou 
o joelho entre as pernas dela, abrindo-as.  Sabe o que isso significa para voc, Jenny? Um srio problema. Voc acaba de se meter numa enrascada, mocinha.
      Invadiu-lhe a boca novamente com um beijo injurioso ao mesmo tempo em que lhe agarrava o seio por baixo da roupa. Apertou-o com fora, depois puxou o frgil 
bojo do suti para desnud-lo.
      Massageou-o rudemente, esfregando o polegar no delicado mamilo.
      Embora decidida a no reagir, Jenny afastou as costas do respaldo do banco, endireitando o corpo tenso, mas no lutou. Resistiu passivamente.
      No entanto, o suspiro que lhe escapou foi mais efetivo que uma sirene. Cage voltou a si ao ouvi-lo, percebeu o que estava fazendo e se desaprumou diante dela 
feito um boneco inflvel a quem tivessem furado com um alfinete. Respirou fundo, os lbios ainda encostados nos dela, mas j despojados de violncia.
      O oxignio dispersou a neblina de lcool e raiva que o envolvia. Constrangido, ele lhe soltou o seio e, numa pattica tentativa de reparar o mal, tentou recolocar 
o suti de renda no lugar. A seguir, recuou e saiu do carro.
      Jenny mergulhou o rosto nas mos e respirou fundo alguns momentos. Estava trmula. Recompondo-se, alisou a roupa, os cabelos, abriu a porta e tambm saiu.
      Encontrou Cage sentado no pra-lama, contemplando a escurido. Ela reconheceu o lugar onde estavam. Era a meseta, um planalto que se elevava na zona rural 
e se estendia por quilmetros e quilmetros. L embaixo, a plancie escura estava no mais profundo silncio. O vento quente e seco colava a roupa em seu corpo e 
lhe agitava os cabelos, enquanto uivava lgubre o seu pranto.
      Jenny se colocou diante dele, obrigando-o a v-la. Seus joelhos quase se tocaram. Cage ergueu a cabea, fitou-a um momento, depois olhou para o cho.
       Desculpe. Eu lamento muito.
       Eu sei.  Ela lhe tocou os cabelos, afastando-os da testa, mas o vento os arrebatou imediatamente de seus dedos.
       Como eu pude...
       No faz mal, Cage.
       Claro que faz  insistiu ele entre os dentes.  Faz muito mal!
      Ergueu novamente a cabea e pousou delicadamente a mo no seio que pouco antes apertara com tanta violncia. Nada havia de sexual naquele contato. Era como 
se estivesse segurando o ombro de uma criana ferida.
       Eu a machuquei?
      Sua mo estava quente. Jenny a cobriu com a dela.
       No.
       Machuquei.
       No tanto quanto eles o machucaram. 
      Passaram um bom tempo entreolhando-se. Uma emoo sem nome vibrou entre eles qual uma corrente eltrica. Jenny afastou a mo. Ele a imitou. Ela se sentou ao 
seu lado no pra-lama da Corvette. A superfcie lustrosa estava quente, mas nenhum dos dois reparou.
       Sarah no sabia o que estava dizendo, Cage. 
      Ele riu.
       Sabia sim.
       A coitada est transtornada. Foi  dor que falou no ela.
       No, Jenny.  Cage sacudiu a cabea com tristeza.  Eu sei o que eles sentem por mim. Queriam que eu no tivesse nascido. Eu sou a lembrana viva de uma 
coisa na qual os dois fracassaram, um incmodo perptuo e um insulto constante a sua f, a suas convices. Mesmo que no o digam em voz alta, eu sei o que pensam. 
Provavelmente  o que todo o mundo pensa. Cage Hendren merece morrer. Seu irmo no merecia.
       No  verdade!
      Ele se levantou e foi at a borda da meseta. Ps as mos nos bolsos. Sua camisa branca se realava na escurido. Jenny o seguiu.
       Quando isso comeou?
       Quando Hal nasceu. Talvez antes. No me lembro. S sei que sempre foi assim. Ele era o anjinho loiro, literalmente. Eu devia ter nascido de cabelos pretos. 
Ento sim, seria a ovelha negra dos ps  cabea.
       No diga isso de voc mesmo.
       Ora,  a pura verdade!  exclamou ele bruscamente, voltando-se para encar-la com hostilidade.  Veja o que fiz com voc. Faltou pouco para que estuprasse 
a mulher que eu...  Interrompeu a frase. Ele apertou os lbios como para esconder as palavras no ditas e virou para o outro lado novamente.
       Eu sei por que fez isso comigo, por que bebeu e comeou a correr com o carro. Estava tentando provar que eles tm razo. Mas acontece que no tm Cage.  
Aproximou-se dele.  Voc no  uma pessoa de m ndole que, graas a um acidente gentico, apareceu numa famlia perfeita. Eu no sei o que veio primeiro, a sua 
rebeldia, com a qual eles no souberam lidar, ou o desprezo deles, que o tornou rebelde.  Segurou-lhe a manga da camisa, forando-o a olhar para ela.  No lhe 
parece lgico? Voc passou a vida reagindo a eles. Esfora-se para ser mau porque  o que as pessoas esperam de voc. Fez carreira de ovelha negra na famlia de 
um pastor. Voc no v Cage? Desde menino fazia coisas erradas para lhes chamar a ateno, porque eles preferiam Hal. Eles erraram. Eles fracassaram no voc. Eram 
dois filhos, cada um com uma personalidade diferente. Mas Hal se parecia mais com eles, e acabou sendo transformado no modelo a ser seguido. Voc tentou ganhar a 
sua aprovao e, como no conseguiu, passou a fazer o contrrio. 
      Ele sorriu com ironia.
       E, pelo que vejo voc percebeu tudo.
       Percebi. Do contrrio teria ficado apavorada com o que aconteceu agora h pouco. Mesmo alguns meses atrs teria ficado. Mas hoje eu sabia que no me faria 
mal. Eu o conheo melhor agora. Observei-o. Vi voc chorar a morte do seu irmo. Voc est muito longe de ser "mau" como quer que as pessoas pensem que . Como no 
podia competir com a bondade de Hal, resolveu ser campeo em outra arena.
      Cage a ouvia com ateno, e, por mais que quisesse contest-la, o que Jenny dizia tinha sentido. Ele olhou para baixo e revolveu a terra com o bico do sapato, 
levantando pequenas nuvens de poeira que rodopiaram no vento.
       O que me preocupa  at quando vai agir assim.
      Ele a fitou.
       Assim como? Que est querendo dizer?
       Voc foi levado a sentir que no tem valor nenhum. At onde  capaz de chegar para provar que isso  verdade? At onde  capaz de chegar para provar que 
no presta mesmo, que no vale nada? 
      Cage prendeu os polegares no cs da cala e inclinou a cabea para o lado com arrogncia.
       Voc j me analisou at aqui. Por que no continua e no diz o que est vendo? Acha que estou me matando?
       As pessoas que no tm auto-estima cometem grandes tolices.
       Como dirigir em alta velocidade, beber muito e viver ao deus-dar?
       Exatamente.
       Ora bolas!  s perguntar por a. Qualquer um  capaz de falar de minha auto-estima.
       Eu no estou falando de suas aes, mas de seus sentimentos. Eu vi o seu lado sensvel, aquele que voc no mostra para ningum.
       Acha que estou cometendo uma espcie de suicdio lento?
       Eu no disse isso.
       Mas foi o que quis dizer.  Ele passou os dedos nos cabelos com impacincia.  Voc exagerou um pouco na psicologia, Jenny.
      Estava muito defensivo para admitir que talvez ela tivesse razo.
       Ok, desculpe. S estou preocupada porque gosto de voc, Cage.
      Ele relaxou imediatamente, seus olhos se abrandaram.
       Obrigado, mas no precisa se preocupar com o modo como vivo. Gosto de velocidade, de bebida e de... Qual era a outra coisa?  perguntou, testando-a. Porm 
Jenny ainda no tinha terminado.
       Eu acho que seus pais tambm gostam de voc.
      Seu estado de esprito flutuava. Com olhos tristes, ele olhou por cima da cabea de Jenny, para a paisagem rida.
       Ser que mame no percebe que eu queria ficar com ela, ficar com os dois? Desde que chegou a notcia da morte de Hal, tenho vontade de abra-los.  Sua 
voz desceu um decibel.  De que eles me abracem.
       Cage.  Jenny estendeu o brao para toc-lo. Ele lhe empurrou a mo. No queria a compaixo de ningum.
       Eu no me aproximei porque sabia que eles no me queriam, mas tentei mostrar o meu amor e a minha solidariedade de outro modo.  Exalou um longo suspiro. 
 Mas eles nem notaram.
       Eu notei. E fiquei agradecida.
       Mas voc tambm no deixa que eu me aproxime Jenny  disse Cage abruptamente, fitando-a nos olhos.
      Ela desviou o olhar rapidamente.
       No sei o que est querendo dizer.
       Sabe, sim! Quando estvamos em Monterico, voc se apoiou em mim, apoiou-se em mim emocional e fisicamente. Desde que voltamos voc me evita. "Tire as mos." 
"No me toque." "No fale comigo." Droga, voc nem sequer olhou para mim.
      Ele tinha razo, mas ela no podia admitir.
       Por acaso est me evitando por causa da noite que passamos juntos em Monterico?
      Ela ergueu a cabea e umedeceu os lbios, embora sua lngua tivesse ficado subitamente seca.
       Claro que no.
       Tem certeza?
       Tenho. Que diferena isso poderia fazer?
       Ns dormimos juntos.
       No nesse sentido!  exclamou Jenny defensiva.
       Exatamente  disse Cage, aproximando-se at ficar bem perto dela.  Mas, a julgar pelo seu comportamento  como se tivesse sido "nesse sentido". Por que 
se sente to culpada?
       Eu no me sinto culpada.
       No? No anda pensando que no tinha nada de dormir nos meus braos, estando quase sem roupa, s com aquela combinao? No sente que, de certo modo, ns 
fomos desleais com Hal: afinal ele ainda estava no caixo, no  mesmo? No  nisso que anda pensando?
      Jenny lhe deu as costas, cruzou os braos sobre o estmago, como se estivesse doendo, e apertou muito as mos nos cotovelos opostos.
       Eu no devia ter ficado daquele jeito com voc.
       Por qu?
       Voc sabe muito bem.
       Porque voc sabe o que todo mundo pensa "e uma mulher que passa a noite na cama comigo.
      Ela no disse nada.
       Do que tem medo, Jenny?
       De nada.
       Tem medo que algum descubra sobre essa noite?
       No.
       Medo que seu nome passe a figurar na lista de conquistas de Cage Hendren?
       No.
       Tem medo de mim?
      Nem mesmo o vento implacvel foi capaz de dissimular a hesitao e o tremor em sua voz. Jenny deu meia-volta e viu a tristeza estampada no rosto dele.
       No, Cage, no.
      Para prov-lo, avanou um passo, enlaou-lhe a cintura e pousou a cabea em seu peito. No mesmo instante, ele a tomou nos braos.
       Eu no a culparia se tivesse principalmente depois do que aconteceu hoje. Mas eu no aguentaria isso. Seria a pior coisa do mundo. No aguentaria saber que 
voc teme que eu lhe faa algum mal.
      Jenny podia ter dito que tinha menos medo dele que de suas prprias reaes. Quando Cage estava por perto, ela saa da concha em que vivia na casa paroquial 
e se transformava em outra mulher.
      Ele fazia o seu corao bater mais depressa, sua respirao acelerar-se, suas mos ficarem midas. Jenny se transformava quando estava com Cage. Em sua companhia, 
ela esquecia quem era e de onde vinha, vivia s o momento.
      Era quase como se tivesse passado todos aqueles anos apaixonada por Cage, no por seu irmo. Ela fizera amor com Hal, mas a noite em que tinha dormido nos 
braos de Cage tambm fora maravilhosa. Mas que difcil admitir isso! Aceitar isso! Como era possvel que, apenas uma semana depois da morte de Hal, estivesse se 
perguntando como seria fazer amor com Cage? Assustada com a idia, ela recuou.
       E melhor voltarmos para casa. J devem estar preocupados.
      Ele se mostrou desapontado, mas acompanhou-a at o carro sem discutir. Jogou o mao de cigarros pela janela.
       Isso  lugar de jogar lixo?
       Mulheres  resmungou Cage, engatando a primeira marcha.  Nunca esto contentes.
      Sorriram. Tudo estava em ordem.
      Quando chegaram  casa paroquial, aps uma viagem prudente at a cidade, ele desceu primeiro e foi abrir a porta para ela. Ps a mo em sua cintura enquanto 
a acompanhava at a porta. Ela fez o mesmo.
       Obrigado, Jenny.
       Por qu?
       Por ser minha amiga.
       Voc tambm tem sido meu amigo.
       Mesmo assim, obrigado.  A porta, eles ficaram face a face. Cage parecia no querer ir embora.  Bom, boa noite.
       Boa noite.
       Acho que vai demorar para que eu volte aqui.
       Eu entendo.
       Mas telefonarei para voc.
       E pena que isso tenha acontecido entre voc e seus pais no momento em que mais precisam um do outro.
      Ele suspirou com amargura.
       , mas  assim. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, avise-me.
       Aviso.
       Promete?
       Prometo.
      Cage lhe apertou a mo, inclinou-se e a beijou de leve no rosto. Demorou um pouco para afastar os lbios. Ou talvez tivesse sido s a imaginao de Jenny. 
Ela ainda no tinha chegado a nenhuma concluso quando entrou e subiu ao primeiro andar. A casa estava s escuras. Os Hendren j tinham ido para a cama.
      Ela abriu a porta e entrou. Olhou para o quarto com decorao infantil. E agora? perguntou-se.
      O que Jenny Fletcher faria com o resto de sua vida?
      Ponderou a questo enquanto se despia e, j na cama, passou longas horas s voltas com o mesmo problema, sem conseguir dormir.
      Ao amanhecer encontrou a resposta. Mas como poderia contar aos Hendren?
      
      
      
      
   CAPTULO VI
      
      
      
      Bob estava preparando torradas quando Jenny entrou na cozinha na manh seguinte. Ela sorriu ao v-lo de avental e lhe beijou o rosto. Tendo se servido de caf, 
sentou-se  mesa com Sarah, que, distrada, empurrava os ovos mexidos de um lado para outro do prato.
       Aonde voc foi ontem?
      Nenhum "Bom dia", nenhum "Dormiu bem?" Nada. S a pergunta direta. E Sarah a fez com os lbios apertados, seu rosto estava tenso.
       Ns  Jenny fez questo de sublinhar a palavra  fomos dar uma volta de carro.
       Voc chegou muito tarde.  Bob tentou fazer o comentrio parecer casual, porm Jenny sabia que aquela conversa nada tinha de casual ou espontnea. A atmosfera 
entre eles era de suspeita e hostilidade, como se fossem inimigos patrulhando o campo de batalha.
       Como vocs sabem a que horas eu cheguei? J estavam dormindo.
       A Sra. Hicks passou por aqui hoje. Ela viu... ela disse que viu voc e Cage juntos ontem.
      Jenny olhou de um para o outro. Estava ao mesmo tempo surpresa e zangada. A Sra. Hicks era a grande fofoqueira do bairro. Adorava espalhar boatos, principalmente 
os ruins.
       Que mais ela disse?
       Nada  respondeu Bob com desconforto.
       No, eu quero saber! Que mais ela disse? Seja o que for,  bvio que os deixou contrariados.
       Ns no estamos contrariados, Jenny  disse Bob diplomaticamente.   que no queremos que as pessoas comecem a ligar o seu nome ao de Cage.
       O meu nome j est ligado ao de Cage. Ele  um Hendren, filho de vocs  ela lembrou irritada.  Eu passei os ltimos doze anos de minha vida na casa da 
famlia Hendren. Como o meu nome poderia no estar ligado ao dele?
       Voc sabe o que estamos querendo dizer, meu bem  interferiu Sarah. As lgrimas j brilhavam em seus olhos.  Ns s temos voc agora. E no...
       No  verdade!  gritou Jenny com raiva, levantando-se.  Vocs tm Cage. Nunca imaginei que um dia eu chegaria a dizer uma coisa destas, mas estou com vergonha 
de vocs. Sarah, voc tem ideia do quanto magoou Cage ontem? No precisa aprovar tudo que ele faz na vida, mas ele continua sendo seu filho. Voc disse que preferia 
v-lo morto!
      Sarah baixou a cabea e comeou a chorar. Arrependida de sua exploso, Jenny voltou a sentar-se. Bob deu um tapinha no ombro da esposa numa dbil tentativa 
de consol-la.
       Ela estava transtornada ontem quando vocs saram daqui  explicou.  J compreendeu que no devia ter dito aquilo e lamenta muito.
      Jenny ficou calada, tomando seu caf, at que Sarah parasse de chorar. Por fim, ps a xcara no pires.
       Eu resolvi ir embora.
      Como ela previa, os dois ficaram atnitos. Passaram longos momentos imveis, incrdulos, olhando-a com os olhos parados.
       Embora?  Sarah enfim perguntou.
       Vou sair da casa paroquial e comear a minha prpria vida. H anos que moro aqui, esperando o dia em que ia me casar com Hal. Talvez se houvssemos nos casado, 
se tivssemos filhos...  Tratou de apartar o pensamento.  Mas, como no aconteceu e no pode mais acontecer, eu j no tenho motivo para ficar. Preciso construir 
o meu futuro.
       Mas o seu futuro  aqui conosco  contraps Bob.
       Eu sou uma mulher feita. Preciso...
       Ns precisamos de voc, Jenny  gritou Sarah, pousando  mo fria e mida em seu brao.  Voc nos lembra Hal. E como se fosse nossa filha. No pode fazer 
isso conosco. Por favor, no v embora. Nos d um pouco de tempo para nos adaptarmos  perda de Hal. No pode ir embora assim. No pode.  E se ps a soluar novamente, 
o leno amarrotado e mido no rosto.
      Jenny sentiu uma pontada de culpa. Era responsvel pelos dois, no era? Eles a haviam acolhido e lhe deram um lar quando ela no tinha mais nada na vida. Acaso 
no lhes devia isso?
      Pelo menos algum tempo. Algumas semanas? Alguns meses?
      A ideia a deprimia, mas o dever sempre unia as pessoas.
       Est bem  concordou com desnimo.  Mas saibam que no vou viver sob a censura da Sra. Hicks nem de ningum. Eu era noiva de Hal e o amava, mas ele morreu. 
Preciso seguir minha vida.
       Voc tem a liberdade de ir aonde quiser. Sempre teve  disse Bob, aliviado porque tinha terminado a conversa sobre sua partida.  Foi por isso que lhe compramos 
o carro.
      Para Jenny no se tratava desse tipo de liberdade, mas era intil tentar explicar-lhes. Eles no entenderiam.
       Minha outra condio  que peam desculpas a Cage pelo que disseram ontem.
      Os velhos fizeram meno de protestar, mas Jenny os encarou com firmeza. Os dois baixaram a vista.
       Est bem, minha filha  cedeu Bob por fim.  Ns vamos fazer isso. Por voc.
       No. Por mim no.  por vocs e por ele.  Levantou-se e foi para a porta.  Acho que Cage vai perdo-los porque ele os ama. S espero que Deus tambm lhes 
perdoe.
      Os carrinhos de supermercado se chocaram, Jenny estremeceu com o impacto. Uma caixa de sabo em p tombou. As latas de conserva rolaram ruidosamente. Um rolo 
de papel de cozinha caiu na bandeja de ovos.
       Ol.
       Seu bruto. Voc fez isso de propsito.
      O sorriso dele era sereno, sem sombra de arrependimento.
       E um bom truque para ficar conhecendo uma bela mulher. Dar uma trombada em seu carrinho de compras. Ela pode ficar confusa, zangar-se at, mas j est  
merc da gente. Geralmente tento bloquear as rodas do carrinho.  Olhou para baixo e enrugou a testa.  Voc foi muito rpida para mim.
       Voc no tem conscincia, Cage Hendren.
       Nem um pingo.
       E que acontece depois?  perguntou Jenny.  Estou fascinada.
       Voc diz, depois...
       Depois que bateu no carrinho de sua vtima e bloqueou as rodas, ela fica confusa etc. Que voc faz ento?
       Proponho que v para a cama comigo. 
      Jenny recebeu a resposta como uma leve bofetada.
       Oh!  Afastou o carrinho do dele, que estava vazio, e seguiu pelo corredor de rao para ces. Como os Hendren no tinham ces, a ateno que ela dava s 
mercadorias era simplesmente absurda.
       Bom, voc disse que estava fascinada  defendeu-se Cage, colocando-se ao seu lado.
       E estou, quer dizer, estava, mas imaginei que fosse um pouco mais sutil ao seduzir uma mulher.
       Por qu?
       Por qu?  Ela girou sobre os calcanhares para encar-lo, abandonando momentaneamente a busca nas prateleiras.  Voc est dizendo que  simples assim? Num 
estalar dos dedos?  E estalou os dela.
      Cage franziu a testa, fingindo concentrao.
       Nem sempre. s vezes exige mais tempo e esforo.  Seus olhos castanho-claros, de reflexos dourados, a percorreram dos ps  cabea, despindo-lhe a cala, 
o pulver de l, as peas ntimas, tudo.  Veja voc por exemplo. Aposto que seria um caso difcil.
       Por qu?
       Quer ir para a cama comigo?
       No!
       Est vendo? Eu sempre tenho razo.  Bateu a ponta do indicador na testa.  Quando tiver tanta experincia quanto eu, voc tambm vai acabar aprendendo. 
A gente desenvolve uma espcie de sexto sentido, sabe? Com voc, por exemplo, eu poderia dizer imediatamente que tenho de usar uma abordagem lenta, cuidadosa, demorada. 
Foi a leve careta que fez no momento em que a caixa de sabo amassou a embalagem do marshmallow que me fez chegar a essa concluso. Uma dica de que no ia ser fcil.
      Ela o fitou em muda admirao; no fim de vrios segundos, soltou uma gargalhada.
       Cage, voc  amoral, juro.
       Talvez um pouco sem-vergonha.  Ele piscou  Mas ningum pode dizer que no sou sincero.
      Jenny saiu da seo de rao para animais e entrou em outra. Ele se colocou a sua frente, bloqueando-lhe a passagem.
       Voc no est com boa aparncia.
        essa a sua abordagem lenta, demorada e cuidadosa?  perguntou Jenny com frieza.  Se for, acho que no vai funcionar.
      Quando ela tentou avanar, Cage atravessou o carrinho no corredor, obstruindo o caminho inteiramente.
       Voc sabe o que estou querendo dizer. Parece cansada. Emagreceu. Que andam fazendo com voc naquela casa?
       Nada  respondeu ela, desviando o olhar.
      Mas sabia que no o enganaria: tampouco conseguia enganar-se a si mesma. Os Hendren no deviam ter ouvido bem a sua declarao de independncia. Ou a ouviram, 
mas no fizeram caso do que ela tinha dito. Suas atividades dirias j estavam todas programadas antes mesmo que ela descesse para o caf da manh.
      Primeiro fora preciso escrever cartes de agradecimento a todos os que compareceram no enterro de Hal. Ela recebeu a tarefa quase com gratido, pois tivera 
um pretexto para telefonar para Cage e pedir-lhe que os viesse buscar e os colocasse no correio. O que criou uma oportunidade para que seus pais pedissem desculpas.
      Foi uma reunio constrangedora. Cage ficou postado  porta da rua como que a temer que o convidassem a entrar. Jenny conteve a respirao, mal compreendendo 
as palavras que trocou com Bob no hall. Depois, ele ficou de p na sala de estar, olhando para Sarah, que estava encolhida no sof. Por fim ergueu a cabea.
       Ol, Cage. Obrigada por ter vindo.
       Ol, mame. Como est passando?
       Bem, bem  disse ela vagamente. Olhou interrogativamente para Jenny, que lhe fez um leve sinal afirmativo. Sarah umedeceu os lbios.  Quanto quela noite, 
no dia do enterro... de Hal... O que eu disse...
       No tem importncia, mame  Cage se apressou a dizer. Atravessou a sala e, ajoelhando-se diante dela, tomou-lhe os dedos plidos e frios nas mos.  Eu 
sei como estava se sentindo.
      O corao de Jenny palpitou por Cage. Ele queria tanto acreditar naquilo. Em todo caso, fosse sincero ou no o pedido de desculpas de Sarah, ele acreditasse 
ou no em suas palavras, pelo menos estavam manifestando em voz alta os sentimentos que deviam ter.
      As tarefas de Jenny na casa paroquial eram interminveis. Os Hendren chegaram at a discutir a possibilidade de ela continuar a cruzada de Hal em favor dos 
refugiados polticos da Amrica Central. A mera ideia de controlar tal campanha a deixava exausta, e ela se recusou a tomar a palavra nas reunies, mas assumiu a 
tarefa de enviar circulares detalhando os problemas que testemunhara pessoalmente e pedindo doaes para a causa.
      Sabia que a fadiga estava estampada em seus olhos, sabia que tinha emagrecido devido a uma notvel falta de apetite, sabia que estava branca e plida por no 
passar muito tempo ao ar livre.
       Estou preocupado com voc  disse Cage com delicadeza.
       Eu ando cansada. Todo mundo anda. A morte de Hal, o enterro, tudo isso nos desgastou.
       J faz mais de quinze dias. Voc tem passado mais tempo do que nunca na casa paroquial. No faz bem para sua sade.
       Mas  necessrio.
       A igreja  a vocao deles, no a sua. Eles vo transform-la numa velha se voc deixar, Jenny.
       Eu sei  concordou ela com desnimo, esfregando a testa.  Por favor, no me atormente com isso, Cage. Eu lhes disse que queria me mudar, morar sozinha, 
mas...
       Quando?
       No dia do enterro.
       Por que no se mudou?
       Eles ficaram chateados, no tive coragem. Teria sido cruel ir embora logo depois da morte de Hal.
       E agora?
      Ela sorriu e sacudiu a cabea.
       Eu no tenho emprego. Como vou ganhar a vida? Sei que preciso construir a minha prpria existncia, mas deixei-os cuidar de tudo durante tanto tempo, que 
no sei nem como comear agora.
       Eu tenho uma ideia  disse Cage de sbito, segurando-lhe o brao.  Vamos.
       No posso largar as compras aqui.
       Desta vez voc no tem a desculpa do sorvete. Eu a peguei antes que tivesse tempo de ir  geladeira.
      Ela teimou:
       No posso largar um carrinho cheio de mercadorias no meio do corredor.
       Ora, pelo amor de Deus!  exclamou Cage irritado. Pegou o carrinho e, com passos largos, empurrou-o at a frente do supermercado.
       Ei, Zack!
      O gerente olhou por cima da parede baixa de seu escritrio. Estava contando dinheiro.
       Ol, Cage.
       A Srta. Fletcher vai deixar as compras aqui  disse ele, colocando o carrinho perto de uma pilha de panelas e frigideiras que podiam ser trocadas por cupons. 
 Ela vir busc-las mais tarde.
       Claro Cage. At depois.
      Cage pegou uma barra de chocolate ao passar pela gndola dos doces e acenou com ela para o gerente antes de pr o brao nos ombros de Jenny e sair.
       Voc roubou isso?
       Claro  sorriu ele, abrindo a embalagem e mordendo um bom pedao do chocolate.  A metade  sua.
       Mas...
      Cage lhe interrompeu o protesto enfiando o doce em sua boca.
       Voc nunca roubou nada no supermercado? 
      Jenny sacudiu a cabea ao mesmo tempo em que passava o enorme pedao de chocolate de um lado para outro da boca, num esforo para mastigar antes que ele a 
asfixiasse.
       Bom, j estava na hora de comear. Agora  minha cmplice no crime.
      Abriu a porta da Corvette e, gentil, mas inexoravelmente, obrigou-a a embarcar. Dirigiu no trfego intenso do centro da cidade apenas com um pouco mais de 
disciplina que na estrada. Estacionou numa vaga em frente a um conjunto de escritrios. Ao descer, pegou um saco de pano debaixo do banco. Era do tipo que a prefeitura 
usava para cobrir os parqumetros nos feriados. Tapou com ele o parqumetro em frente  Corvette e piscou para Jenny. Tomando-a pelo brao, levou-a para a porta.
       A gente pode fazer isso?  ela perguntou, olhando preocupada para o parqumetro.
       Eu fiz.
      Abriu a porta do escritrio e entrou depois dela.
      Porm, ao passar pela soleira, Jenny parou de sbito e olhou a sua volta com desnimo. A luz estava apagada, mas tudo piorou quando Cage se aproximou da janela 
e entreabriu a persiana empoeirada para deixar entrar o sol.
      Ela nunca tinha visto uma sala to desordenada. Havia um sof, provavelmente tirado de uma comdia de televiso dos anos cinquenta, encostado na parede. O 
estofamento outrora rosado, alis, muito feio, ganhara uma colorao cinzenta com as incontveis camadas de poeira. As almofadas tinham fundas depresses no centro. 
Frias estantes de metal ocupavam outra parede. Estavam atulhadas de papis e mapas de cantos recurvos e amarelados. Todos os cinzeiros transbordavam com pontas de 
cigarro. A escrivaninha, no centro da parede oposta, devia ter sido jogada fora anos antes. Um baralho inteiro servia de calo para um dos ps, que ficara mais curto 
que os outros, pois perdera a roda. Estava coberta de revistas velhas e copos descartveis usados, sem falar nos arranhes e cicatrizes. Um vndalo tivera a audcia 
de gravar suas iniciais a canivete num dos cantos.
      Jenny se voltou lentamente para ele.
       Que  isso?
       Meu escritrio  disse ele sem jeito. Ela ficou boquiaberta.
       Voc trabalha nesta lata de lixo?
       No exagere.
       Cage, se Dante ainda estivesse vivo, no descreveria o Inferno de outro modo!
       Voc acha?
       Acho.  Jenny se acercou da escrivaninha e, passando o dedo no tampo, colheu um centmetro de p.  Nunca lhe ocorreu mandar limpar este lugar?
       J. Uma vez eu contratei um servio de limpeza. O funcionrio que mandaram para c era muito engraado. Ns amos beber e...
       Pode deixar, eu j imagino.  Ela contornou um transbordante cesto de lixo e se aproximou de uma porta que devia ser a do banheiro.
       Jenny...  Cage ergueu a mo, tentando impedi-la, mas era tarde.
      Ao abrir a porta, ela esbarrou o ombro numa gigantesca folhinha de parede. Recuou assustada. E mais assustada ficou ao examinar a fotografia ali estampada. 
A voluptuosa ruiva tinha uma estrela azul e fulgurante colocada num lugar estratgico, onde se lia "Nas Profundezas do Texas". Os seios enormes, com mamilos que 
mais pareciam dois morangos, ocupavam boa parte da foto. Cage pigarreou desconcertado.
       Ganhei de alguns amigos no Natal passado. 
      Jenny fechou a porta e o encarou.
       Por que me trouxe aqui?
      Ele ps as mos nos bolsos de trs do jeans, tirou-as, depois bateu na prpria coxa com nervosismo.
       Venha, Jenny, sente-se  disse, de repente, apressando-se a limpar um lugar para ela no sof.
       Eu no quero sentar. Quero sair daqui e respirar um pouco de ar fresco. Diga por que me trouxe aqui.
       Bom, voc disse que estava sem trabalho e eu pensei...
       Voc s pode estar brincando  atalhou ela antes que terminasse.
       Escute, Jenny. Deixe-me acabar de falar. Eu estou precisando de uma pessoa que...
       Voc est precisando  de uma demolidora, de um trator. Quando eles terminarem, sugiro que comece da planta.  Ela fez meno de caminhar para a porta.
      Cage lhe obstruiu a passagem e lhe segurou os ombros.
       No estou falando na limpeza. Isso eu providencio. Pode deixar por minha conta. Achei que voc podia atender o telefone, fazer o servio geral, sabe?
       Voc sobreviveu sem mim todos esses anos. Quem atende o telefone aqui?
       Uma empresa recebe os telefonemas.
       Por que quer mudar agora?
       E muito incmodo ter de verificar as mensagens de hora em hora.
       Use um pager.
       J tentei.
       E?
       Eu o pendurava no cinto, mas acabei perdendo-o. 
      Jenny o fitou nos olhos. Ele parecia culpado.
       Hum, posso imaginar como devia ser inconveniente para voc andar com isso preso no cinto.
      Tentou avanar, Cage a deteve.
       Jenny, escute, por favor. Voc est procurando emprego. Eu estou oferecendo.
       Qualquer chimpanz pode ser amestrado para ficar atendendo o telefone. Alm disso, voc j tem quem faa o servio.
       Mas como eu posso saber se eles recebem todos os telefonemas? Alm disso, h outras coisas que fazer.
       Por exemplo?
       A correspondncia. E muita coisa, voc no imagina.
       Quem cuida disso agora? Voc?
       No, uma amiga.
      Ela o encarou mais uma vez, ele suspirou exasperado.
       E essa sua amiga tem uns oitenta e sete anos,  mope e usa uma mquina de escrever pr-histrica.  Jenny olhou a sua volta.  Nem mquina de escrever voc 
tem.
       Eu compro. Do tipo que voc quiser.
      A ideia de ser mais produtiva a animava, era um desafio, mas ela sabia que no podia aceitar a oferta. Derrotada, deu de ombros e sacudiu a cabea.
       No posso Cage.
       Por que no?
       Seus pais precisam demais de mim.
       Acertou na mosca. Precisam demais de voc. Acha que est fazendo um grande favor para eles dando-lhes comida na boca? Eles j no so moos, mas se no tiverem 
um objetivo na vida, vo envelhecer depressa. Precisam levar sua prpria vida novamente, mas no conseguiro se tornarem-se dependentes de voc. Eu nunca fui pai, 
portanto no sei o que  perder um filho. Mas posso imaginar que a tentao seja de encolher-se num canto e definhar at morrer tambm. Se voc continuar paparicando 
mame e papai, o mais provvel  que acabem fazendo exatamente isso.
      Cage tinha razo, naturalmente. Os Hendren pareciam encolher-se mais a cada dia. E enquanto Jenny estivesse a sua disposio, eles a usariam at que a vida 
dos trs tivesse passado.
       Quanto voc me pagaria?
      O rosto dele se iluminou com um sorriso.
       Que grande mercenria voc !
       Quanto?  insistiu ela sem se importar com o epteto.
       Vamos ver  disse ele, esfregando o queixo.  Duzentos e cinquenta por semana?
      Jenny no sabia se o salrio era justo ou no, e quis aceitar de pronto. Mesmo assim, fingiu hesitar.
       Com dcimo - terceiro e todos os benefcios?
        pegar ou largar, Srta. Fletcher  disse ele com ar srio.
       Eu aceito. Das nove as cinco com uma hora e meia para o almoo.  Isso lhe daria tempo de voltar  casa paroquial e almoar com os Hendren, se bem que a 
ideia de comer fora todo dia lhe parecesse bem mais interessante.  Um ms de frias pagas e todos os feriados. E, s sextas-feiras, trabalho s at a hora do almoo.
       Voc est me explorando  disse Cage, franzindo a testa. Na verdade estava excitadssimo. Se tivesse de dobrar o salrio e aceitar outras exigncias, no 
vacilaria. O que importava era tir-la da casa paroquial e livr-la do controle de seus pais.
       Eu no porei os ps aqui enquanto isto no estiver limpo. Estou dizendo bem limpo.
       Sim, senhora!  Ele bateu continncia.
       A folhinha tem de desaparecer.
      Cage olhou para a porta do banheiro e fez uma expresso desolada.
       Ah, que pena! Eu estava comeando a gostar dela.  Deu de ombros.  Mais alguma coisa?
      Jenny estava pensando em como aquele homem era adorvel, mas voltou a se concentrar em seus problemas.
       Sim. Como vou contar aos seus pais?
       No lhes d nenhuma escolha.  Ele estendeu a mo.  Est bem? Combinado?
       Combinado.  Ela lhe deu a mo, porm, em vez de apert-la, ele a puxou e a encostou no peito.
       No  com um aperto de mo que se fecha negcio com uma mulher fantstica.
      E, antes que Jenny pudesse reagir, baixou a cabea e beijou-a. Enlaou-lhe delicadamente a cintura e, com o polegar, acariciou-lhe as costas.
      O beijo foi prolongado. Cage ficou com os lbios entreabertos nos dela, mas no usou a lngua. Apenas a manteve na expectativa, provocando-a com a possibilidade 
de mergulh-la a qualquer momento em sua boca. Mas no o fez. E, ao erguer a cabea novamente, limitou-se a sorrir.
      Mais tarde, j de volta ao supermercado, tendo terminado de fazer as compras, Jenny se perguntou por que no tinha feito nada para impedir aquele beijo. Podia 
ter lhe dado uma bofetada, pisado no seu p ou mesmo rido dele. Por que, quando Cage finalmente se afastou dela, ficou simplesmente olhando para ele com os olhos 
lmpidos, o corao batendo forte e as pernas trmulas?
      A nica resposta que encontrou era que seus membros tinham ficado entorpecidos, deliciosamente entorpecidos. E fracos de prazer. No teria podido erguer um 
s dedo para se esquivar do beijo de Cage mesmo que quisesse. Mas ela no quis.
      Os Hendren no receberam bem a notcia de seu novo emprego. Sarah deixou o garfo cair no prato quando ela anunciou:
       Comeo segunda-feira.
       Voc vai trabalhar...
       Para Cage?  Bob concluiu a pergunta da esposa.
       Vou. Se quiserem que eu faa alguma coisa at l, avisem.
      Saiu da cozinha antes que eles se refizessem do assombro. Seguindo o conselho de Cage, no lhes deixou nenhuma escolha.
      Um minuto antes das nove horas da manh da segunda-feira seguinte, Jenny entrou no escritrio. A porta estava destrancada. No primeiro momento, chegou a pensar 
que tinha errado de endereo. O lugar no estava simplesmente limpo, estava transformado.
      As paredes cinzentas tinham sido pintadas de cor creme. O horroroso sof fora substitudo por duas belas poltronas de couro marrons escuras. Entre elas, havia 
uma mesa de nogueira. O piso de linleo tinha sido coberto com tbua corrida. Um tapete com motivos tnicos ocupava o centro da sala. No lugar das estantes metlicas, 
havia um conjunto de prateleiras e armrios de madeira. Todas as peas estavam dispostas com bom gosto, de modo a maximizar o espao para que tudo ficasse bem guardado.
      A superfcie da escrivaninha, que agora dominava a sala, era uma lustrosa pista de gelo. Atrs dela, achava-se uma cadeira de couro que mais parecia um trono. 
Na escrivaninha havia um buqu de flores ainda orvalhadas pela umidade do refrigerador da floricultura.
       So para voc.
      Jenny se virou e deu com Cage no banheiro. A porta estava aberta.
       Como voc fez isso?  perguntou ela atnita.
       Com o talo de cheques. Funciona melhor que uma vara de condo hoje em dia. Gostou?
       Sim, mas...  Jenny ficou subitamente constrangida.  Eu no devia ter criticado. Voc gastou uma fortuna.
       Ora, ora, no precisa ficar assim. Voc s me estimulou a fazer uma coisa que devia ter sido feita h anos. Eu andava recebendo os clientes no bar porque 
tinha vergonha desta "lata de lixo", como disse uma pessoa que ns todos conhecemos e amamos.  Sorriu ao v-la corar.  A propsito, tenho uma coleo de folhinhas 
para voc escolher.
      Entregou-lhe a primeira, e ela no reprimiu um suspiro.
       "O Gostoso do Ms"  anunciou Cage solenemente, esforando-se para no rir. O musculoso modelo estava com uma sunga minscula, um capacete de futebol americano 
e sorria com malcia.  Este  o Mister Outubro. Temporada de futebol compreende? Quer dar uma olhada nos outros meses?  perguntou com aparente inocncia, folheando 
o calendrio.
       No, no precisa. Que mais voc tem a? 
      Ele ps a folhinha de lado e pegou outra.
       "Um Gato por Dia", no aparece  cabea, s o corpo.
      Um peito untado de leo, um par de dilatados bceps e uma barriga musculosa ocupavam o espao da fotografia.
      Jenny fez uma careta e sacudiu a cabea.
       Ou ento...  Cage abriu na mesa a terceira opo  Ansel Adams.
       Pendure o Ansel Adams.
      Ele ficou contente e se voltou para fazer a vontade dela.
       Mas guarde as outras no armrio  disse Jenny com malcia.
      Cage a encarou com os olhos mais arregalados do mundo; e os dois riram uma boa gargalhada.
       Cage, o escritrio ficou lindo. Eu adorei.
       Que bom. Quero que se sinta bem aqui.
       Obrigada pelas flores.
       E uma ocasio especial.
      Jenny se colocou timidamente atrs da escrivaninha e experimentou a cadeira de couro.
      Seus olhares se encontraram e ficaram algum tempo presos um ao outro; ento ele lhe mostrou onde ficava guardado o material de escritrio e como funcionava 
a mquina de escrever.
       Pode comear com estas cartas.  Entregou-lhe uma pasta.  Eu as escrevi  mo, espero que consiga entender a letra. Gertie conseguia.
       A sua amiga de oitenta e sete anos? 
      Ele ajeitou uma mecha de cabelo de Jenny.
       Isso mesmo.
      Saiu pouco depois, dizendo que ia para as terras dos Parson.
       Como esto indo as perfuraes?
       As possibilidades so timas. Se no acharmos petrleo, eu sou um arcanjo.  Ps os culos escuros e girou a maaneta.  Tchau.
       Tchau.
      Deteve-se e ficou um momento olhando para ela.
       Santo Deus, como voc fica bonita sentada a.
      Cage retornou pouco depois de meio-dia, trazendo um saco enorme.
       Hora do almoo!  gritou ao entrar. Jenny lhe fez um sinal nervoso para que ficasse quieto. Estava ao telefone, anotando o que lhe diziam.
       Sim, eu tomei nota e informarei o Sr. Hendren quando ele voltar. Obrigada.
      Desligou e, orgulhosa, entregou-lhe a mensagem. Cage a leu e bateu no papel.
       Fantstico! Fazia tempo que eu estava esperando autorizao para ver essa propriedade. Voc est me dando sorte.  Sorriu e colocou o embrulho na mesa.  
O seu almoo.
       Posso contar com esse tratamento todo dia?  Ela se levantou para espiar o que era.
       De jeito nenhum, mas, como eu disse, esta  uma ocasio especial.
       Na verdade preciso ir para casa ver como esto Bob e Sarah.
       Eles esto bem. Telefone mais tarde se quiser. 
      O bom humor de Cage era contagioso, e Jenny o contraiu quando estavam desembrulhando o almoo que ele comprara na nica delicatessen da cidade.
       E para coroar tudo...  Desapareceu no banheiro e voltou com uma garrafa de champanhe. 
       Tintim!
       De onde tirou isso?
       Da geladeira?
       H uma geladeira no banheiro?
       Uma pequena. Voc no viu?
       No. Estava ocupada.  Jenny apontou para a pilha de cartas que aguardavam a assinatura dele.
       Ento voc merece uma taa de champanhe  disse Cage, abrindo a garrafa. A rolha saltou com um estouro, mas o vinho espumante no caiu. Ele encheu um copo 
descartvel at a boca.
      Jenny aceitou, no tinha como recusar.
       Palavra que eu no devia Cage.
       Como no?
       Pode ser difcil de acreditar, mas no  sempre que servirmos champanhe no almoo na casa paroquial  disse ela com sarcasmo.  No estou acostumada.
       timo. Talvez voc fique bbada, tire toda a roupa e se ponha a danar nua em cima da mesa.
      Correu um olhar especulativo pelo corpo dela, tentando imaginar o maravilhoso espetculo. Serviu-se de mais champanhe. Sem jeito, Jenny ficou observando-o.
       Voc faz esse tipo de coisa com freqncia?
       Tomar champanhe ao meio-dia? No.
       Ento como sabe que no  voc que vai ficar bbado, tirar a roupa e danar nu em cima da mesa?
      Ele encostou o copo descartvel no dela e sussurrou:
       Porque, se ns dois ficssemos nus em cima da mesa, querida Jenny, no seria para danar.
      Ela sentiu um frio no estmago. Desviando o olhar daqueles olhos claros que pareciam hipnotiz-la, notou que estava com as mos trmulas.
       Tome um gole  pediu Cage no mesmo tom de voz.
      Ansiosa por fazer alguma coisa, Jenny obedeceu. O champanhe gelado lhe acariciou a lngua.
       Est bom?
      Ela tomou outro gole.
       Est timo.
      Cage aproximou a cabea at quase roar a dela. Parecia encantado.
       E o que voc acha...
       Do qu?
       Da comida.
      Nenhum almoo podia ser mais delicioso. Na verdade, aquela era uma das refeies mais fabulosas que Jenny experimentara na vida. Enquanto comiam, Cage falou 
de seus negcios e ficou satisfeito com as perguntas inteligentes e intuitivas que ela fazia.
      No conseguiu convenc-la a beber mais que meio copo. Quando terminaram, teve o cuidado de pegar as bandejas vazias e coloc-las novamente no saco de papel.
       Eu no me atreveria a sujar o seu escritrio  sorriu.
      Muito tempo depois que Cage tinha ido embora, Jenny continuava imaginando os dois nus em cima da mesa. O que ele tinha querido dizer com "no seria para danar? 
Ora, ela sabia muito bem!
      E tambm no conseguia parar de pensar nisso.
      Pouco a pouco, os dias foram se convertendo em uma espcie de rotina, muito embora a vida com Cage fosse sempre espontnea e sem planejamento. Era como viajar 
rio abaixo numa selva misteriosa. Nunca se sabia que inesperada surpresa surgiria na curva seguinte.
      Ele costumava deixar-lhe pequenos presentes que, embora simples, eram verdadeiros tesouros para ela. Afinal, nunca tinha sido cortejada.
      Um bolo com uma velinha estava a sua espera na manh em que Jenny completou uma semana no escritrio. Em outra ocasio, encontrou uma rosa vermelha ao lado 
da cafeteira eltrica. Certa manh, ao abrir a porta, quase gritou ao ver um gigantesco urso de pelcia sentado em sua cadeira.
      Era evidente que corriam boatos sobre os dois na cidade. Os funcionrios do banco ficaram chocados quando Jenny comeou a administrar a conta de Cage. Agora 
comeavam a acostumar-se com a nova situao, mas era inegvel que ficavam cochichando quando ela ia embora.
      O diretor da agncia do correio, que a conhecia havia anos, continuava simptico e amigvel, porm agora que ela estava cuidando da correspondncia de Cage, 
endereava-lhe olhares maliciosos.
      Cage passou a ir  igreja regularmente, coisa que atiou ainda mais os mexericos.
      Jenny gostava do desafio do novo emprego e j na segunda semana de trabalho tinha pleno domnio das situaes. Era uma profissional.
       Empresas Hendren.
       Jenny querida, pode pr sua roupa de festa  disse Cage, rindo.
      Jenny conseguia ouvir a gritaria no fundo.
       Voc encontraram petrleo?  gritou ela.
       Est jorrando!  ele confirmou com entusiasmo. Os operrios a sua volta j estavam abrindo as garrafas de cerveja gelada.  Querida, vou levar o maior almoo 
para viagem que encontrar na cidade. Estarei a em uma hora.
       Eu preciso fazer um servio externo. Por que no nos encontramos em algum lugar?
       Tudo bem. No Wagon Wheel ao meio-dia e meia? 
      Jenny concordou com o lugar e a hora.
      Mas ao meio-dia e meia, estava andando sem rumo na rua principal, seu crebro no registrava nada. Numa espcie de transe, parou na calada e ficou olhando 
sem ver para a rica variedade de mercadorias na vitrine de uma loja.
      Cage passou de carro, avistou-a, gritou seu nome e buzinou. Jenny no se voltou. No o tinha ouvido.
      Ele fez uma converso proibida, estacionou na nica vaga livre a caminhonete com que viera do local da perfurao e foi ao encontro dela. Estava com as botas 
e a barra da cala sujas de terra e petrleo.
       Jenny  disse quase sem flego , voc est indo na direo errada. O Wagon Wheel fica ali atrs.
      Seu sorriso desapareceu quando ela se virou e fitou nele um olhar vazio. Alarmado, ele lhe segurou o brao e a sacudiu de leve.
       Que aconteceu, Jenny?
       Cage?  Sua voz era um dbil sussurro. Piscando muito, olhou a sua volta como que percebendo pela primeira vez onde se achava.  Oh, Cage...
       Meu Deus, no me assuste!  exclamou ele preocupado, a testa enrugada.  Que aconteceu? Qual  o problema? Voc est doente?
      Jenny sacudiu a cabea e baixou os olhos.
       No, mas no quero almoar. Desculpe. Estou muito contente com o poo de petrleo, mas prefiro no... Desculpe-me...
       Quer parar de se desculpar? O almoo ficar para outro dia. Conte-me o que aconteceu.
      Apoiou-se nele como se fosse cair.
      Cage a abraou resmungando, achando-se inepto e tolo.
      Venha, meu amor. Vamos tomar um refrigerante.
      Caminharam meia quadra at a lanchonete. Na verdade, s Cage caminhou. Apoiada nele, Jane foi quase se arrastando. E praticamente tombou na cadeira de vinil 
quando chegaram.
       Hazel, dois refrigerantes, por favor  pediu ele  garonete atrs do balco.
      No tirava os olhos de Jenny que, entretanto, no olhava para ele. Olhava para as prprias mos presas s dele na mesa de frmica.
      Hazel serviu a bebida gelada.
       Tudo bem, Cage?
       Tudo  murmurou ele vagamente.
      A garonete deu de ombros e voltou lentamente para a caixa registradora. As pessoas andavam dizendo que Cage Hendren tinha mudado muito desde a morte do irmo. 
Comentavam que no largava  jovem Fletcher. Ora, aquilo s mostrava que os boatos tinham um fundo de verdade. Hazel estava acostumada a ouvir as piadas picantes 
de Cage quando ele passava na lanchonete. Hoje, estava to concentrado em Jenny Fletcher que no tirava os olhos dela, no via mais nada a sua volta.
       Jenny, tome o refrigerante. Voc est plida como um lenol. Agora me conte o que aconteceu.
      Ela bebeu. Permaneceu de cabea baixa durante um tempo que, para Cage, pareceu uma eternidade. Ele estava a ponto de perder o controle quando ela finalmente 
o fitou.
      Estava com os olhos cheios de lgrimas.
       Cage  sussurrou com medo, parando para respirar.  Eu estou grvida.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
   CAPTULO VII
      
      
      
      Para Cage, foi como levar um murro no estmago. Seus olhos claros ficaram vidrados. Engolindo em seco, ele permaneceu imvel, olhando fixamente para o rosto 
de Jenny.
       Grvida? 
      Ela fez que sim.
       Estou voltando do consultrio mdico. Vou ter um beb.
      Ele enxugou a palma das mos na cala.
       Voc no sabia?
       No.
       No percebeu?
       Acho que no.
       A menstruao no atrasou? 
      Jenny corou e baixou a cabea.
       Atrasou, mas eu pensei que fosse por causa da morte de Hal e de tudo o que aconteceu depois. Nunca imaginei... Oh, sei l...  disse, apoiando a cabea na 
mo.  O que vou fazer Cage?
      Ora, deveria ir ao cartrio imediatamente e casar-se com ele. S isso. Iam ter um filho! Caramba! Um filho!
      A alegria tomou conta do corpo de Cage. Ele tinha vontade de se levantar e pular de felicidade, de sair  rua, parar o trfego e contar a todo mundo que ia 
ser pai.
      Porm viu a postura desanimada de Jenny, ouviu o seu pranto e compreendeu que no podia deixar transparecer o que de fato estava sentindo. Ela pensava que 
o filho era de Hal. Cage no podia lhe contar a verdade, pois ela passaria a desprez-lo justamente quando estava comeando a confiar nele.
      Seria esse o castigo de todos os pecados que cometera na vida? Ele sempre tomava precaues para no gerar um filho indesejvel. E fazia questo de que as 
mulheres com quem dormia soubessem dessas precaues para que, depois, no viessem responsabiliz-lo de algum incidente que no ocorrera com ele.
      Mas agora que queria proclamar a sua paternidade, no podia. No podia ter o privilgio de assumir o filho que tinha gerado com a mulher que amava e sempre 
amara.
      Que castigo!
      Conte a ela, conte tudo agora mesmo, sussurrou-lhe uma voz interior.
      Ele queria tom-la nos braos e dizer-lhe que no tinha motivo para chorar. Queria proclamar que a amava e ao seu filho, e prometer que enquanto vivesse cuidaria 
dos dois. Era isso o que ele queria fazer.
      Mas no podia. Descobrir que estava grvida j tinha sido devastador demais para Jenny. Cage no podia aumentar seu sofrimento contando-lhe que o pai da criana 
no era quem ela pensava.
      Por ora, devia contentar-se com o papel de amigo.
       No adianta chorar, Jenny.  Entregou-lhe um leno. Ela enxugou os olhos e olhou preocupada a sua volta. Estavam sozinhos na lanchonete. Hazel, concentrada 
numa revista sobre artistas de cinema, esquecera-os.
       Todos vo dizer que eu no presto. E Hal...  Ela inclinou a cabea imaginando o que as pessoas iam pensar do jovem pastor agora.
       Ningum vai pensar que Jenny Fletcher no presta.  Cage torceu o canudinho do refrigerante, sentindo-se culpado por manipul-la.  Eu no sabia que voc 
e Hal tinham esse tipo de relaes.
       Ns no tnhamos.  Jenny falou to baixo que Cage precisou se inclinar para ouvi-la.  S ficamos juntos na vspera da viagem.  Ergueu a cabea e o viu 
estudando-a detidamente. Tanta ateno tornou ainda mais constrangedor o tema que estavam discutindo. Quando comeou a falar novamente, a voz lhe falhou.  Lembra 
que me pediu para tentar impedi-lo de partir? Pois bem, eu tentei.  Riu um riso nervoso.  Mas no consegui.
       Que aconteceu?
      Cage sentiu um n na garganta, mal conseguia falar. Mas queria saber o que ela havia sentido aquela noite. No era justo aproveitar-se da situao para induzi-la 
a contar tudo, mas precisava saber.
       Ele subiu comigo. Eu...  Jenny baixou o olhar e respirou fundo.  Eu lhe pedi que no fosse para Monterico. Hal no cedeu. Ento tentei atra-lo para a 
cama. Mas ele saiu do quarto.
       Neste caso eu no entendo...
       Voltou um pouco mais tarde. Ento ns... ns fizemos amor.
      Passaram-se vrios segundos sem que nenhum dos dois falasse, ambos perdidos em seus prprios pensamentos. Jenny recordando a alegria que sentiu quando a porta 
se abrira e ela vira a silhueta de Hal projetada no estreito facho de luz. Cage lembrando a mesma coisa, mas da sua perspectiva. Jenny sentando-se na cama, o rosto 
banhado de lgrimas.
       Foi a primeira vez que vocs...
       Primeira e nica. Nunca imaginei que uma mulher pudesse ficar grvida fazendo amor uma nica vez.  Amassou o guardanapo de papel que estava encharcado sob 
o copo gelado de refrigerante.  Que engano o meu!
       Foi bom, Jenny?  Ele a encarou.  Quer dizer, j que voc era virgem... no doeu?
       Um pouco no comeo.  Deu um sorriso tmido que fez o corao dele encolher-se no peito. Depois o fitou nos olhos.  Mas foi maravilhoso. A melhor coisa 
que j me aconteceu. Nunca senti tanta proximidade com outro ser humano. E, sejam quais forem s consequncias, no me arrependo do que fiz aquela noite.
      Dessa vez foi Cage que baixou os olhos. Era difcil refrear as lgrimas. A emoo lhe bloqueava a garganta, formigava-lhe o corpo. Ele desejava abra-la, 
sentir seu calor. Queria contar que compreendia perfeitamente o que ela estava dizendo porque sentira exatamente a mesma coisa.
       Voc deve estar de...
       Quase quatro meses  completou Jenny.
       E no sentiu nenhum mal-estar?
       Agora que sei que estou grvida, percebo que sim. Antes no. Eu tenho me sentido cansada e desanimada. Logo depois de voltar de Monterico, emagreci um pouco, 
mas j recuperei o peso. Meus seios...  Interrompeu-se, olhando para ele sem jeito.
       Continue Jenny  pediu Cage com delicadeza.  Que tm seus seios?
       Esto mais sensveis, parece que cocam, formigam, sabe como ?
      Ele sorriu.
       No, eu no sei. 
      Ela riu.
       Como poderia saber?  Rir lhe fez bem, mas ela cobriu a boca.  No acredito que esteja rindo de uma coisa to sria.
        melhor assim. Mesmo porque isso  motivo para comemorar, no para chorar. No  todo dia que um homem acha petrleo e, ainda por cima, fica sabendo que 
vai ser... tio.
      Ela estendeu a mo por cima da mesa e segurou a dele.
       Obrigada por sentir isso, Cage. Quando sa do consultrio, eu estava desesperada. No sabia quem procurar, aonde ir. Senti-me to perdida e sozinha.
       No precisa ficar assim, Jenny. Voc sabe que pode contar comigo. Sempre.
       Eu agradeo a sua atitude.
      Se ela soubesse qual era seu verdadeiro sentimento. Cage estava ao mesmo tempo tremendamente feliz e infinitamente triste. Ia ter um filho, mas ningum saberia 
que era dele. Nem mesmo a me da criana.
       Que est pensando em fazer?
       No sei.
       Case-se comigo, Jenny.
      Ela ficou sem fala. Olhou atnita para ele ao mesmo tempo em que procurava acalmar o corao, faz-lo parar de saltar no peito como um pssaro na gaiola. Sabia 
que ele agira motivado pela compaixo, possivelmente lealdade pela famlia, mas, no desespero de agarrar-se  segurana que aquela proposta oferecia, teve vontade 
de dizer sim. Era ridculo, naturalmente.
       No posso.
       Por qu?
       Por mil razes.
       Mas tem uma boa razo para aceitar.
       Cage, no posso deix-lo arruinar sua vida por mim e por meu filho. Nunca. No, obrigada.
       Deixe eu mesmo decidir o que pode arruinar a minha vida ou no, por favor.  Apertou-lhe a mo.  Vamos fugir hoje mesmo ou esperamos at amanh? Voc pode 
escolher o lugar que quiser para a lua-de-mel. Com exceo de Monterico.
      Os olhos dela estavam cheios de ternura e midos de lgrimas.
       Voc  uma pessoa maravilhosa.
       E o que dizem.
       Mas no posso me casar com voc, Cage. 
      Ele ficou srio.
       Por causa de Hal?
       No. No  por causa dele. Tem a ver com voc e comigo. Ns estaramos nos casando pelos motivos errados. Jenny Fletcher e Cage Hendren. Que piada!
       Voc no gosta de mim?  perguntou ele, esbanjando todo o seu charme num sorriso.
      Jenny tambm sorriu.
       Voc sabe que no  isso. Eu gosto muito de voc.
       Voc ficaria assombrada com os tantos casais que eu conheo que se detestam. H mais afeto entre ns do que em muitos deles.
       Mas o seu estilo de vida no combina com mulher e filho.
       E s mudar de estilo de vida.
       No quero que faa esse sacrifcio.
      Cage teve vontade de sacudi-la e gritar-lhe que no estava fazendo sacrifcio algum. Mas agora tinha de lhe dar espao. Jenny precisava de tempo para se adaptar 
 idia de ser me antes de pensar na possibilidade de aceitar um marido com fama de mulherengo inveterado. Nada neste mundo haveria de impedi-lo de casar-se com 
ela, de torn-la sua para sempre, de criar seu filho num lar cheio de amor, no de censura.
       Bem, j que prefere machucar o meu corao e me rejeitar, que est pensando em fazer daqui por diante?
       Posso continuar trabalhando para voc? 
      Ele enrugou a testa.
       Precisa perguntar?
       Obrigada, Cage.
      Relaxando, Jenny se encostou na cadeira e, inconscientemente, passou a mo na barriga que ainda nem comeara a crescer. Ela  to pequena, pensou Cage. Seria 
possvel que houvesse uma criana dentro dela?
      Jenny era mesmo pequena. Ele quase deixou escapar um gemido ao se lembrar de quando a abraava. Agora estava preocupado. E se tivesse dificuldade para dar 
 luz?
      Olhou para seus seios. No estavam maiores, ims eram cheios como duas frutas maduras. Arredondados e maternalmente bojudos: tudo o que Cage queria naquele 
momento era acarici-los, cobri-los de beijos apaixonados.
       Seus pais tero de saber.
      Ele tirou com relutncia os olhos daqueles seios e removeu do pensamento a fantasia.
       Quer que eu conte para eles?
       No. A responsabilidade  minha. Mas queria muito saber como vo reagir.
       Como poderiam reagir? Vo adorar.  Custou-lhe muito acrescentar as ltimas palavras:  Ser uma herana viva de Hal.
      Ela continuou brincando com o guardanapo que, a essa altura, tinha se transformado numa bola de papel molhado.
       Talvez. Em todo caso, duvido de que seja to simples. Os dois so muito moralistas, Cage. Nem preciso lhe dizer isso. Para eles, a fronteira entre o bem 
e o mal est claramente delimitada. Em sua maneira de pensar, no existem regies cinzentas na moralidade.
       Mas meu pai passou a vida pregando a caridade crist. A misericrdia de Deus e o perdo foram o tema de muitos de seus sermes.  Tomou-lhe a mo.  No 
vo conden-la, Jenny. Tenho certeza.
      Ela bem que queria ter a mesma confiana. Sorriu para ele.
      Antes de sarem, Cage a obrigou a tomar um chocolate vitaminado, dizendo que era mais importante que nunca que se alimentasse bem. Chocaram os copos, brindando 
o poo de petrleo e a criana.
       Acho que vou ter de dividir meu urso de pelcia com o beb  disse ela quando saram  rua, balanando as mos dadas.
      Ele sorriu.
       Defenda os seus interesses. Durante muito tempo voc ser maior que o beb.  Levou-a para o carro e abriu a porta.  V para casa e tire uma soneca.
       Mas eu s trabalhei meio perodo hoje.
        mais do que suficiente. V descansar.  noite eu telefonarei para saber como voc est.
       At l eu j terei dado a notcia a Sarah e Bob.
       Eles vo ficar to entusiasmados quanto eu. 
      Era impossvel. Ningum ficaria entusiasmado com o beb como ele. Cage estava a ponto de declarar o quanto se sentia feliz, o quanto a amava, o quanto amava 
a criana que tinham gerado.
      Era obrigado a calar-se, mas no resistiu  tentao de abraar Jenny. Atraiu-a para si. Ela se deixou envolver, e os dois ficaram abraados em plena luz do 
dia, alheios a tudo ao seu redor, inclusive aos olhares curiosos.
      Ela chegou a sentir as batidas do corao dele. Aqueceu-se no calor de seu corpo. Aquele homem estava se tornando importante em sua vida, importante demais. 
Precisava muito de um amigo, e Cage no recusara a sua amizade. Por isso se agarrava  fora e ao apoio que ele oferecia. E, enquanto o abraava, deliciou-se com 
a fragrncia de sol e ar livre que seu corpo exalava, o cheiro da loo de barbear, perfumes que pertenciam unicamente a Cage Hendren.
      Ele a segurou com fora, adorando o contato daqueles seios exuberantes. Colando os lbios no alto de sua cabea, demorou-se num beijo que na verdade no era 
um beijo. Doa-lhe no poder agradecer-lhe por hav-lo abenoado com um filho, no poder pousar a mo em seu ventre e conversar tolamente com a criana aninhada 
l dentro. No poder acariciar-lhe os seios e contar-lhe o quanto queria ver o beb mamando. Pior ainda: doa-lhe ter de deix-la ir embora.
      Mas deixou-a enfim.
       Prometa que vai se deitar assim que chegar em casa.
       Prometo.
      Acomodou-a no banco dianteiro do carro e a ajudou a prender o cinto de segurana.
       Para proteger voc e o beb de motoristas como eu  disse com um sorriso irnico, e seguiram.
       Obrigada por tudo, Cage.
      Ao v-la afastar-se, perguntou-se se Jenny lhe agradeceria tambm se soubesse que era ele, no Hal, o responsvel por sua gravidez.
      Cage chegou  casa paroquial por volta das sete horas.
      Depois de mandar Jenny para casa, passou o resto da tarde no local das perfuraes. Por mais ocupado que estivesse, no parava de pensar nela. Preocupava-se 
com ela, com seu estado de esprito, com sua condio fsica, com sua ansiedade para contar aos pais adotivos que estava grvida.
      Por fora, a casa paroquial conservava a aparncia de sempre. O carro de Jenny se achava estacionado ao lado do de seus pais. A luz estava acesa na cozinha 
e na sala de estar. Mesmo assim, Cage intuiu que havia alguma coisa errada.
      Bateu na porta da frente e a abriu.
       Ol!  gritou.
      Entrou sem ser convidado e encontrou Bob e Sarah sentados na sala.
       Ol, Cage  disse seu pai sem entusiasmo. Sarah permaneceu calada. No parava de torcer o leno que tinha nas mos.
       Onde est Jenny?
      Bob pareceu achar difcil responder, pois hesitou vrias vezes. Quando finalmente conseguiu articular as palavras, foi lacnico.
       Foi embora.
      A raiva comeou a ferver dentro de Cage.
       Foi embora? Como assim? O carro dela est a fora.
      Bob passou a mo no rosto, desfigurando suas feies.
       Preferiu ir embora sem levar nada, s a roupa.
      Cage deu meia-volta e subiu a escada de dois em dois degraus como costumava fazer na adolescncia. Era contra as regras da casa, mas ele as transgrediu como 
transgredia antigamente.
       Jenny!
      Ela no estava no quarto. Ele se aproximou do armrio e o abriu. A parte umas poucas peas de roupa penduradas, estava vazio. Nas gavetas da escrivaninha, 
que abriu freneticamente, o vazio indicou que Jenny partira.
       Droga!  rugiu como um leo ferido e desceu correndo a escada.  Que aconteceu? Que vocs fizeram? Que disseram a ela?  perguntou.  Ela contou que est 
grvida?
       Contou  disse Bob.  Ns ficamos chocados.
       Chocados? Descobriram que Jenny est esperando o primeiro neto de vocs e a nica coisa que lhes ocorreu foi ficar chocados?
       Ela diz que o filho  de Hal. 
      Fosse outro homem, no seu pai, que se atrevesse a questionar a honra e a virtude de Jenny, Cage o teria agarrado pelo colarinho e o espancado at que se arrependesse 
de haver dito uma s palavra contra ela.
      No entanto, limitou-se a grunhir e a avanar um passo ameaador. Pouco importava que, na verdade, no se tratasse do filho de Hal. Jenny pensava que era. Achava 
que estava lhes contando a pura verdade.
       Vocs duvidaram dela?
       Claro que duvidamos  disse Sarah, falando Pela primeira vez.  Hal jamais teria... cometido esse... esse pecado. Muito menos na vspera da viagem  Amrica 
Central, como ela diz.
       Pode ser uma surpresa para voc, mame, mas Hal era homem antes de ser missionrio.
       Voc por acaso est querendo dizer...
       Estou dizendo que ele tambm, como qualquer outro homem, tinha impulsos e desejos. O que me admira  que tenha demorado tanto para levar Jenny para a cama.
      Hal nunca levara Jenny para a cama, porm Cage no estava pensando com sensatez naquele momento.
       Cale a boca, Cage, pelo amor de Deus!  gritou Bob, levantando-se para encarar o filho mais velho.  Como se atreve a falar com sua me em termos to grosseiros?
       Tudo bem  disse ele, cortando o ar com um gesto.  Eu no dou a mnima importncia para o que vocs pensam de mim, mas como tiveram a coragem de mandar 
Jenny embora num momento como este?
       Ningum a mandou embora. Ela foi porque quis.
       Vocs devem ter dito alguma coisa, do contrrio ela no tomaria uma atitude to drstica. O que foi?
       Jenny esperava que acreditssemos que Hal... que Hal fez isso com ela  disse Bob.  Sua me e eu at admitimos que pudesse ter acontecido. Afinal, como 
voc mesmo disse, seu irmo era homem. Mas, se chegou a fazer uma coisa dessas, foi porque ela deve t-lo tentado mais do que ele era capaz de resistir.
      Francamente, o que Cage no entendia era como Hal tinha conseguido resistir quela noite. Ele no teria resistido. Nem em um milho de anos. Mesmo que as portas 
do inferno se abrissem para devor-lo.
       Seja como for, eles fizeram isso por amor.
       Eu acredito. Mesmo assim...  disse Bob, sacudindo obstinadamente a cabea.  Hal no teria se distrado de sua misso a menos que tivesse sido muito tentado. 
E  possvel, sim,  bem possvel que tenha continuado pensando nisso l em Monterico, ou sentindo-se culpado pelo pecado que cometeu, ou em conflito consigo mesmo. 
Talvez tenha sido por isso que no se cuidou como deveria e acabou sendo capturado e morto.
       Santo Deus!  exclamou Cage, apoiando-se na parede como se acabasse de levar um soco. Encarou os pais perguntando-se como duas pessoas to medocres e estreitas 
podiam t-lo posto no mundo.
       Vocs disseram isso a Jenny? Culparam-na da morte de Hal?
       Ela  culpada  disse Sarah.  As convices de Hal eram to firmes, ela s pode t-lo seduzido. Voc consegue imaginar quanto nos sentimos trados? Ns 
a criamos como nossa prpria filha. Em troca... Ela me aparece com um filho ilegtimo... Oh, meu Deus, quando penso no quanto isso vai prejudicar a memria de Hal. 
Todos o amavam e o admiravam. Essa histria vai destruir tudo que ele representava.  Sarah apertou os lbios, transformando-os numa linha fina e branca. Virou a 
cabea.
      A indeciso mortificava Cage. Seus pais estavam culpando Jenny da morte de Hal, no entanto o nico culpado dessa morte era o prprio Hal, que no se deixara 
seduzir nem podia ter se sentido culpado de haver dormido com Jenny. Cage podia absolv-la naquele instante, revelando que era ele quem tinha feito amor com ela. 
Contudo, se os velhos a condenavam por ter dormido com Hal, eram capazes de apedrej-la na rua se soubessem que tinha dormido com Cage.
      Aquela atitude o deixava doente. Ele tinha garantido a Jenny que os velhos ficariam contentes com a notcia. Em vez disso, num comportamento que nada tinha 
de cristo, a haviam condenado e crivado de acusaes. Cage teve vontade de cham-los de hipcritas, mas no havia tempo a perder. Afinal, para que desperdiar energia? 
Eles eram uma causa perdida. A nica coisa que interessava agora era encontrar Jenny.
       Aonde ela foi?
       No sabemos  respondeu Bob num tom que indicava que tambm no queria saber.  Ela chamou um txi.
       Vocs me do pena  disse Cage, saindo precipitadamente.
       H quanto tempo?
       Bom, vamos ver.  O homem correu o dedo nodoso na coluna de horrios de sada, depois traou uma linha na lista de cidades.  Aproximadamente meia hora. 
Devia partir as seis e cinquenta e, pelo que sei, no houve atraso.
       Ele pra em muitos lugares?
      O empregado da empresa de nibus tornou a consultar a lista com uma preciso to meticulosa que quase enlouqueceu Cage. Ser que aquele sujeito no era capaz 
de dar uma resposta sem fazer uma consulta?
      Depois de falar com o proprietrio da nica frota de txis da cidade e ficar sabendo que Jenny tinha ido para a estao rodoviria, ele fora para l em alta 
velocidade. Uma rpida vistoria na sala de espera revelou que ela j tinha viajado. S uma passagem fora vendida a uma moa cuja descrio coincidia com a de Jenny. 
Passagem de ida para Dallas.
       No. No pra em lugar algum. Quer dizer, s em Abilene.
       Eles seguem por qual estrada?
      O homem respondeu e, quando terminou suas demoradas explicaes, Cage j estava correndo para a rua.
      Ligou o motor da Corvette e praguejou ao verificar o tanque de gasolina. No conseguiria viajar sessenta quilmetros. Parando no primeiro posto, encheu o tanque 
to depressa quanto a bomba permitia.
       No tem trocado?  choramingou o frentista quando ele lhe entregou uma nota de cinqenta dlares.  Puxa vida, Cage, voc vai levar todo o meu troco.
       Desculpe. E o que tenho e estou com muita pressa.  Droga, ele precisava de um cigarro. Por que tinha prometido a Jenny parar de fumar?
       Tem encontro marcado?  O frentista piscou com malcia.  E loira ou morena?
       Eu j disse que estou...
       Com pressa, eu sei, eu sei  disse ele, piscando novamente.  Bom, vamos ver o que se pode fazer.  Examinou a gaveta da caixa registradora por cima dos 
culos.  Uma de vinte, no, esta  de dez. E uma de cinco.
      Ser que a cidade inteira tinha ingerido algum produto qumico? Todo mundo parecia ter se tornado imbecil.
       Quer saber de uma coisa, Andy? Guarde o meu troco, mais tarde venho buscar.
       Caramba, que pressa!  gritou ele s costas de Cage.  Deve ser um mulhero!
        mesmo  disse Cage ao entrar na Corvette. Segundos depois, desapareceu na escurido da noite.
      Jenny decidira parar de lutar com o balano do nibus, preferindo deixar-se embalar por ele. Era quase agradvel. A monotonia do movimento a ajudava a no 
pensar no futuro.
      Que futuro?
      Ela no tinha futuro algum.
      Os Hendren disseram tudo que sentiam. Ela no passava de uma Jezebel que tentara seu santo filho, que procurara desvi-lo de sua vocao ficando grvida dele.
      Seus olhos se encheram de lgrimas, mas Jenny no cedeu a elas. Fechou-os e reclinou a cabea no encosto da poltrona, desejando conseguir dormir. No conseguiu. 
Sua mente era um turbilho, e os passageiros ao seu redor estavam se mostrando cada vez mais inquietos e falantes.
       Voc viu isso?
       Que louco!
       Ser que o motorista viu?
       Esse homem pensa que est na Frmula Indy? 
      Curiosa com o que lhes havia chamado a ateno,
      Jenny olhou pela janela. S viu o seu prprio reflexo no vidro e um negro vazio mais alm. Porm logo reparou no carro esporte ao lado do nibus, que se aproximava 
perigosamente das enormes rodas.
       O homem s pode ser maluco.
      Jenny arregalou os olhos e abriu a boca ao reconhecer o carro de Cage.
       Oh, no!
      De sbito o nibus deu um solavanco quando o motorista freou e, saindo da pista, foi parar no acostamento.
       Senhoras e senhores  disse ao microfone instalado perto do volante.  Desculpem o transtorno, mas sou obrigado a parar. H um motorista evidentemente bbado 
tentando nos jogar fora da estrada. Vou tentar falar com ele antes que nos mate a todos. Tenham calma. Em breve continuaremos a viagem.
      Muitos passageiros correram  janela para ver melhor. Jenny afundou-se no seu banco, o corao disparado. O motorista abriu a porta automtica do nibus e 
ia se levantar quando um homem entrou no veculo.
       Por favor, cavalheiro  pediu o motorista, obviamente preocupado com a segurana dos passageiros. Ergueu as mos.  Ns somos pessoas inocentes e...
       Calma. Eu no sou assaltante. No vou fazer mal a ningum. S vim buscar um dos passageiros.
      Cage passou rapidamente os olhos pelo interior do nibus, examinando cada rosto. Jenny continuou calada e imvel em seu lugar. Ele entrou pelo corredor.
       Desculpem o incmodo  disse amigavelmente aos passageiros que olhavam para ele com desconfiana.  No vai demorar mais de um minuto, palavra.  Ao encontrar 
quem procurava, parou e suspirou aliviado.  Pegue as suas coisas, Jenny. Vai voltar comigo.
       No, no vou, Cage. Eu lhe expliquei tudo numa carta. Pus no correio antes de partir. Voc no devia ter vindo atrs de mim.
       Mas acontece que estou aqui, e no fiz a viagem  toa. Agora venha.
       No.
      Todos estavam prestando ateno  conversa dos dois.
      Zangado com ela como um pai que acaba de encontrar o filho perdido, Cage ps as mos na cintura.
       Est bem. Se voc prefere lavar a roupa suja aqui mesmo, na frente de toda essa gente simptica, por mim tudo bem, mas acho melhor pensar duas vezes antes 
de entrarmos nos interessantes detalhes.
      Jenny correu os olhos pelos passageiros. 
      Todos a olhavam com curiosidade.
       Que foi que essa moa fez, mame?  perguntou uma garotinha.  Alguma coisa ruim?
       Como prefere, Jenny?
       A senhora no precisa ir a lugar nenhum com ele, moa  disse o motorista atrs de Cage. Ele no deixaria um marido violento tirar a esposa indefesa de seu 
nibus.
      Jenny fitou Cage. Ele estava com os dentes cerrados e o maxilar tenso. Seus olhos brilhavam como chamas amareladas. Seu corpo parecia mais slido que a rocha 
de Gibraltar. No voltaria atrs, e ela no queria ser responsvel pela confuso a bordo do nibus.
       Oh, est bem, eu vou.  Saiu ao corredor depois de pegar uma pequena valise.  Tenho outra mala no compartimento de bagagem  disse delicadamente ao motorista, 
ciente de que todos os olhares estavam voltados para ela.
      Os trs desceram. O motorista abriu o compartimento de bagagem sob o nibus. Ao lhe entregar a mala, perguntou:
       Tem certeza de que quer ir com esse homem? Ele no vai machuc-la, vai?
      Jenny sorriu.
       No, no. No  nada disso. Ele no vai me bater.
      Depois de fuzilar Cage com o olhar e resmungar alguma coisa contra as imprudncias que ele cometera nas estradas, voltou para o nibus. Um momento mais tarde, 
j ia pela estrada, os passageiros esticando o pescoo  janela para ver as duas pessoas que ficaram no acostamento.
      Rgida, Jenny se voltou para encarar Cage. Deixou cair  bagagem com um enftico baque.
       Que belo espetculo, Sr. Hendren. Que esperava ganhar com isso?
       Pretendia tir-la do nibus e impedi-la de fugir feito um coelhinho assustado.
       Bem, talvez eu no seja outra coisa  gritou ela, dando vazo s lgrimas que vinha reprimindo desde a cena na casa paroquial.
       Que pretendia fazer, Jenny? Ir a uma clnica de abortos em Dallas?
      Ela cerrou os punhos.
       Nem considerei essa possibilidade desprezvel!
       Que ia fazer ento? Qual era a sua inteno. Ter o beb e entreg-lo  adoo?
       No!
       Escond-lo?  Ele avanou um passo. A resposta que Jenny daria  pergunta seguinte era de suma importncia para ele.  Voc no quer o beb, Jenny? Tem vergonha 
dele?
       No  nada disso  gemeu ela, cobrindo a barriga com ambas as mos.   claro que eu o quero. Eu j o amo.
      Cage relaxou os ombros com alvio, mas sua voz ainda conservava um timbre irritado.
       Ento por que resolveu fugir?
       Eu no sabia o que fazer. Seus pais deixaram claro que no me queriam mais l.
       E da?
       Da?  Ela fez um gesto na direo que o nibus acabava de seguir.  Nem todos tm coragem de sair perseguindo um nibus. Ou de viajar de moto a cento e 
cinqenta quilmetros por hora. Eu no sou como voc, Cage. Voc no se importa com o que as pessoas pensam. Faz o que bem entende.  Espalmou a mo no peito.  
Eu no sou assim. Eu me preocupo com o que as pessoas pensam. E estou com medo.
       De qu?  perguntou ele, empinando o queixo com hostilidade.  Dessa cidadezinha cheia de cabeas medocres? De como essa gente pode prejudicar voc? Qual 
 a pior coisa que podem lhe fazer? Falar mal? Desprez-la? O qu? Ningum precisa da amizade de quem  capaz de fazer isso. Est com medo de sujar o nome de Hal? 
Eu tambm no gosto de imaginar esses hipcritas pensando mal dele. Mas Hal morreu. No vai saber disso. E o trabalho que ele iniciou continuar. Voc mesma cuidou 
disso, organizando a rede de coleta de doaes. Pelo amor de Deus, Jenny, no seja to dura consigo mesma. Voc  a sua pior inimiga.
       Que sugere que eu faa? Que volte e fique trabalhando em seu escritrio?
       Sim.
       Neste estado?
       Voc devia se orgulhar dele.
       Ter este beb sabendo que ele passar a vida, rotulado com um nome sujo?
      Cage apontou o dedo para o peito dela.
       Quem rotular esse beb de qualquer outra coisa que no seja "maravilhoso" est arriscando a vida.
      Jenny teve vontade de rir de tamanha ferocidade.
       Mas nem sempre voc estar por perto para proteg-lo. No ser fcil para esta criana viver numa cidade to pequena, onde todo o mundo conhece a sua origem.
       Tampouco seria fcil para ela crescer numa cidade grande, onde sua me no conhece ningum. A quem voc pediria ajuda, Jenny? As pessoas mais hostis que 
voc encontrar em La Bota so pelo menos familiares.
      Era difcil admitir quanto a havia aterrorizado a ideia de se mudar para outra cidade sem muito dinheiro, sem emprego nem lugar onde morar, sem amigos nem 
parentes.
       No est na hora de mostrar um pouco de coragem, Jenny?
      Ela levantou a cabea.
       Como assim?  perguntou irritada.
       Desde os catorze anos deixa os outros tomarem decises por voc.
       Ns j discutimos isso h alguns meses. Eu tentei governar o meu prprio destino. Veja o que aconteceu.
      Cage ficou ofendido.
       Voc no disse que tinha sido bom fazer amor? E, como resultado, vai ter um beb. Acha mesmo que  ruim?
      Ela baixou a cabea e pressionou as mos no ventre.
       No. E maravilhoso. Eu fico assombrada quando penso nesta criana. Assombrada com o milagre.
       Ento! Volte a La Bota comigo. Tenha esse lindo beb e ignore os que no gostam dele.
       At mesmo seus pais?
       A reao que tiveram hoje foi um ato reflexo. Quando pensarem um pouco, eles vo mudar de opinio.
      Meditando, Jenny olhou para a noite escura.
       Acho que tem razo. Eu no posso achar um futuro para mim e o beb. Tenho de constru-lo. Certo?
      Ele sorriu e fez um sinal positivo com o polegar.
       Eu no saberia expressar isso melhor.
       Oh, Cage  ela suspirou, os braos pendendo frouxamente junto ao corpo. Tinha perdido subitamente a energia.
       Obrigada uma vez mais.
      Ele se aproximou, suas botas fazendo crepitar o pedrisco do acostamento. Tomando-lhe o rosto nas mos, acariciou-lhe a face com os polegares.
       Voc podia se casar comigo. O beb teria um pai, e tudo ficaria na mais perfeita ordem.
       No posso Cage.
       Tem certeza?
       Tenho.
       Em todo caso, no pense que esta  a ltima vez em que farei esse pedido.
      Seu hlito quente e doce tocou os lbios dela antes do beijo delicado e possessivo. Como da outra vez, seus lbios estavam entreabertos e midos. Mas,  diferena 
da outra, desta vez suas lnguas se tocaram. Apenas o suficiente para provocar uma reao imediata nos seios de Jenny.
      Em movimentos lentos, Cage saboreou a lngua dela. Mas logo parou, deixando-a com vontade. E quando ele se afastou e lhe segurou o brao para conduzi-la ao 
automvel, ela sentiu frio com a ausncia do calor do corpo dele.
      Cage colocou as malas atrs dos bancos da Corvette.
       A primeira coisa a fazer  arrumar um lugar para voc morar  observou quando estavam viajando.
      Sem se dar conta, Jenny pousou a mo na perna dele.
       Tem alguma ideia?  perguntou vagamente.
       Voc pode morar comigo.
      Os dois se entreolharam. Ele, com expresso interrogadora e maliciosa; ela, com ar de censura.
       Alguma outra ideia? 
      Cage riu de bom humor.
       Acho que podemos conseguir alguma coisa com Roxy.
      
      
      
      
   CAPTULO VIII
      
      
      
      Roxy Clemmons?    Jenny perguntou, tirando imediatamente a mo da perna dele.
       Sim. Voc a conhece?
       J ouvi falar.  Sabia que era uma das companhias mais constantes de Cage.
      Voltou-se para olhar pela janela do carro, o gosto azedo do desespero e da decepo na boca.
      Cage a havia beijado com tanta doura, com tanta intimidade. Seu abrao era clido, dava segurana. Jenny estava comeando a gostar de quando ele a tocava 
e mais ainda de quando a beijava. Porm Cage no fazia seno o que tinha feito com centenas de outras mulheres. Seus beijos podiam provocar-lhe incndios, mas aquele 
tipo de paixo nada tinha de novo para ele. A tcnica perfeita com que beijava s podia ser resultado de horas e horas de prtica.
      Estaria ela destinada a tornar-se uma das mulheres de Cage Hendren? Ser que ele planejava inclu-la naquela confraria, deixando-a guardada sob um teto qualquer, 
sempre disponvel para receber sua visita?
       Voc no ficou muito entusiasmada com a idia  ele comentou.
       No tenho muita escolha, tenho?
       Eu lhe ofereci uma alternativa. Voc recusou. 
      Jenny mergulhou num silncio de pedra. Estava zangada e no sabia exatamente o motivo. Por que se sentia to irritada, to insultada? Decerto no tinha nada 
em comum com Clemmons. Havia uma diferena enorme entre elas.
      Jenny Fletcher no era uma das mulheres de Cage. Ainda no...
      Acaso vinha alimentando subconscientemente a ideia de tornar-se amante daquele homem? Por qu? Porque ele a havia beijado algumas vezes? Por causa da noite 
em Monterico? Ou seria porque sempre sentira uma inexorvel atrao por ele? Atrao que a assustava e  qual resistia. Pelo menos acreditava que sim.
      Bem, se Cage pensava que ela ia constar de sua lista de conquistas, estava muito enganado. Roxy Clemmons e as outras no passavam de contas de um rosrio de 
aventuras sexuais que se estendia a vrios distritos. Talvez porque ela havia cado em desgraa com Hal, Cage agora a considerasse fcil. Pois no poderia estar 
mais equivocado.
      Nenhum dos dois falou durante a viagem. As ruas da cidade estavam desertas quando ele parou o carro no estacionamento de um conjunto residencial e desligou 
o motor.
       Onde estamos?  quis saber Jenny.
       Aqui  o seu novo endereo, espero. Venha.
      Subiu com ela ao apartamento em que uma placa discreta dizia "Administrao". Tocou a campainha. Pelas paredes, ouvia-se Johnny Carson entretendo o pblico. 
Quando a porta se abriu, Jenny viu Roxy Clemmons. A mulher a examinou com polida curiosidade, depois olhou para Cage na penumbra.
       Ol, Cage.  O sorriso que ela lhe endereou fez qualquer coisa se encolher dentro de Jenny.  Que houve?
       Podemos entrar?
       Claro.
      Roxy se afastou para lhes dar passagem. Depois de fechar a porta, foi at o televisor e baixou completamente o volume.
       Desculpe vir incomod-la to tarde da noite, Roxy.
       Ora, voc sabe que eu o recebo de braos abertos a qualquer hora.
      Sentindo o corao contorcer-se no peito, Jenny olhou para o cho.
       Roxy, esta  Jenny Fletcher.
       Sim, eu sei. Ol, Jenny. Prazer em conhec-la. 
      A gentileza da moa a surpreendeu; ela ergueu a cabea e disse:
       O prazer  todo meu, Srta. Clemmons. 
      A outra riu.
       Pode me chamar de Roxy. Querem beber alguma coisa? Aceita cerveja gelada, Cage?
       Nada mal.
       E voc, Jenny?
       Nada, obrigada.
       Nem um refrigerante?
      Para no ser grosseira, ela respondeu com um sorriso apagado.
       Sim, est bem, um refrigerante.
       Sentem-se, fiquem  vontade.
      Roxy se voltou para a porta vaivm que dava para a cozinha. O jeans muito justo realava seus exuberantes quadris. Os seios voluptuosos oscilavam livremente 
sob a camiseta. Estava descala. Seus cabelos avermelhados, embora despenteados, eram bonitos e atraentes. Ela parecia estar saindo da cama ou prestes a ir se deitar. 
Era o tipo da mulher com a qual um homem podia relaxar e entregar-se ao prazer, uma amante perfeita. Simptica, hospitaleira, sensvel, disposta. A ideia quase provocou 
nuseas em Jenny.
      Cage se havia acomodado no sof e estava folheando um exemplar da Cosmopolitan que ali encontrara.
       Sente-se  disse, notando que Jenny continuava de p e sem jeito no centro da sala.
      Pouco  vontade, como se pudesse sujar a saia se no tomasse cuidado, ela escolheu uma cadeira. Cage parecia divertir-se, e ela se irritou.
      Roxy voltou com a bebida. Depois de tomar um longo trago da lata de cerveja, ele disse:
       Voc tem algum apartamento vago? Estou precisando de um.
      A mulher pousou um olhar intrigado em Jenny, depois se voltou novamente para ele.
       Puxa, que timo, parabns. Mas qual  o problema com a sua casa?
      Cage riu.
       Que eu saiba, nenhum. Mas acho que voc no entendeu.  Jenny que vai morar no apartamento. Sozinha.
      Jenny teve vontade de estrangul-lo por ter dado a impresso de que iam morar juntos. Ficou vermelha como um pimento. Agora que a situao estava esclarecida, 
ela se ps a procurar sinais de alvio em Roxy, que devia estar contentssima por ele no ir morar com a nova amante bem diante do seu nariz. Porm tudo que a expresso 
da moa dizia era que ela lamentava o engano que acabava de cometer.
       Oh!  Roxy olhou para Jenny e sorriu.  Voc est com sorte. Eu tenho um apartamento vago. Quarto e sala.
      Jenny chegou a abrir a boca para falar, contudo Cage se adiantou.
       De que tamanho? Ela vai ter um beb. H espao para um bero?
      Roxy se mostrou chocada com a notcia. Fitou Cage boquiaberta. Depois, voltando-se para Jenny, olhou imediatamente para sua barriga.
       Voc no tem restries a inquilinas com bebs, tem?
       No. Claro que no.  Indisfaravelmente, Roxy se recomps, tratando de colocar as coisas em sua adequada perspectiva. Calou um par de sandlias e se levantou. 
 Vamos at o apartamento, e vocs decidem se  o que esto procurando.  Minutos depois, quando iam pela calada entre os prdios, falou por cima do ombro.  O 
lugar  muito bom.  Tinha ido buscar a chave do apartamento vago no quarto que lhe servia de escritrio.  E bem tranquilo, mas no isolado a ponto de dar medo 
de morar sozinha, Jenny.  E prosseguiu, falando nas vantagens do conjunto habitacional, exaltando a lavanderia e a piscina.
      Jenny escutou calada. Endereava olhares assassinos a Cage, que tivera a coragem de revelar o seu estado a... quela mulher. Na manh seguinte, a cidade inteira 
estaria sabendo de sua gravidez.
       Chegamos.  Roxy abriu o apartamento e entrou com eles. Acendeu a luz.  Puxa como est abafado! Eu no o abro desde que o pessoal da limpeza e os pintores 
estiveram aqui.
      De fato, o apartamento cheirava a desinfetante e tinta fresca, mas Jenny no se importou com isso. Era perfeito.
       Aqui  a sala de estar,  claro. A cozinha fica ali.
      Roxy a conduziu por uma porta vaivm igual  do seu prprio apartamento. As instalaes brilhavam. Jenny abriu a geladeira, tambm estava muito limpa.
      No tardaram a examinar o apartamento todo. S havia um banheiro e um quarto alm da sala de estar.
       E o aluguel? Quanto ?
       Quatrocentos por ms. Mais o condomnio.
       Quatrocentos dlares?  perguntou Jenny Acho que no...
       Sem moblia?  indagou Cage.
       Oh, imagine!  exclamou Roxy, levando a mo  cabea.  Eu estou fazendo confuso. Os apartamentos de um quarto sem moblia custam duzentos e cinquenta.
       Melhorou  disse ele.
      Jenny calculou seu salrio e as despesas. Conseguiria pagar o aluguel se economizasse. Alm disso, aquele era um dos conjuntos habitacionais mais bonitos da 
cidade, e suas escolhas eram limitadas. Tinha tido sorte de encontrar um apartamento vago. Tentando esquecer que ia ser quase vizinha de uma das amantes de Cage, 
disse:
       Preciso assinar um contrato?
       Quer dizer que vai ficar com ele?  quis saber Roxy.
       Vou, acho que vou  respondeu Jenny sem entender por que a outra mulher se mostrava to satisfeita.
       Fantstico.  bom saber que seremos vizinhas. Venha, vamos voltar ao escritrio.
      Quinze minutos mais tarde, Jenny estava com uma cpia do contrato e um molho de chaves na mo.
       Pode se mudar amanh mesmo. De manh cedo eu abrirei as janelas para arejar um pouco.
       Obrigada.  As duas se despediram. Cage acompanhou Jenny at o carro, esperou que ela se instalasse no banco e voltou. Roxy continuava  porta de seu apartamento.
       Obrigado por contornar a questo do aluguel.
       Voc me colheu de surpresa, mas consegui pegar a coisa no ar  disse ela, sorrindo.  Vai me informar dos detalhes desse acordo ou eu terei de recorrer  
imaginao?
       Est curiosa?
       Muito. 
      Ele riu.
       Depois conversaremos. Obrigado por tudo.
       No h de qu. Amigo  para essas coisas. 
      Cage a beijou rapidamente nos lbios e lhe deu um tapinha no traseiro antes de descer correndo e ir ter com Jenny no carro. Ela estava rgida feito uma esttua, 
olhando fixamente para frente, as pontadas de cime a lhe machucarem o peito.
      No tinha ouvido a conversa  porta, mas vira muito bem como um sorria para o outro e quando Cage se inclinou para beijar Roxy. A descuidada familiaridade 
com que eles se tocavam afrontava a compostura de Jenny. Por mais que ela dissesse que no se importava, seu corao protestava.
       A primeira coisa que precisamos fazer amanh  comprar os mveis  disse Cage.
       Voc j ajudou muito. No posso pedir que...
       Voc no pediu nada. Eu  que estou oferecendo. Faa uma lista de tudo que vamos precisar.
       No posso comprar muita coisa. S o essencial. Alis, onde estamos indo agora?  At o momento, ela no se dera conta de que, at o dia seguinte, continuava 
sendo uma sem-teto. Onde ia dormir aquela noite?
       Imagino que no queira voltar  casa paroquial.
       No.
       Pode passar a noite em minha casa. 
       No h lugar.
       Naquela casa enorme?
       H s uma cama.
       E da? No ser a primeira vez que dormimos na mesma cama.  As palavras foram ditas em voz baixa e rouca. Jenny no respondeu. Aps algum tempo, ele suspirou 
e disse:  Vou lev-la a um hotel.
      Pouco depois estava estacionando a porta de um hotel  beira da estrada.
       Espere a.
      Jenny o observou entrar no saguo bem-iluminado. Pela vidraa, viu o recepcionista noturno tirar os ps de cima da escrivaninha e deixar de lado o romance 
policial que estava lendo. Pelo amplo sorriso que exibiu e a efuso com que apertou a mo de Cage, era bvio que o conhecia.
      Nem lhe pediu que preenchesse a ficha, entregou-lhe imediatamente a chave de um quarto. Inclinando-se numa postura conspirativa, cochichou alguma coisa que 
Cage, no entanto, recusou com um gesto negligente.
      Depois olhou para o carro de longe. Jenny viu-lhe a expresso de surpresa quando a reconheceu. Sorrindo, fez outro comentrio, o qual levou Cage a unir as 
sobrancelhas numa carranca. Carranca essa que no tinha desaparecido quando ele voltou para o automvel depois de dar um seco boa-noite ao recepcionista.
       Que ele disse?  perguntou Jenny.
       Nada.
       Ele disse alguma coisa. Eu vi.
      Cage ficou calado, mas foi com o carro diretamente para o quarto, sem necessidade de conferir os nmeros nas portas. Parou bruscamente e, sem ocultar o mau 
humor, desligou o motor.
       Voc j esteve aqui  disse ela intuitivamente.
       Jenny...
       No esteve?
      ... pare com isso.
       No esteve?
       Pode ser.
       Muitas vezes?
       Muitas!
       Com mulheres?
       Sim!
      Ela sentiu o peito apertado. Ficou sem fala, mal conseguia respirar.
       Voc dormiu com outras mulheres aqui e  isso que o recepcionista est pensando que vai acontecer agora. O que ele disse a meu respeito?
       No interessa o que ele...
       A mim interessa  gritou ela.  Conte-me.
       No.
      Cage desceu do automvel e pegou a bagagem atrs dos bancos. Sem verificar se ela o estava seguindo, caminhou com passos largos para a porta do quarto e a 
abriu. Guardou as malas no armrio e acendeu o abajur.
       Que foi que ele disse?  perguntou Jenny da porta.
      Cage girou nos calcanhares e viu-lhe a expresso resoluta. Parecia cansada e transtornada, zangada e vulnervel. Estava plida e desgrenhada, tinha olheiras 
profundas. Sua boca tremia levemente. Parecia uma criana perdida, um soldado derrotado.
      Ele nunca a desejara tanto. Mas no podia possu-la ali, e isso alimentava a sua raiva. Jenny lhe pertencia, droga, mas ele no podia aproximar-se dela. Amava-a 
tanto quanto ela o amava, porm as circunstncias os mantinham separados. Estava pagando caro aquela noite no paraso. O desejo de possu-la outra vez vinha transformando 
a sua vida num inferno.
      Disposto a mago-la como ela o magoava, Cage abriu o jogo:
       Muito bem, Srta. Fletcher. Faz questo de saber o que ele disse? Disse que, desta vez, a coisa ia ficar em famlia.
      Jenny cravou os dentes no lbio inferior para no gritar a sua indignao. O dio ferveu dentro dela, procurando uma vlvula de escape. Cage era a nica disponvel.
       Est vendo o que fez? Contou a Roxy Clemmons, que como todo mundo sabe  uma de suas amantes, que estou grvida. Agora me traz ao mesmo hotel onde costuma 
trazer suas mulheres. Amanh cedo  cidade inteira vai saber que estive aqui com voc. Acontece que eu no quero ser arrastada de um lado para outro como uma presa 
sua. No quero que ningum me confunda com uma de suas amantes, Cage.
       Por qu? Porque no presto? No quer que a vinculem ao filho transviado do pastor, ao maluco que ningum consegue controlar, ao homem que sempre est metido 
em confuso, que sempre tem problemas, que sempre se envolve com a mulher errada?
      Avanou sobre ela com uma postura agressiva, selvagem. Jenny tentou recuar, mas chocou-se com a cmoda.
       No foi isso que eu quis dizer...
       Foi isso sim!  rosnou Cage.  Pois bem, tem todo o direito de ser cautelosa comigo. Eu no presto mesmo. No devo prestar. Eu sou um lixo.  Estendendo 
a mo, prendeu-lhe a nuca. Crispando os dedos em seus cabelos, puxou-lhe a cabea para trs.  Pode ser que eu tenha trazido muitas mulheres a este quarto, mas nunca 
desejei nenhuma como desejo voc.
      Agarrou-lhe o pulso com a outra mo.
       No!  gritou Jenny ao perceber a sua inteno. Tentou soltar-se, mas ele no deixou. Enlaando-lhe a cintura, puxou-a para junto de si, pressionando o corpo 
no dela, fazendo-a sentir a sua excitao.
       Sentiu como eu a desejo? Faz muito tempo que isso acontece e j estou cansado de ocultar esse fato. E agora? Est com medo? Passando mal? Com nojo de mim? 
Quer fugir? Gritar? Ou prefere voltar  segurana da casa paroquial?  Baixando-lhe a mo, forou-a a apalpar sua rija virilidade.  Sinta Jenny. Sinta. Veja o meu 
estado.
      Agarrando-a de sbito, beijou-a com descontrolada voracidade. Desatadas as emoes todas, esmagou-lhe os lbios com os seus. Mergulhou profundamente a lngua 
em sua boca, depois recuou, mas tornou a invadi-la com sofreguido, repetidamente, num movimento que evocava a cpula.
      A seguir, com a mesma fria com que a sujeitara, soltou-a. Afastando-se precipitadamente, saiu e bateu a porta com rudo.
      Jenny foi tropegamente para a cama e se deixou cair. Queria negar que estivesse decepcionada porque ele no conclura o que havia comeado. Mas no conseguia. 
Sentia o corpo dbil e mole de desejo. Enfeixando o que lhe restava de fora, ela foi ao banheiro e tirou a roupa. Evitou olhar no espelho, no queria ver a palidez 
de seu rosto nem o tmido rosado de seus seios.
      O chuveiro estava muito quente, chegava a queimar, uma pequena amostra da autoflagelao que ela merecia. Os jatos de gua lhe alfinetaram a pele sem piedade. 
Ainda lhe ardia o corpo quando ela tirou uma camisola da mala e a vestiu. Deitou-se e fechou os olhos, as plpebras apertadas na esperana de tambm vedar a mente.
      Mas o beijo era muito recente para ser removido da memria. O sabor dos lbios de Cage continuava em sua boca, ela ainda sentia o contato daquele sexo rgido 
e palpitante, e recordava a cadncia daquele beijo.
      Quando o telefone tocou junto ao seu ouvido, ela saltou como que atingida por um raio.
       Al!
       Me perdoe.
      Nenhum dos dois falou durante um longo momento; Os seios de Jenny tremeram de emoo sob a camisola fina. Ela prendeu o fone entre a cabea e o ombro.
       Tudo bem.
       Eu perdi a cabea.
       Eu o provoquei.
       Ns tivemos um dia difcil.
       Estamos muito sensveis.
       Eu a machuquei?
       No, claro que no me machucou.
       Fui grosseiro.  Ele baixou a voz.  Estpido. 
      Jenny olhou para a prpria mo, talvez  procura de um sinal. Engoliu em seco.
       Eu vou sobreviver.
       Jenny.
       Qu?
      Houve uma longa pausa.
       Eu no estou pedindo desculpas porque a beijei, e sim pelo modo como a beijei.  Esperou um momento.  E, se existia alguma dvida quanto ao que sinto por 
voc, agora no  mais segredo.
      Tocada pelo tom gentil, mas imperativo de sua voz, ela sentiu a garganta fechar-se, sentiu vontade de chorar.
       Eu no estou em condies de pensar nisso, Cage. Aconteceu muita mudana em minha vida.
       Eu sei, eu sei. Durma bem. Descanse bastante. O escritrio vai ficar fechado amanh. Eu passarei por a por volta das dez horas. Tomaremos o caf, depois 
vamos fazer compras. Ok?
       Ok.
       Boa noite, Jenny.
       Boa noite, Cage.
       Bom dia, Jenny.
       Hum?
       Eu lhe disse bom-dia.
      Jenny bocejou com o rosto mergulhado no travesseiro, espreguiou-se ao mximo debaixo das cobertas e abriu lentamente os olhos. Ergueu o corpo num sobressalto. 
Cage estava sentado na beira da cama, sorrindo para ela.
       Bem-vinda  terra dos vivos.
       Que horas so?
       Dez e dez. Eu cheguei as dez em ponto, bati na porta, mas voc no atendeu. Fui  recepo, peguei outra chave e entrei.
       Desculpe  pediu ela, afastando os cabelos dos olhos. Corou sob aquele olhar ardente que a examinava com interesse e tapou com o lenol o decote da camisola. 
 Eu estava exausta.
       Est com fome?
       Muita.
       Vou pedir alguma coisa na lanchonete enquanto voc se veste.
      Jogou-lhe um beijo antes de se levantar.
       Eu vou j para l  gritou ela ao v-lo fechar a porta atrs de si.
      Vinte minutos depois, quando foi ter com ele, Jenny estava com aparncia saudvel e descansada. Tinha escolhido uma saia e uma blusa simples, mas prendera 
um leno vistoso na cintura. Os sapatos sem saltos e presos por uma correia estreita nos tornozelos chamaram a ateno de Cage quando ela se aproximou. Sabia que 
ela havia usado o primeiro pagamento para renovar o seu guarda-roupa. Passara a se vestir de maneira mais esportiva e alegre que no tempo em que era noiva de Hal.
       Estou atrasada?
       Acabam de servir a comida. Gostei dos seus sapatos.
       So novos  disse ela distrada, examinando a refeio.  Isso  s para mim?
       Exclusivamente.
       No espera que eu coma tudo, espera?
       Espero sim, senhora. Pode comear.
       Mas voc no vai comer?  perguntou ela, estendendo o guardanapo no colo.
       J comi.
      Ele estava concentrado num bloco de papel onde anotara a longa lista de coisas de que ela ia precisar.
      Jenny ficou olhando para ele fascinada. Havia mil nuanas de castanho, do mais claro ao mais escuro, em seus cabelos, e o conjunto resultava num tom de areia 
que parecia eternamente agitado pelo vento e contrastava com seu rosto bronzeado.
      Cage acabava de fazer a barba e o cheiro bom da loo era mais forte at mesmo que o aroma do caf que a garonete estava servindo. Estava de jeans e com uma 
camisa esporte, mas havia um palet de seda no encosto da cadeira. Era uma estranha combinao, coisa que s podia ocorrer a um homem inclinado a transgredir todas 
as regras.
      Aquele homem era lindo e perigosamente sexy. Ela conhecia bem a dimenso do perigo. Despertava a mulher que havia nela a ponto de Jenny mal se reconhecer. 
Procurou afastar aqueles pensamentos antes de comer o primeiro bocado.
      Quando ela terminou o caf da manh, Cage j havia mapeado o itinerrio do dia.
       No esquea que o meu oramento  modesto  pediu Jenny quando estavam caminhando para o carro, e ele comeou a enumerar as lojas em que fariam compras.
       Pode ser que seu patro lhe d um aumento. 
      Ela parou e o encarou. Empinou o queixo num gesto de teimosia.
       Uma coisa precisa ficar clara, Cage. Eu no vou aceitar a sua caridade.
       Quer se casar comigo?
       No.
       Ento se cale e entre no carro. 
      Abriu a porta da Corvette.
      Era intil discutir. Ela teria de se impor quando chegasse a hora de decidir o que podia e o que no podia comprar. Cage gostava de coisas caras, e tudo que 
ele sugeria era exatamente o que ela teria escolhido se no lhe faltasse dinheiro.
       Eu no posso comprar este sof. Aquele outro custa  metade.
       Mas  muito feio.
       E funcional.
       E duro e... sem graa. Este aqui tem almofadas de trinta centmetros de espessura,  to fofo.
       Por isso  caro. No precisa ser to fofo assim. 
      Ele sorriu com malcia e falou com voz curiosamente doce.
       Depende do que pretende fazer no sof.
      O vendedor estava prximo o bastante para ouvir, mas ficou muito srio quando Jenny se voltou e olhou para ele.
       Eu fico com o mais barato  disse com dignidade.
      Tiveram idntica discusso sobre a cama, as poltronas, as cadeiras, a roupa de cama, os pratos, as panelas e at sobre um abridor de latas. Em todos os casos 
ele insistia em que ela comprasse a mercadoria de melhor qualidade e, portanto, mais cara. Jenny obstinou-se em ser econmica.
       Cansada?
      Ela ia com a cabea reclinada no encosto do banco do carro.
       Estou  respondeu com um suspiro.  Nunca mais vou mudar de apartamento. No aguentaria passar por isso novamente.
      Cage riu.
       Mandei entregarem tudo que compramos hoje  tarde. A noitinha, seu apartamento vai estar parecendo um verdadeiro lar doce lar.
       Como conseguiu fazer com que entregassem tudo hoje mesmo?
       Suborno, ameaas, chantagem, todos os recursos.
      Ele abriu um sorriso brincalho, mas Jenny acreditou.
       Olhe um carro igualzinho ao meu!  Ela endireitou o corpo quando pararam em frente ao apartamento.
       E o seu  disse Cage despreocupado, ajudando-a a descer da Corvette.
       Como veio parar aqui?
       Eu mandei busc-lo.  Ele abriu a porta do automvel, abaixou-se e ergueu o tapete, onde pedira ao motorista do guincho que deixasse a chave. Entregou-a 
a ela.  Palavra que  um carrinho muito modesto, mas sei quanto voc gosta dele.
      Jenny ficou contrariada.
       Cage, eu no queria tirar nada da casa dos seus pais.
      Ele colocou as mos na cintura:
       Pelo amor de Deus! H anos que eles lhe deram esse carro de presente. Para que vo precisar de trs automveis, o deles, o de Hal e o seu? Mame raramente 
dirige.
      Ela aproximou-se de Cage e o empurrou para poder entrar no carro.
       Vou lev-lo de volta.
      Ao v-la fechar a porta, Cage se curvou, enfiou o rosto pela janela e disse com voz cantada:
       Ento vou ser o seu nico meio de transporte. 
      Jenny hesitou; depois, capitulando, deitou a cabea no volante.
       Isso  chantagem.
       Eu sei.
      Rindo da situao e de si mesma, ela se deixou conduzir ao apartamento. Roxy tinha cumprido a promessa. As janelas estavam abertas, e o ar fresco removera 
totalmente o cheiro de ambiente fechado.
      Meia hora depois as compras comearam a chegar.
       Oh, deve haver um engano!  exclamou Jenny ao abrir a porta para receber a primeira entrega.
       No h engano algum, madame. Com licena.  O homem passou o enorme charuto de um canto da boca para o outro e roou nela sem querer ao passar carregando 
uma poltrona.  Tragam o sof!  gritou para os ajudantes que acabavam de descer do caminho.
       Mas espere esse mvel no  meu.
        o que est escrito na fatura.
      Colocou a poltrona no cho e lhe entregou um papel verde. Jenny leu rapidamente, depois releu mais devagar.
       Oh, no! Cage, houve um terrvel... 
      Interrompeu-se ao ver o sorriso de satisfao com que ele experimentava o sof de almofadas fofas que havia escolhido, os dois braos estendidos no encosto. 
Parecia um Papai Noel contente na manh de Natal.
       Que voc fez?  interrogou ela.
       A palavra que me ocorre  sabotagem. 
      Era exatamente o termo apropriado. Conforme as peas compradas iam chegando, Jenny se deu conta de que Cage encomendara secretamente as coisas que ela queria, 
mas no tinha dinheiro para comprar.
       Como vou pagar tudo isso?  gritou.
       Em vrias parcelas. O que pagou hoje ficou como entrada. Eu consegui abrir um credirio para voc, com prestaes que esto ao seu alcance. Qual  o problema?
       Eu no posso fazer isso, Cage. Voc esta me obrigando a tomar decises contrrias ao bom senso. Mas isso vai acabar agora mesmo. Eu no fico neste apartamento 
se tiver de comprar estes mveis.
       Tudo bem.  As duas palavras de concesso no vieram acompanhadas de um suspiro nem de um dar de ombros. Pelo contrrio, ele abriu um amplo sorriso, foi 
para a porta e assobiou.  Ei, amigos, ponham tudo no caminho outra vez e levem para a minha casa. Ela resolveu se casar comigo em vez de morar sozinha aqui!
       Oh, meu Deus!  murmurou Jenny, cobrindo o rosto com as mos.  Que maluquice!
      Rindo muito, Cage fechou a porta e se aproximou.
       Voc no tem nada melhor para fazer que ficar me pajeando?
       No consigo imaginar nada melhor.
       Desde que Hal partiu voc tem sido maravilhoso. Por que est fazendo tudo isso para mim, Cage?
      Ele a fitou com seus olhos cor de mel. Afastou com o dedo uma mecha de cabelo que lhe caa na testa.
       Porque gosto da cor dos seus cabelos. Principalmente quando o sol da tarde os ilumina como agora.
      Acercou-se mais. Ela inclinou a cabea naturalmente para trs a fim de continuar olhando para o seu belo rosto.
       E porque gosto dos seus olhos  acrescentou ele. Envolvendo-a nos braos, desatou o leno de seda que Jenny trazia na cintura e, tirando-o lentamente como 
se fosse uma pea mais ntima, deixou-o cair.
      Jenny sentia-se hipnotizada por ele.
       Eu adoro a sua maneira de rir. E o que o seu riso me faz sentir.  Tomou-a pela cintura.  E gosto da forma do seu corpo.  Aproximou o rosto do dela.  
E da forma da sua boca.
      Uma frao de segundo depois, seus lbios se encontraram. Ele mordiscou os dela de leve, repetidamente, at que se entreabrissem, pedindo para ser possudos. 
E, atendendo a essa splica muda, uniu suas bocas. Nada mais havia da violncia do beijo da noite anterior, mas a ternura deste era igualmente poderosa e tambm 
despertou o corpo de Jenny. Movida por uma necessidade de se aproximar ainda mais, ela o abraou com fora e se surpreendeu quando seus corpos se colaram do peito 
aos ps.
       Oh, Jenny  sussurrou ele. Seu hlito era quente e perfumado, aquecia-lhe a face. Seus lbios midos lhe prenderam o lbulo da orelha, provocando-lhe arrepios 
no corpo todo.
      Ela teve a impresso de que estava flutuando sem controle, ao lu, totalmente entregue quele senhor implacvel.
       Cage, a gente no devia...
       Psiu, psiu.
      A memria dela se mobilizou. Parecia se lembrar de alguma coisa...
      Porm, antes que pudesse identificar a esquiva recordao, o beijo de Cage a seduziu completamente, e tudo se perdeu numa bruma.
      Cage lhe ergueu os braos fazendo com que ela envolvesse o seu pescoo. Percorreu-lhe o corpo com as mos, detendo-as em suas axilas, tocando as curvas externas 
de seus seios. Acariciou-os lentamente. Jenny suspirou com a boca colada na dele.
        bom?
      Ela murmurou que sim. O beijo se intensificou.
      Estreitando-a com mais fora, Cage desceu a mo pelas suas costas e, ao encontrar os quadris, pressionou-o de modo que ela sentisse plenamente a urgncia de 
seu desejo.
      Jenny gemeu, febril, latejante, deliciosamente envolvida naqueles braos.
       Eu a quero, Jenny.
      Deslizando a mo, tomou-lhe o seio, apalpando-o com ternura. Com a ponta do dedo mdio, acariciou a protuberncia hipersensvel do mamilo, excitando-o ainda 
mais.
       Ah, que maravilha!  Ele estava encantado com a reao do corpo dela aos seus carinhos.  Eu quero ver, quero sentir o gosto, sentir o seu gosto.
      Inclinou a cabea e lhe beijou o seio por cima da blusa, tocou-lhe o mamilo com a lngua.
       Eu quero fazer amor com voc.  Aproximou a boca de seu pescoo, onde podia lhe tocar a pele clida. Sua voz estava rouca.  Voc entende? Quero ficar com 
voc. Bem junto, abraados.
      Seus lbios reclamaram os dela novamente, com voracidade, com gana.
       Ei, vocs dois, abram essa porta!  Estavam batendo com fora.  Vamos comemorar!
      Cage se separou de Jenny e deixou escapar um feio palavro. Respirou fundo. Olhou para ela e sorriu sem jeito.
       No podemos ser grosseiros com a senhoria.
      Jenny se ps a alisar a roupa. Estava muito corada.
      Cage foi abrir a porta para receber Roxy.
      
      
      
      
   CAPTULO IX
      
      
      
      Roxy entrou com um garrafo de vinho numa mo e uma sacola de supermercado na outra.
       Ei, o que  isso?  perguntou Cage, pegando a sacola para espiar seu contedo.  Chips, pat, pipoca e queijo!
       Foi o que eu disse, vamos comemorar  sorriu a moa com alegria.  E ento, Jenny? Est gostando do apartamento?
       Estou sim,  muito bonito.
       Como ficou lindo!  Roxy assobiou de admirao ao examinar a moblia nova.
      Cage tinha pedido aos carregadores que arrumassem os mveis  medida que os iam trazendo para dentro, mas no sem antes consultar Jenny quanto ao lugar de 
cada um. As peas se ajustavam perfeitamente s dimenses da sala.
       Vocs tm copos?  perguntou Roxy.  Venha, vamos brindar  casa nova.  Sem ser convidada, dirigiu-se  cozinha. Cage a seguiu. Jenny no teve escolha seno 
acompanh-los, muito embora os trs mal coubessem ali.
      Cage abriu as embalagens, embebeu um chip no pat e o ofereceu a Roxy. Rindo muito, ela mordeu um pedao ao mesmo tempo em que tentava desarrolhar o garrafo 
de vinho. O que Roxy no comeu, Cage ps na boca. Depois lambeu os dedos.
      Jenny preferiu ficar no segundo plano, sentia-se fora de seu elemento em meio  diverso dos dois. No estava com humor para festejar nada.
       No  qualquer inquilino que eu recebo assim  disse Roxy a Jenny enquanto tirava a etiqueta dos copos comprados aquela manh e os lavava um a um. Estava 
muito  vontade, parecia no se sentir nada constrangida na cozinha dos outros.
       Mas, como voc  amiga de Cage, e ele  meu amigo... Ai!  grunhiu quando este a agarrou por trs e a abraou com fora, as mos prendendo-a pouco abaixo 
dos volumosos seios.
       Sua sem-vergonha, amigos at debaixo da gua!
       Largue-me, seu louco, e v cortar o queijo. 
      Jenny se sentia demais ali. No pertencia quele grupo. No sabia participar daquele tipo de camaradagem. Roxy dava a impresso de saber exatamente o que dizer 
para que Cage risse. As mos dele pareciam acostumadas a toc-la com frequncia.
      Por que aquela familiaridade a incomodava tanto, Jenny no sabia. Mas, afinal, como esperava que eles se comportassem quando estavam juntos? No eram amantes? 
Ela sabia disso. Mas saber e presenciar eram coisas muito diferentes. Doa-lhe no fundo do corao que, poucos segundos antes de Roxy aparecer, Cage a estivesse 
beijando com tanta ternura, com tanto fervor.
      Ser que ele era capaz de esquecer sua paixo conforme lhe conviesse? Acaso tinha esquecido que a estava beijando e dizendo quanto a desejava? Conseguia transferir 
to depressa o seu afeto de uma mulher para outra? Tudo indicava que sim. A prova de seus desejos de camaleo estavam bem diante de seus olhos.
      Servido o vinho, eles brindaram ao apartamento novo. Jenny tomou um gole da bebida barata. Deixando o copo, pediu licena e, sem saber se tinha sido ouvida 
em meio s gargalhadas dos dois, foi para o banheiro e fechou a porta. Por pouco no vomitou no cho.
       Jenny?  Cage bateu na porta do banheiro alguns momentos depois. Sua voz estava carregada de preocupao. Algum problema?
       Eu j vou sair  gritou ela. Lavou o rosto, bochechou e passou os dedos nos cabelos.
       Est zangada conosco?  perguntou ele no momento em que Jenny abriu a porta.  Eu sei que no gosta de bebida. Esta  a sua casa. No queramos ofend-la.
      Foi nesse momento que ela compreendeu que o amava. Provavelmente sempre o amara. Mas s naquele instante, ao v-lo olhando para ela com ar to constrangido, 
teve certeza de seu sentimento. Passara anos enganando-se a si mesma, tentando se convencer de que, se ficasse longe dele, a atrao que sentia desapareceria. Mas, 
ao contrrio, aquele sentimento ficara aninhado dentro dela como uma ostra na concha, reunindo gros de conhecimento sobre Cage, um olhar, um toque, um som, at 
que seu amor por ele se transformasse numa prola rara incrustada em sua alma. Queria cair em seus braos, sentir a sua fora. Mas no podia. Era absurdo. Jenny 
Fletcher e Cage Hendren? Impossvel. Ela estava grvida de outro homem, o irmo dele. Mesmo que no fosse assim, os dois no combinavam, um no servia para o outro. 
Acaso podiam existir criaturas to diferentes? Era um despropsito pensar em ficarem juntos, em desenvolverem qualquer tipo de relao, em terem um romance, no 
havia a menor esperana. Ah, mas ela o amava!
       No, no  isso, Cage  disse Jenny com um sorriso amarelo.   que no estou me sentindo bem.
      Ele ficou tenso.
       O beb? Algum problema. Est com cibra? Sangramento? Que aconteceu? Quer que chame o mdico?
       No, no.  Ela pousou a mo em seu brao para tranquiliz-lo, mas retirou-a logo.  S estou cansada. Passei o dia todo de p e acho que no aguento mais.
       Eu merecia ser fuzilado  disse ele.  Devia t-la posto na cama no minuto em que chegamos.
       Eu no tinha cama quando chegamos. 
      Ele forou um sorriso.
       Bom, assim que a entregaram voc devia ter ido se deitar.  Tomou-lhe a mo e a conduziu  sala.  Diga boa noite, Roxy. Vamos embora para que madame possa 
dormir.
      Roxy se levantou de um salto do sof novo e olhou detidamente para ela.
       Voc est plida como um fantasma, meu bem  disse, encostando o dorso da mo no rosto de Jenny.  Posso fazer alguma coisa?
      Pode sim, ir embora, Jenny teve vontade de gritar. E trate de ficar longe de Cage. A sua principal doena era o cime. Ela sabia disso, mas no conseguia evitar. 
S queria ver a amante de Cage fora de sua casa.
       No, vou melhorar quando descansar um pouco  disse com diplomacia.
      A despeito de seus protestos, Cage e Roxy arrumaram a nova cama para ela, estendendo os lenis ainda duros de goma.
       Se quiser lavar a roupa de cama amanh para amaci-la um pouco  sugeriu Roxy , eu a ajudarei a levar tudo  lavanderia. Passe l em casa.
       Obrigada  disse ela, plenamente consciente de que nunca na vida pediria um favor a Roxy Clemmons.
      Uma vez arrumada  cama, guardaram os salgadinhos e o vinho. A porta, Cage segurou ambas as mos de Jenny.
       Tranque bem a porta.
       Pode deixar.
       Se precisar de alguma coisa durante a noite, a qualquer hora, v ao apartamento de Roxy e telefone para mim.
       No se preocupe...
       Vou me preocupar com voc quanto eu quiser  atalhou ele.  Amanh o telefone ser instalado aqui.
       Mas eu no mandei...
      Cage pousou o dedo nos lbios dela.
       Eu mandei quando voc estava no toalete depois do almoo. Agora v se deitar e durma um pouco. Boa noite.  Beijou-lhe a boca delicadamente. Passou a lngua 
em seu lbio inferior com tanta suavidade que ela ficou na dvida se era imaginao ou no.  Vamos, Roxy querida. Eu a acompanho at sua casa.
      Jenny fechou a porta. Cage ia levar Roxy para casa. Sem dvida continuariam a festa interrompida. Ela se ps a imaginar os dois juntos, as bocas unidas, os 
corpos entrelaados. Ficou muito tempo deitada na cama nova sem conseguir dormir. Atormentava-a pensar em Cage com Roxy. Em Cage com quem quer que fosse.
      Era muito tarde quando o ouviu ligar o motor da Corvette, ainda estacionada do lado de fora, e partir.
      O dia seguinte era sbado, de modo que no havia pressa para se levantar e ir trabalhar. Jenny tirou a roupa da cama, pois mesmo antes que Roxy o sugerisse, 
tinha decidido lav-las para tirar a goma.
      Ainda de penhoar, preparou uma xcara de caf na cafeteira nova, apenas um de uma centena de itens que ela e Cage haviam comprado no departamento de utilidades 
domsticas no dia anterior.
      Ia levar a xcara  boca quando bateram na porta. Olhando pela janela primeiro, para saber quem era, ela se encostou na parede com desnimo. No estava disposta 
a tolerar Roxy logo de manh.
       Ol  disse ela alegremente quando Jenny abriu uma pequena fresta na porta.  Eu a acordei?
       No.
       timo. Cage me mataria. Escute, eu fiz esta torta. Est uma delcia. Mas  muito grande para mim, queria dividi-la com voc.
      Seria indelicado no convid-la a entrar, de modo que Jenny se fez a um lado, forou um sorriso e disse:
       Entre. Eu acabei de fazer caf.
       Legal!  Roxy colocou o pacote de papel alumnio na mesa de madeira macia e se sentou numa das cadeiras que a acompanhavam.  Voc tem muito bom gosto  
comentou, olhando a sua volta.  Palavra que adorei tudo aqui.
       Obrigada, mas Cage me ajudou a escolher.
       Ele tambm tem muito bom gosto.  Piscou, mas Jenny no soube dizer o que a piscadela significava. Concentrou-se em servir uma xcara de caf para a vizinha. 
 Acar? Leite?
       Puro, com adoante... diz a gorducha enquanto come o bolo  riu-se Roxy, zombando de si mesma. E tratou de desembrulhar a torta.  Voc tem uma faca e dois 
pratinhos?
      Ao receber seu pedao de torta, Jenny disse com delicadeza:
       Deve estar uma delcia.
       Tomara que sim. Eu peguei a receita em uma revista.   Roxy atacou o seu pedao.
      Mais reservada, Jenny provou o doce e achou-o muito gostoso.
       Vai precisar de mim para ajud-la em alguma coisa como levar a roupa para a lavanderia?
       No, obrigada.
       Tem certeza? Tempo  o que no me falta hoje.
       No precisa  disse Jenny.
       Quer outro pedao de torta?
       No, obrigada. Foi muita gentileza sua ter trazido essa delcia.
      Roxy deixou a faca de lado e colocou os antebraos na mesa. Pousou os olhos desconcertantemente cndidos em Jenny.
       Voc no gosta de mim?
      Jenny foi colhida de surpresa. Passara a vida evitando confrontos e mal conseguia acreditar que estava envolvida em um. Abriu a boca para negar da maneira 
mais diplomtica possvel, porm Roxy se adiantou.
       No minta. Eu sei que no gosta de mim e tambm sei por qu. Porque j dormi com Cage.
      A cor que tingiu o rosto de Jenny e os olhos arregalados valeram como uma admisso de culpa. Roxy se encostou na cadeira.
       Pois pode economizar essa hostilidade. Porque, na verdade, eu nunca fui para a cama com Cage. Est surpresa?  perguntou ao ver a incredulidade estampada 
no rosto de Jenny.  Muita gente ficaria. E fique sabendo que no foi por falta de vontade nem de oportunidade. Cage  sedutor, todo mundo sabe. Qualquer mulher 
daria tudo para transar com ele.
      Jenny engoliu em seco.
       Cage lhe contou como nos conhecemos?  quis saber Roxy.
      Jenny sacudiu a cabea.
       Quer saber? Foi num baile, depois de um rodeio. Meu marido... Voc sabe que j fui casada?
      Jenny continuou calada.
       Pois , eu fui. Aquela noite, meu marido estava de pssimo humor porque no tinha conseguido montar um touro e acabou perdendo o dinheiro do prmio para 
outro vaqueiro, e resolveu descontar em mim como era seu costume. Quase me matou aquela vez.
       Ele batia em voc?
      Roxy riu da inocncia de Jenny.
       E como! S que, aquela noite, ele estava muito bbado e exagerou. Cage ouviu os meus gritos no estacionamento onde Todd, esse era o nome dele, tinha me arrastado. 
Cage deu uma surra em meu marido e lhe disse que se ele voltasse a pr as mos em mim apanharia de novo.  Mergulhou o dedo no pedao de torta que estava no prato 
e lambeu o creme.  Fazia anos que era assim. Todd ficava de mau humor, bebia, sentia cime e me batia. Mas eu o amava, sabe? Por outro lado, no tinha mais ningum 
no mundo. E no tinha aonde ir. No tinha dinheiro.
       E os seus pais?
       Minha me morreu quando eu tinha dez anos. Papai era petroleiro. Vivia me arrastando de um campo de petrleo para outro. Quando me casei, aos dezesseis anos, 
ele achou que tinha cumprido o seu ltimo dever de pai e se mandou para o Alasca. Nunca mais tive notcias dele. Acabei ficando nas mos de Todd. Uma noite ele ficou 
to bravo que pensei que fosse me matar. No era a primeira vez que me ameaava de morte, mas naquela ocasio achei que era para valer. Cage tinha me dado o nmero 
de seu telefone. Eu liguei, e ele foi me buscar. Levou-me ao hospital e pagou a conta. Depois disso, eu passei mais de um ms na casa dele. Foi quando comearam 
a dizer que estvamos tendo um caso.  Ela riu.  Eu no tinha condies de atrair homem algum. Estava toda arrebentada. Todd ficou furioso. Acusou-nos de hav-lo 
enganado durante meses, o que no era verdade. Foi para o Mxico e pediu divrcio. Eu achei muito bom. S que fiquei sem nada, no tinha um tosto e no podia continuar 
morando na casa de Cage. Mas ele convenceu uns amigos a montarem uma sociedade e comprar este centro habitacional. E me instalou aqui como administradora. Com direito 
a apartamento e salrio.
      Jenny estava boquiaberta. Lia os jornais, assistia  televiso. Sabia que esse tipo de melodrama acontecia, mas no conhecia ningum que realmente tivesse 
experimentado tal vida.
      Roxy a fitou nos olhos.
       Cage  o melhor amigo que tenho. A primeira pessoa que verdadeiramente cuidou de mim. Eu lhe devo tudo, absolutamente tudo.  Inclinou-se para frente.  
Se esse homem tivesse me pedido que pagasse na cama o que ele fez por mim, eu no hesitaria. E provavelmente teria adorado.  Baixou a voz para dar nfase a suas 
palavras.  Mas isso nunca aconteceu, Jenny. Acho que Cage sempre soube o que eu s vim a descobrir mais tarde. Se tivssemos nos tornado amantes, nossa amizade 
teria terminado, e eu teria sido, a mais prejudicada.  Estendeu a mo e cobriu a de Jenny.  No precisa ter cime de mim.
      As duas passaram um longo momento entreolhando-se, depois Jenny baixou a vista.
       Voc no entendeu. Cage e eu no somos... no temos... quer dizer, no  isso...
       Talvez ainda no  atalhou Roxy. Jenny no teria dvidas sobre o futuro de seu relacionamento com Cage se o houvesse observado na noite anterior, no apartamento 
de Roxy. Fora engraado. Roxy j tinha visto homens em todas as situaes, porm nunca topara com um to apaixonado. Sentado no cho, encostado no sof, ele ficou 
olhando para o nada, com uma expresso estranhssima. Falou em Jenny sem parar, foi preciso que Roxy o sacudisse e o mandasse embora, dizendo que estava morrendo 
de sono e que se ouvisse uma vez mais o nome de Jenny seria capaz de vomitar.
      Para mudar de assunto e desculpar-se, Jenny disse:
       Eu fui to grosseira com voc!
       Ora  disse a outra, dispensando as desculpas com um gesto , deixe para l. Eu j estou acostumada a ser tratada aos pontaps, como uma "mulher perdida".
       Eu gosto de voc  declarou Jenny de sbito, percebendo que era verdade. Com Roxy, qualquer um sabia onde estava. Ela nada tinha de hipcrita. No fingia 
e no deixava que fingissem na sua frente.
       Muito bem  disse ela, como se tivessem chegado a um acordo aps dias e dias de debate.  Agora coma mais desta torta antes que eu acabe com ela. Voc, com 
esse corpinho, pode se fartar. Eu, com este traseiro enorme, nem tanto.
      Rindo, Jenny se serviu de mais um pedao.
       Eu prometi a Cage que comeria bem.
       Ele est preocupado com o beb.
       Est?  Ela tentou se mostrar indiferente, mas no conseguiu.
      Roxy sorriu.
       Acha voc delicada demais para carregar um beb na barriga. Eu fiz o que pude para convenc-lo de que a sua gravidez ser das mais tranqilas.
       Eu no estou preocupada comigo. O que me preocupa  o beb, tenho medo de que as pessoas o punam por alguma coisa que eu fiz.
       Esquea as pessoas.
        o que Cage diz.
       E com razo. Voc no est contente com o beb?
       Claro que sim. Muito  confirmou Jenny, os olhos brilhando.
       Com o amor da me e do tio Cage, ele no ter problemas.
       Voc no tem filhos?
      O sorriso de Roxy desapareceu.
       No. Sempre quis ter, mas Todd... ele me machucou uma vez, sabe? Eu precisei ser operada, tiraram tudo.
       Oh, meu Deus, que coisa horrvel!  exclamou Jenny em voz baixa.
      Roxy deu de ombros.
       Ora, j estou muito velha para pensar em ter filhos, e Gary diz que no se incomoda com isso.
       Gary?
       O meu namorado. Foi Cage que nos apresentou. Ele trabalha na companhia telefnica. Alis, deve estar chegando para instalar o seu telefone.
       A julgar pela descrio de Roxy, Jenny esperava que Gary fosse um daqueles bonites que apareciam na capa de Playgirl. No era. Tinha orelhas enormes, nariz 
comprido, um sorriso dentuo, mas seu rosto irradiava energia e bom humor. Poucos minutos aps a sua chegada, ficou claro que ele e Roxy estavam perdidamente apaixonados.
       Eu queria ter vindo  festinha de ontem para tambm lhe dar as boas-vindas  disse Gary, apertando a mo de Jenny , mas tive de atender uma emergncia. 
Onde quer que instale os telefones?
       Os telefones? Como assim?
       So trs.
       Trs?
       Foi o que Cage encomendou. Eu sugiro um no quarto, um na sala e outro na cozinha.
       Mas...                                                             I
        melhor aceitar, Jenny  disse Roxy.  Foi Cage que encomendou.                                    
       Oh, est bem.
      Enquanto Gary se encarregava da instalao dos aparelhos, Roxy ajudou Jenny a arrumar a cozinha. Depois, lavaram a roupa de cama e as toalhas, dobraram-nas 
e as guardaram. Falavam sem parar. Por volta de meio-dia, Jenny tinha a impresso de que conhecia aquela moa desde menina. Apesar de terem histrias to diferentes, 
era enorme a afinidade que as unia.
       Algum est com fome?  Cage enfiou a cabea pela porta que Gary deixara entreaberta numa de suas viagens at o furgo.
      Jenny ficara to aliviada de saber que ele e Roxy nunca tinham sido amantes que, ao ouvir a sua voz, voltou-se com um sorriso encantador nos lbios. E correu 
ao seu encontro, mas se deteve quando faltava pouqussimo para cair em seus braos.
       Ei, no pare a!  protestou ele com um sorriso.
      Ela venceu a pequena distncia que os separava e o abraou, chegando at a enfiar as mos por baixo de sua jaqueta de brim.
       Ol, querida.  Cage lhe examinou o rosto com olhos interessados.  Conte o que eu fiz para merecer esta recepo. Vou passar o resto da vida fazendo a mesma 
coisa.
       Pois saiba que estou zangada com voc.
       Continue zangada. Eu estou gostando muito. Abrace-me outra vez.
       Uma vez basta.
       Mas estou com as mos cheias, no posso retribuir o abrao. Voc tem de me abraar por mim.
      Era um absurdo, mas, no estado de esprito em que se encontrava, aquilo fazia um sentido perfeito para Jenny. Ela o envolveu novamente e inclinou a cabea 
para fit-lo.
       Por que est zangada comigo?
       Que vou fazer com trs telefones?
       Andar menos.  Ele a beijou rapidamente.
       Mas voc ficou contente ao me ver. Confesse. Eu quero saber por qu.
       Porque voc trouxe comida  ela disfarou, apontando para os sacos de papel que Cage tinha nas mos.
       Gosta de hambrguer?
       Acebolado?
       Acebolado.
       Adoro.
      Os quatro almoaram alegre e ruidosamente.
       Aposto que vocs planejaram tudo  disse Roxy desconfiada, mordendo uma batata frita.
       Eu no planejei nada  defendeu-se Cage.
       Voc planejou alguma coisa, Gary?
       Eu no  respondeu o outro, lambendo os dedos.  Quer me passar o catchup, por favor?
       Roxy e eu podamos ter planejado outra coisa para o almoo  disse Jenny, afetando superioridade.
      Cage riu satisfeito porque ela estava se sentindo  vontade com os gracejos de seus amigos.
        que partimos do princpio de que vocs no planejariam nada.
       Verdade? Acho bom no terem tanta certeza assim a nosso respeito, no  mesmo, Jenny?
       Exatamente.
      Ela ia morder o sanduche naquele momento, mas Cage se inclinou e lhe beijou a boca com ternura.
      Jenny no se lembrava de haver se sentido mais feliz nem mais livre na vida. Embora grvida, tinha a impresso de no pesar mais de cinqenta quilos. Tinha 
deixado a casa paroquial no passado qual uma pele velha. Todo o seu ser respirava vida nova. Nem por isso ela negligenciava as responsabilidades para com a igreja. 
Frequentava-a regularmente, e Cage a acompanhava. Sentavam-se numa das ultimas fileiras e raramente viam Bob, a no ser no plpito. Este, por sua vez, se sabia que 
eles se achavam l, no dava sinal. No viam Sarah em seu lugar habitual, na segunda fileira.
      Ela e Cage tinham perfeita conscincia dos olhares furtivos que lhes endereavam e sabiam dos cochichos a suas costas, mesmo assim faziam questo de conversar 
educadamente com todos. Com Cage a seu lado, era fcil para Jenny manter a cabea erguida e caminhar segura de si.
      Ela se comprometeu mais com o trabalho no escritrio. Passou no s a atender o telefone e redigir a correspondncia como tambm a cuidar do arquivo e das 
pesquisas, coisa de que Cage no a havia encarregado.
       Voc vai ficar exausta  disse ele um dia, quando passou por l para tomar uma providncia qualquer e a encontrou trabalhando ainda.
       Que horas so?
       Quase cinco e meia.
       Isto aqui  to interessante. Eu perdi a noo do tempo.
       No pense que vou lhe pagar horas extras.
       Eu lhe devo muitas horas de trabalho. Fui ao mdico no meu horrio de almoo.
       Voc tem uma hora e meia de almoo.
       Mesmo assim. Eu sei que estou devendo horas de trabalho, portanto deixe acabar essa tarefa.
       Voc est ficando muito mandona, Srta. Fletcher. Se no tomar jeito, vou desistir de me casar com voc e comear a procurar uma garota mais obediente e que 
me trate com o respeito que mereo.
      Ela dobrou o mapa que tinha nas mos.
       Se o tratarem com o respeito que merece, vai se transformar num capacho.
       Hum, no deixa de ser... interessante. 
      Cage foi at onde ela estava junto ao armrio de arquivo, envolveu-a pelas costas e aproximou os lbios de sua nuca.
       No diga que est se tornando sadomasoquista.
       Sadomasoquista?  Ele riu, afastando os lbios de sua nuca, porm mantendo-a aprisionada entre os braos.  Que voc sabe sobre o sado-masoquismo?
       Muita coisa. Roxy tem um livro que d instrues passo a passo.
       Roxy a est desencaminhando. Eu no devia t-la confiado a ela. No leia mais nenhum livro dela.
       No tenha medo. No vou me envolver com nada que inclua chicotes e algemas. Deve doer. Por outro lado  ela riu , duvido que uma roupa justa de couro preto 
fique bem no meu corpo agora.
       Eu acho que o seu corpo atual fica bem com qualquer coisa.  lindo.
      Ele desceu as mos por sua barriga, massageou-a com delicadeza, depois continuou at suas coxas por cima da saia. Jenny gemeu e tentou se virar. Ele no a 
impediu, mas o fato de ficarem frente a frente no lhe deu mais liberdade. Na verdade, tornou sua situao ainda mais perigosa.
       Eu preciso ir, Cage.
       Depois.  Ele lhe afastou os cabelos com o nariz e comeou a lhe fazer carinho na orelha com os lbios.
       Est ficando tarde  balbuciou Jenny ao lhe sentir a lngua mida.  Eu j devia estar em casa.
       Depois.
      Falou com os lbios colados nos dela e, quando os fechou, toda a resistncia de Jenny se esfumou. Apoiando-se no armrio de arquivo, Cage pressionou o corpo 
no dela. Repetiu esse movimento vrias vezes, e sempre que sentia o contato de sua masculinidade, Jenny experimentava verdadeiras correntes eltricas no corpo.
      Sem solt-la, Cage a beijou com mais sofreguido.
       Cage, no  protestou ela.
       Por que no?
       Porque no  sadio. 
      Ele colou o corpo no dela.
       Tem certeza?
       No devemos...
      Cage a pressionou novamente contra o armrio, arrancando-lhe um gemido apesar de suas intenes de se manter indiferente.
       No devemos fazer isso aqui, no seu escritrio.
       E na minha casa?
       No.
       No seu apartamento?
       No.
       Onde ento?
       Em lugar nenhum. No devamos estar fazendo isto.
      Ultimamente, toda vez que Cage a beijava, ela se lembrava da noite com Hal. Aqueles beijos evocavam lembranas demasiadamente vivas. Os dois irmos beijavam 
com igual intensidade, suas carcias eram igualmente estimulantes. Mas, por algum motivo, ao reagir aos beijos de Cage, Jenny sentia que estava traindo Hal. Acaso 
tremera nos braos do noivo do mesmo modo que tremia quando Cage a tocava?
       Jenny, por favor. 
       No.
       Eu no aguento mais. No fico com uma mulher desde...  Conteve-se antes de dizer "Desde que fiz amor com voc". Preferiu mudar a frase.  H muito tempo.
       Por culpa de quem?
       Sua. Eu no quero dormir com ningum. S com voc.
       V procurar uma de suas amantes. Tenho certeza de que no vai faltar quem queira lhe fazer a gentileza.  Jenny era capaz de morrer se ele fizesse isso. 
Diariamente sofria muito, perguntando-se quando Cage se cansaria de passar tanto tempo em brancas nuvens em sua companhia.  Ou ento v tomar um pouco de ar fresco.
       Convide-me para passar a noite em sua casa.
       No.
       Faz mais de vinte dias que se mudou para l e s me convidou duas vezes.
       E foi demais. Voc fica at tarde e no se comporta como devia.  Ela no ia aguentar se ele continuasse beijando-lhe o pescoo daquele jeito. Era to gostoso! 
 As pessoas nos vem juntos por a e j esto comeando a falar.
       De que outra coisa elas poderiam falar se a temporada de futebol ainda no comeou.
       Voc no entende? Quando souberem que estou grvida, vo pensar que...  ela preferiu no concluir a frase.
      Cage continuou roando os lbios em sua orelha.
       Vo pensar o qu?
       Que o beb  seu  respondeu Jenny com os olhos pregados em seu colarinho, incapaz de fit-lo nos olhos.
       E seria to terrvel assim?  A voz lhe saiu grave carregada de emoo como a dela.
       No quero que o acusem de uma coisa que no fez.
       Eu no consideraria isso uma acusao. E no me importaria nem um pouco de assumir a paternidade do beb.
       Mas seria errado, Cage.
       J me culparam de tanta coisa que no fiz. As pessoas inventam o que querem. E, quando confundem os fatos, no h o que as faa mudar de opinio.
       Duvido.
       Voc no acreditava que Roxy era minha amante?
       No!
       Voc no sabe mentir, Jenny  ele riu.
       Chegou at a dizer que ela era um de meus casos mais constantes. Pensou que tnhamos um caso. Foi por isso que ficou to mal-humorada aquela noite em que 
eu a tirei do nibus.
       Se fiquei mal-humorada foi porque eu no estou acostumada a ser perseguida por um manaco que tem a coragem de parar um nibus no meio da estrada e tirar 
uma pessoa l de dentro!
      A irritao dela o encantava.
       Muito bem, voc  esperta.  Cage lhe beijou a ponta do nariz.  Mas no pense que vai escapar mudando de assunto. Confesse que achava que Roxy e eu tnhamos 
um caso.
       E da? A culpa  minha?  defendeu-se ela.
       Voc no pra de passar a mo nela. 
      Ele lhe acariciou o corpo.
       Eu tambm no consigo parar de passar a mo em voc, mas isso no significa que estamos dormindo juntos.
      Ela se sentiu lisonjeada.
       Fato que me leva ao comeo da conversa. Voc no devia ficar passando a mo em mim o tempo todo.  Sua voz carecia de convico aos seus prprios ouvidos.
       No gosta que eu passe a mo em voc? 
      Quem no gostaria? Quem no adoraria sentir aqueles polegares roando de leve a parte inferior de seus seios enquanto os outros dedos se alinhavam em suas 
costelas?
       Eu adoro toc-la  sussurrou ele, estreitando-a para um novo beijo impossvel de resistir.  Convide-me para jantar, Jenny. Que mal h em jantar na sua casa?
       Porque quando Cage Hendren vai jantar na casa de uma mulher,  evidente que acaba dormindo com ela.
      Suas bocas continuavam juntas em midas carcias.
       Isso  boato.
       Todo boato tem um fundo de verdade.
       Ok, eu confesso. Quero passar uma noite sozinho com voc. Ficar abraadinho, beijando-a... Que h de mal nisso?
       Tudo.
       Muito bem  suspirou ele.  Eu pedi com educao, mas voc prefere jogar pesado. No vou deix-la sair daqui enquanto no me convidar para jantar em seu 
apartamento. E posso muito bem ficar aqui, beijando-a, at o dia do Juzo Final. O nico problema  que estou ficando excitado.  Aproximou-se ainda mais dela, seus 
quadris se colaram.  Em breve, os beijos no bastaro. Eu vou ser obrigado a desabotoar os botes da sua blusa. J os contei. So exatamente quatro. No demoraria 
mais que trs segundos, trs segundos e meio no mximo. Ento eu saberia se o seu suti  roxo ou azul. J sei que  transparente, mas no consegui descobrir a cor. 
E depois...
      Ela o empurrou. Apesar do sorriso diablico, Cage falou como um bom menino que acabava de tirar as melhores notas na escola.
       Eu tenho a noite de sexta-feira completamente livre.
       No apele, Cage  disse ela com sarcasmo.
       Jenny, o que estou pedindo  to pouco. Apenas um jantar!
       Oh, voc  um monstro.  Tornou a empurr-lo e pegou a bolsa.  Est me chantageando de novo, mas tudo bem, venha s sete horas.
       s seis.
      Jenny o fuzilou com o olhar e caminhou rapidamente para a porta.
       Jenny. 
      Ela se voltou.
       De que cor  o seu suti?
       S eu sei  respondeu ela e girou a maaneta.
       E eu vou descobrir  retrucou Cage com um sorriso.
      
      
      
      
   CAPTULO X
      
      
      
      Jenny segurou a barriga na esperana de conter o formigamento. Umedeceu os lbios. Passou a mo nos cabelos. Respirou fundo e abriu a porta.
      Cage estava na soleira: cala social marrom, camisa bege e uma jaqueta de antlope. O conjunto combinava perfeitamente com seus cabelos claros e a pele bronzeada. 
Era bvio que havia se penteado, porm, como de hbito, o vento lhe desfizera os cabelos. Parecia estar saindo da cama ou do banho. Era o que insinuava sua expresso. 
Ele fitou Jenny com os olhos ansiosos. Seu rosto se iluminou com um sorriso.
       Ol  disse ela timidamente.
       Podemos ir direto  sobremesa?  perguntou Cage com voz rouca.  Eu dispenso o prato principal.
      Eram ridculas as sensaes que pulsavam em Jenny. Afinal, ela havia passado a manh com Cage no escritrio, atualizando a correspondncia da semana. Os dois 
tinham trabalhado num clima de agradvel camaradagem. De onde vinha quela tenso entre eles? Que estava lhe causando tanta aflio? O ar chegava a estalar de sensualidade, 
e ela sabia que Cage sentia exatamente a mesma coisa. Nas horas de trabalho, at que conseguiam controlar aquelas correntes eltricas. Porm bastava deixarem de 
lado a barreira profissional para que o desejo latente comeasse a crepitar entre os dois, a borbulhar feito gua no fogo.
      Jenny sara do escritrio ao meio-dia, como em todas as sextas-feiras. Mas nem pensou em descansar aquela tarde. Entregou-se de corpo e alma aos preparativos 
da noite. Queria que o jantar, o apartamento e ela mesma estivessem perfeitos.
      A cada hora que passava, sua expectativa crescia, e cresceu at aquele momento. Agora, estando face a face com Cage, tinha a impresso de que estava a ponto 
de desmaiar.
      Jenny reparou no enorme buqu de rosas cor-de-rosa que ele trazia. As longas hastes estavam embrulhadas em papel verde e as flores impregnavam o ar com um 
doce perfume natural.
       So para mim?
       Voc tem uma irm gmea?
       No.
       Ento acho que so para voc mesmo.
      Ao receber as flores, Jenny se afastou para lhe dar passagem. Cage avanou dois passos e parou.
       Mas, o que...
      Olhou a sua volta assombrado. A sala tinha sofrido uma verdadeira metamorfose desde que ele a vira pela ltima vez. Jenny tinha passado os intervalos do almoo 
e as tardes percorrendo as lojas de artigos usados em busca de pequenos enfeites. Com a ajuda de Roxy, transformara o apartamento num lar e estava orgulhosa do resultado. 
Embora j tivesse vinte e seis anos, era a primeira vez na vida em que gozava do privilgio de escolher a decorao de sua prpria casa. Ao contrrio do quarto que 
ocupava na casa paroquial, ali no se via uma renda, uma fita, um babado. Seu gosto, embora simples e elegante, era moderno.
       Gostou?  perguntou ela, torcendo as mos com ansiedade.
       Se eu gostei? Posso mudar para c hoje mesmo. 
      Jenny riu, sabendo que ele no estava sugerindo nada ilcito, apenas elogiando o seu esmero.
       Eu gastei uma fortuna para que um decorador arrumasse a minha casa. Devia t-la contratado. No sabia que tinha esse talento oculto.  Cage a examinou com 
olhos curiosos.  Que outros talentos ocultos voc tem?
      Tomada de uma onda de emoo, Jenny se apressou a mudar de assunto.
       Voc precisava ver Roxy pechinchando as plantas. Ns as compramos de um particular. O homem queria cinquenta dlares. Roxy conseguiu tudo por dez. A seguir, 
telefonou para Gary pedindo que viesse busc-las com a caminhonete antes que o homem mudasse de ideia. Eu tive de, vir na carroceria para que nenhuma planta se machucasse.
       Eu tambm defenderia a minha orqudea com a prpria vida. No deixaria que se machucasse.
      A expresso dele era angelical demais para no despertar suspeitas. Suas palavras tinham duplo sentido, mas Jenny achou melhor no pedir explicao.
       Veja que beleza essa cadeira vienense. S estava precisando de uma demo de tinta.
       Gostei do que fez naquela parede.
       O tecido estava em oferta no K Mart. Roxy me ajudou a col-lo na parede. Ficou bom, no?
      O resto do tecido, ela havia usado para forrar almofadas para o sof. As cores que escolhera para combinar com a moblia eram serenas e ao mesmo tempo estimulantes: 
vinho, azul-marinho, azul petrleo e bege.
       As velas so cheirosas  disse Cage, apontando para o caprichado arranjo na extremidade da mesa.
       Eu achei os castiais de lato numa loja de antiguidades, uma daquelas lojinhas minsculas na estrada de Pecos. Precisei afastar muitas teias de aranha para 
chegar a eles. Gastei duas latas de um produto limpante e trs noites de trabalho para poli-los.
       Ficou tudo lindo.
       Obrigada  respondeu ela com um trejeito.
       Principalmente voc.
      Cage inclinou subitamente a cabea para beij-la. Jenny esperava um beijo suave, fraternal, no entanto, seus lbios foram imperiosos, sua lngua, ousadssima. 
Passados vrios momentos, ela teve de se afastar para tomar flego.
       Acho melhor pr as flores na gua antes que murchem.
      Caminhou apressadamente para a cozinha e procurou por um vaso digno das rosas. No encontrou nenhum e acabou usando uma jarra de vidro. J fizera um arranjo 
de urzes para enfeitar a mesa, de modo que colocou as rosas na mesinha de centro da sala de estar, pedindo desculpas pela simplicidade do vaso.
       Roupa nova?
         respondeu ela com nervosismo.  Roxy a escolheu e me obrigou a compr-la.
       Que bom.
      A saia longa e a blusa solta eram de seda crua em sua cor natural e diferiam de tudo que ela usara at ento. Na cintura, colocara um largo cinto tranado. 
Estava com os sapatos sem saltos de que Cage gostara. Os cabelos tinham sido presos com calculada negligncia, de modo que algumas mechas escapavam e lhe caam no 
pescoo e na face.
       E uma espcie de roupa de cigana  disse consciente de que estava sendo analisada.  S deixei Roxy me convencer a compr-la porque a blusa  bem larga e 
poderei us-la quando minha barriga crescer.
       Vire-se.
      Ela girou trezentos e sessenta graus e tornou a encar-lo.
       Lindssima. Perfeita  sorriu Cage.  Mas ser que voc est a mesmo? Tanta roupa a esconde.
        claro que estou aqui  disse ela, batendo na prpria barriga.  E j engordei um quilo.
       Que bom! E o mdico que diz? Tudo bem?  Ele juntou as sobrancelhas preocupado.  Voc j est na metade da gravidez, mas a sua barriga ainda no cresceu.
       No cresceu? Voc devia me ver sem roupa.
       Eu adoraria.
      A expresso dele ficou demasiadamente sexy.
       O que eu quero dizer  apressou-se a explicar Jenny   que j estou ficando barrigudinha. O mdico disse que o meu filho est se desenvolvendo bem. Exatamente 
do tamanho que devia estar.
       Filho?
       . O mdico acha que  menino por causa das batidas do corao. Os meninos costumam ter batidas mais lentas que as meninas.
       Ento eu sou atpico  sussurrou Cage.  Meu corao est a mil.
       Por qu?
      Os olhos claros dele a atraam como um m. Jenny se inclinou ligeiramente em sua direo.
        que ainda estou pensando em v-la sem roupa. 
      O impulso de se aproximar de Cage era quase irresistvel, no entanto ela se controlou para no faz-lo. Tratando de afastar-se dele tanto fsica quanto mentalmente, 
voltou-se para a porta vaivm que abria para a cozinha.
       Preciso verificar o jantar.
       Que vamos comer? O aroma est delicioso. 
      Cage empurrou a porta a tempo de v-la curvando-se para verificar o que estava no forno. Sentiu-se mais uma vez atrado por aquele corpo adorvel.
       Lombo de porco, aspargos ao molho branco... Voc gosta de aspargos?  Ele fez que sim e ela se mostrou aliviada.  Batata saute e sorvete de creme.
       Est brincando! Sorvete de creme?
       No, no estou brincando.
      Cage entrou na cozinha. Assim que Jenny fechou o forno, segurou-lhe o brao e fez com que se voltasse e ficasse de frente para ele.
       Tentando me impressionar?
       Por que est perguntando isso?
       Voc teve muito trabalho.  Cage pegou uma mecha de cabelo dela e a enrolou no dedo.  Por que, Jenny?
       Porque gosto de cozinhar.  Ficou como que hipnotizada quando ele levou a mecha de cabelo aos lbios e a beijou ao mesmo tempo em que aproximava o rosto 
perigosamente.  E... e... seus pais no gostavam de novidades. Eu gosto de experimentar novas receitas, mas eles queriam comer sempre a mesma coisa...
      Cage interrompeu a nervosa explicao com um beijo.
       Posso escolher a sobremesa?  perguntou num brando murmrio ao afastar os lbios dos dela.
       No.
       Eu escolho voc: a mulher mais doce que j provei na vida.
      Avanou at encurral-la no balco. Colou o corpo no dela, moldando um no outro de forma to perfeita que no deixava dvida sobre quem era o macho e quem 
era a fmea ali. Segundos depois, Jenny j agarrava as costas dele. O abrao voraz durou at que o cheiro do assado impregnasse o ar da pequena cozinha.
       Cage  murmurou ela sem flego , a carne est queimando.
       No faz mal  ronronou ele, roando os lbios em seu pescoo.
       Faz sim.  Jenny o empurrou.  Tive muito trabalho.
      Suspirou e afastou-se para tirar a comida do forno.
       Posso tirar o palet?
       Est com calor?
      Em resposta, ele ergueu a sobrancelha.
       Pegando fogo, Jenny querida! Pegando fogo! 
      Momentos depois, foi para a mesa em mangas de camisa.
       Deve estar uma delcia  disse ao sentar-se diante dela.
      Jenny o serviu e ficou esperando com ansiedade o veredicto aps a primeira garfada.
       Bem melhor que o que mame faz  sorriu ele.
      Satisfeita, ela tambm sorriu e comeou a comer.
       Voc os tem visto, Cage?
       Quem? Ah, mame e papai? No, pelo menos no conversei com eles. E voc?
       No. Eu me sinto mal por representar um obstculo entre voc e eles.
      Cage riu sem alegria.
       Jenny, o obstculo que h entre ns existe desde que eu estava aprendendo a andar.
       Mas a minha gravidez e a minha mudana piorou tudo. E horrvel. Eu esperava que se aproximassem mais. Eles precisam de voc agora.
      Cage percorreu o apartamento com os olhos.
       Sabe? Eu acho que eles ficariam com cime se vissem o que fez aqui.
       Com cime?
       . Acho que queriam que precisasse deles tanto quando eles precisavam de voc. Mas no precisou. No precisa. Eles temiam lhe dar liberdade porque sabiam 
que voc acabaria descobrindo isso. E fizeram tudo para mant-la presa pela gratido.
       Isso no  justo, Cage. Seus pais no so manipuladores.
       No me entenda mal  disse ele, segurando-lhe a mo um instante.  Eu no estou querendo dizer que fizeram isso conscientemente. Os dois ficariam horrorizados 
de se imaginar to egostas. Mas pense bem, Jenny. J que eu no era o filho que queriam, eles concentraram todas as esperanas e todas as energias em Hal. Felizmente 
ele era o menino perfeito para o que meus pais tinham em mente, por isso o adestraram meticulosamente. Ento voc apareceu. Uma menininha meiga e obediente que seria 
uma nora adorvel.
       Tenho certeza de que no  o que eles pensam agora.
       Eu tambm tenho essa certeza, mas  melhor assim. Voc  livre. Isso no significa que goste menos deles.  Cage sacudiu a cabea.  Coisa que nunca conseguiram 
entender. Eu os amava e queria que eles me amassem. Se tivessem mostrado um pouco de afeio por mim, eu no teria me tornado to insuportvel, no seria necessrio. 
 Fitou-a nos olhos.  Voc se rebelou a sua maneira. Pode ser que desta vez eles consigam entender.
       Tomara que sim. Eu acho horrvel imagin-los sozinhos naquele casaro depois da morte de Hal. Creio que cedo ou tarde, com o nosso apoio ou no, eles conseguiro 
se adaptar  perda.
       E voc, Jenny? Adaptou-se? 
      Terminando de comer, ela colocou os talheres no prato.
       Eu tenho saudade de Hal. Ns ramos muito unidos. Passvamos horas conversando.  No reparou na veia que comeou a pulsar na tmpora de Cage enquanto a 
ouvia.  Ele era um homem doce, incapaz de magoar quem quer que fosse.
       Voc ainda o ama?
      Jenny j nem sabia se o amara alguma vez na vida, mas se calou. Durante anos acreditara que amava Hal. Acaso havia passado todo esse tempo tentando convencer-se 
de que era assim? Por enorme que fosse o afeto que tinha por ele, seus beijos nunca a fizeram sentir o que sentia quando Cage a beijava. O corao dela no flutuava 
no peito cada vez que Hal aparecia. No, Jenny jamais provara aquele desejo, aquela necessidade de entregar-se como sentia por Cage. Era uma ansiedade permanente, 
constante como as batidas de seu corao.
      Por respeito a Hal, no podia discutir com Cage seus sentimentos por ele. Preferiu no dar uma resposta clara.
       Eu sempre vou amar Hal de um modo especial.
      Cage no gostava de rodeios. Jamais se esquivava de um tema, fosse qual fosse, e no toleraria que Jenny o fizesse.
       Se Hal ainda estivesse vivo, voc quereria casar-se com ele? 
      Ela o encarou, mas logo desviou o olhar.
       Ns teramos de pensar no beb...
       E se voc no estivesse grvida?
      Jenny hesitou porque precisava entender o que vivera na cama com Hal. Teria sido apenas um daqueles mgicos cometas de emoo que passam pela vida da gente 
para logo se apagar? Teria sido uma casualidade? Ser que, aquela noite to especial, um e outro estavam emocionados a ponto de perder facilmente a cabea? Ela comeava 
a acreditar que tinha sido assim. Por maravilhoso que tivesse sido, ela agora sabia que sua paixo no se limitava necessariamente a uma nica pessoa. Tinha ficado 
to excitada com os beijos de Cage quanto com Hal aquela noite.
      Ciente de que ele aguardava sua resposta, respondeu em voz baixa:
       No, acho que no. Depois de morar sozinha, percebo que Hal e eu no estvamos destinados a ser marido e mulher. Amigos. Bons amigos. Talvez irmo e irm. 
Mas duvido de que pudesse ser uma boa esposa para Hal.
      Cage tratou de no deixar transparecer o alvio e a alegria que estava sentindo.
       Vou ajud-la a tirar a mesa  disse, levantando-se.
       Voc ainda no comeu a sobremesa.
       Prefiro esperar um pouco para aumentar o prazer.
      Sua inflexo sugeria um significado subentendido, porm, uma vez mais, Jenny achou prefervel no insistir no tema. Os olhos dele mostravam um brilho dourado 
que s parcialmente se devia  luz das velas.
      Conversaram tranquilamente enquanto arrumavam a cozinha. O segundo poo de petrleo jorrara nas terras dos Parsons e j haviam comeado a perfurar o terceiro. 
Cage j estava tentando comprar outra propriedade, na qual tinha certeza de que havia um lenol petrolfero.
      Jenny adorava o entusiasmo com que ele falava em procurar petrleo em terras consideradas improdutivas. Seu sucesso era inegvel, porm no era o dinheiro 
que o motivava. Era o desafio, a jogada no escuro, o flerte com o desastre. Isso o incentivava. Cage dirigia em alta velocidade, mas sabia o que fazia ao volante 
de um carro. Valia-se da mesma ousada habilidade no negcio de perfuraes.
      Serviu o sorvete, lambendo a concha sem a menor cerimnia, enquanto Jenny colocava as xcaras de caf numa bandeja. Foram juntos para a sala de estar.
       No derrube nem uma gota no meu sof novo  ralhou Jenny quando ele levou  boca uma colherada de sorvete.
       Maravilhoso simplesmente maravilhoso!  Cage deixou o sorvete derreter em sua boca.
       Ento  verdade o que dizem?
       O qu?
       Que o caminho do corao de um homem passa pelo estmago.
      Ele estava com a colher virada para baixo na boca, limpando a concavidade com a lngua; puxou-a lentamente para fora, os olhos pregados nos de Jenny.
       No deixa de ser um dos caminhos, mas eu conheo outro bem mais divertido. Quer que mostre?
       Acar ou adoante?  perguntou ela em voz alta, quase estridente.
      Cage riu, sacudindo as mos, enquanto ela o servia.
       Jenny, h anos que faz caf para mim. Sabe muito bem que eu o tomo amargo.
       Esqueci.
       Esqueceu nada. Est at tremendo por causa do que eu disse.
       Foi uma grosseria, um atrevimento.  Jenny no conseguia fit-lo diretamente nos olhos. Estava vermelha como um pimento.
       Voc  um paradoxo  observou ele, encostando-se no sof para tomar o caf. Tinha terminado o sorvete e colocado a tigela vazia na bandeja.
       Um paradoxo?
       Sim. Mesmo estando grvida, fica completamente desarvorada quando se menciona, ainda que superficialmente, o tema sexo.
      O sorvete perdeu subitamente o gosto, e ela se livrou da tigela depois de umas poucas colheradas.
       Voc me acha casta e antiquada, um dinossauro da poca vitoriana tentando sobreviver na era do iluminismo sexual?
       No ponha palavras na minha boca. Eu no quis dizer nada disso. A sua inocncia  um encanto.
       Eu no tenho nada de inocente  murmurou ela, fincando o queixo no peito. Cerrou os olhos e recordou a sua prpria respirao no momento do clmax. Os gemidos 
de prazer ainda lhe ecoavam na mente quando se lembrava de seu corpo desabrochando, explodindo qual uma flor extica de non. E sentiu novamente as costas arqueadas, 
os quadris erguendo-se, os membros trmulos, o corpo inteiro entregue ao mais desenfreado prazer.
       Voc disse que ainda era virgem na noite...
       E era mesmo.
       Nunca tinha feito antes?
       Nunca.
       Nada parecido?
       Nada.
      Cage colocou a xcara de caf na bandeja. Acercou-se dela, pousando o cotovelo dobrado no respaldo do sof. Roou de leve os dedos em sua face.
       Voc devia estar muito motivada quela noite para acabar com a virgindade que havia conservado durante tanto tempo. Muito concentrada em seus pensamentos, 
Jenny levou inconscientemente a mo ao peito. Passou os dedos no decote da blusa.
       Foi como se eu tivesse sado de mim mesma e estivesse observando uma coisa que estava acontecendo com outra pessoa. Despojei-me de todas as minhas inibies. 
Livrei-me das restries que sempre me impunha. Eu estava vivendo unicamente para aquele momento. Tornei-me puramente carnal, no entanto, meu esprito nunca se sentiu 
mais elevado que naquela noite.  Ergueu os olhos para ele feito uma garotinha confusa.  Voc entende o que estou dizendo?
       Entendo perfeitamente.
       Nada que fizemos me pareceu srdido ou errado. Foi lindo. Eu queria amar e ser amada. No bastava verbalizar o nosso amor; era preciso demonstr-lo.
       E Hal estava disposto?
       No princpio no.
      Ele lhe segurou o rosto com ternura.
       Mas voc o convenceu.
        uma maneira delicada de dizer que eu o seduzi.
       Tudo bem, voc o seduziu. E ento? Que aconteceu?
      Jenny sorriu e baixou a cabea timidamente.
       Ento ele se mostrou mais que disposto. Hal nunca tinha ficado assim comigo.
       Assim como?
      Se Jenny estivesse olhando para ele naquele momento, teria visto sua expresso voraz. Fechou os olhos um momento, como para controlar-se, e tratou de escolher 
as palavras. Cage observou a trajetria de sua lngua quando ela umedeceu o lbio inferior antes de prosseguir.
       Sensual, cheio de desejo, um pouco selvagem at.  Ela riu.  No sei como descrever.
       Selvagem? Ele foi bruto com voc?
       No, no  isso que quero dizer.
       Delicado?
       Sim. No meio de tudo isso, Hal foi extremamente delicado, mas... ao mesmo tempo apaixonado...
       Voc ficou com medo quando ele tirou a sua camisola?
      Jenny o fitou intrigada, e Cage teve raiva de si mesmo pelo deslize.
       Quer dizer, voc estava de camisola, no estava?
      Nos ltimos minutos, sua voz doce e rouca a vinha induzindo a um transe, e, como que hipnotizada, Jenny correspondeu a ele. Contudo, a pergunta a arrancou 
do estupor.
       Eu no devia falar com voc sobre isso, Cage.
       Por que no?
       E constrangedor. Por outro lado, no  justo com Hal. Por que quer tanto saber dessa noite?
       Porque sou curioso.
       Ou doente!
       Eu no tenho nada de doente, Jenny. Sou normal.  Cage aproximou o corpo do dela e prendeu-a entre os braos.  S quero saber o que  fazer amor para voc.
       Por qu?  perguntou ela, quase chorando. Cage baixou a cabea, e suas palavras foram doces e enfticos sopros de ar nos lbios de Jenny.
       Porque eu quero fazer amor com voc, mas resiste a cada gesto meu. Quero saber o que a fez mudar de atitude aquela noite. Que a levou a viver unicamente 
para o momento? Que fez o seu amante para que voc se desembaraasse das inibies e das restries que normalmente se impunha? Que foi que a tornou to carnal? 
Em resumo, Jenny, que foi que a transformou de tal modo?
      Ela ficou excitada com aquele tom inquisitivo e com a fora do corpo que a prendia no sof. Seu peito arfou com a respirao acelerada. Seus olhos no conseguiam 
escapar ao eltrico campo magntico dos dele.
       Foi o ambiente que rompeu suas barreiras?  Cage perguntou.  Ele conseguiu criar um cenrio to romntico que voc no foi capaz de se refrear?
      Jenny sacudiu a cabea e respondeu:
       Foi no meu quarto.
       Aquele quarto no era bonito, isso eu sei.
       Estava escuro.
      Cage estendeu o brao atrs dela, quase a cobrindo com o corpo, e apagou o abajur. S ento Jenny reparou que ele havia apagado a luz da cozinha e a luminria 
da mesa. Ficaram mergulhados na penumbra, s a luz das velas a ilumin-los, projetando sombras longas e trmulas nas paredes, as quais realavam os contornos do 
rosto dele.
       Assim?
       No. Totalmente escuro. Eu no conseguia ver nada.
       Nada?  Seus longos dedos lhe alisaram os cabelos e lhe seguraram a cabea, obrigando-a a fit-lo nos olhos.
       Nada.
       No conseguia ver o rosto de seu amante?
       No.
       No teve vontade?
       Tive, tive, tive  gemeu Jenny, tentando virar a cabea. Ele no deixou.
       Ento agora  melhor. Olhe para o rosto do seu amante desta vez, Jenny. Pelo amor de Deus, olhe para mim.
      Ele a beijou com sofreguido, e no era outra coisa que ela esperava. Seus lbios reagiram aos dele com fria possessiva e se entreabriram para receber as 
excitantes carcias de sua lngua. Ela o abraou, cravando os dedos nos msculos rijos de suas costas.
       O que ele lhe disse, Jenny?  Cage lhe cobriu de beijos o rosto e a boca.  Todas as coisas que voc queria e precisava ouvir?
      Enquanto aqueles lbios brincavam com os dela, Jenny se ps a rememorar.
       Ele disse...  Nada lhe ocorreu.  Ele no disse nada.
       Nada?
       No. Acho que suspirou o meu nome... uma vez.
       No lhe contou quanto voc  bonita e desejvel?
       Eu no sou nada disso.
       E sim, meu amor,  sim. To linda!  Cage sussurrou diretamente no ouvido dela, seu hlito era quente e mido.  Voc est vendo o meu estado, Jenny. Como 
pode achar que no  desejvel. Nunca na vida desejei uma mulher como a desejo.
       Cage  gemeu Jenny quando ele finalmente interrompeu o beijo incendirio e lhe lambeu os lbios delicadamente, fazendo ccegas em sua boca.
      Deslizando a mo at sua cintura, desafivelou o cinto. Tocou-lhe o pescoo e acariciou-lhe a nuca com a ponta dos dedos.
       Ele disse que sua pele  macia como seda?  Baixou ainda mais a cabea para lhe afagar o pescoo com o nariz e a boca.  E que o seu perfume  divino?  
Beijou-lhe a curva do ombro, deixando um rastro mido com a lngua.
      Jenny s se deu conta de que sua blusa tinha sido desabotoada quando Cage comeou a despi-la. Escapou-lhe um gemido. Ele a tocou com carinho. Ela fechou os 
olhos e se entregou s sensaes que aqueles dedos e aquelas mos provocavam.
       Ele devia ter dito que seus seios so lindos.
       Beijou-os por cima do suti.  Que seus mamilos so os mais delicados do mundo, os mais doces, os mais perfeitos. Devia ter dito tudo isso, porque  verdade. 
 Em silncio, soltou o fecho do suti e o despiu.  Ah, Jenny, deixe-me am-la.
      E, tomando-a nos braos, beijou-a novamente.
      Ela no sabia que os beijos podiam ser to deliciosos e ao mesmo tempo to hedonistas, que os lbios eram capazes de sugar to ardentemente e sem causar dor, 
que a lngua podia ser to rpida e gil e, contudo, no ter pressa alguma.
      As carcias se prolongaram at que ela se viu  deriva num efervescente oceano de sensaes. Mirades de sentimentos comearam a jorrar em suas terminaes 
nervosas. Ela sabia que era errado reviver com o irmo de Hal a noite de amor que tinham vivido. Mas, fazia tempo que ultrapassara os limites do bom senso e agora 
j no havia como voltar atrs. Era mais uma vtima do charme lendrio de Cage. Jenny Fletcher entraria no rol de suas amantes, mesmo assim, sem saber por que, no 
conseguia deixar de acreditar que aquela noite era diferente tambm para Cage.
       Voc gostou de sentir o corpo dele no seu Jenny?
       Gostei.
       O contato da sua pele?
       Ele no tirou a roupa  confessou ela sem flego, sentindo-lhe a boca nos seios.
       E voc?
       Eu sim, eu fiquei...
       Nua?
       .
       E como foi para voc?
      Jenny recordou o momento em que ficou sem a camisola, o corpo nu e vulnervel  merc de seu amante.
       Eu no senti vergonha. S queria...
       O qu?
       Ora, nada.
       O qu?  insistiu ele. Ergueu a cabea e prendeu os olhos dela com o olhar.  Desabotoe a minha camisa.
      Jenny vacilou s um instante antes de afastar os olhos dos dele e olhar para o primeiro boto da camisa. Viu seus prprios dedos aproximando-se dele automaticamente, 
como que em obedincia a uma ordem inquestionvel. O boto escorregou na casa. Seguiram-se os demais.
      Ela exalou um leve suspiro de splica quando aquele peito se desnudou diante de seus olhos, quando viu os plos claros que se espalhavam nos msculos esculturais 
qual um leque dourado e os mamilos escuros que insistiam em aparecer  meia-luz.
      Seus olhos se encheram de lgrimas. A mscula perfeio de Cage lhe dava vontade de chorar. Ele era belo. Ela agarrou o pano da camisa e a despiu lentamente. 
Passou a mo em sua pele bronzeada e lisa, pontilhada de sardas nos ombros. Acompanhou com o dedo a linha azulada das veias de seu bceps.
      Aos poucos, ele se colocou sobre ela at que o peito se unisse aos seios, a leve aspereza dos plos  maciez, o msculo masculino  suavidade feminina.
       Jenny, Jenny, Jenny...
      Suas bocas se uniram exatamente como seus corpos. Cage se aproximou com cuidado, colocando-se um pouco de lado para que ela no tivesse de suportar todo o 
seu peso. Jenny sentiu o palpitar de seu corao no dele.
      Ele a amava. Era incrvel, mas a amava. E mal podia acreditar que ela finalmente seria dele.
       Viu como foi bom ter comprado o sof mais macio?
       Hum. Era isto que voc tinha em mente quando tentou me convencer a compr-lo?
       Isto e muito mais.
      Beijaram-se com paixo e com erotismo.
       Jenny, vamos para a cama.
       Cage...
       Eu no vou machuc-la. Juro.
       No  isso.
       O que  ento?
       Oh, por favor, no me toque a  murmurou ela.
       No  bom?
       Puxa vida,  bom demais. Por favor, Cage...
       Assim? Aqui?
       .
      Suas bocas se dissolveram uma na outra.
       Toque-me  ele implorou.
       Onde?
       Em qualquer lugar.
      Jenny ps a mo em seu peito. O mamilo se arrepiou ao contato do dedo.
       Eu no aguento mais. Venha para a cama comigo, Jenny.
       No posso.
       Voc no me quer?
      Ela respondeu comprimindo o corpo no rijo volume do dele. Cage entendeu aquilo como um sim. Levantando-se, deu-lhe a mo. Ela a segurou e se deixou conduzir. 
Foram para o quarto.
      A porta da frente vibrou com uma forte batida, seguida de um palavro de Cage.
       Com os diabos!
      Jenny correu at o sof, pegou a blusa, vestiu-a as pressas e comeou a aboto-la. Escondeu o suti debaixo da almofada.
      Cage no se mostrou preocupado com sua aparncia. Com a camisa aberta e fora da cala, foi para a porta e a abriu com violncia.
      Viu Roxy e Gary do lado de fora.
       O prdio pegou fogo?  rosnou Cage.
       No.
       Ento, boa noite.
      Tentou bater a porta na cara deles, porm Roxy a segurou a tempo.
       Mesmo assim,  um caso de vida ou morte. Se Gary no se casar comigo hoje mesmo, eu me mato!
      
      
      
      
   CAPTULO XI
      
      
      
       Casar!  Jenny exclamou, avanando um passo e colocando-se junto a Cage. O assombro lhe removera a inibio. Ela s se lembrou do estado em que se achava 
ao ver os olhos de Roxy brilhando de curiosidade.
       Ns interrompemos alguma coisa importante?  ela perguntou, piscando com cmica inocncia.
      Cage ficou ainda mais carrancudo.
       Desculpe meu velho  murmurou Gary desconcertado.
       Ento sejam breves e sumam daqui.
       Cage, voc no ouviu o que Roxy disse? Eles vo se casar.
       Isso mesmo!  Roxy enlaou o brao de Gary e o apertou nos seios voluptuosos.  Quer dizer, se voc for conosco a El Paso e trouxer de volta o carro de Gary.
       Vocs devem ter perdido o juzo!  exclamou Cage, olhando de um para outro. Ainda estava se recuperando da frustrao.  Vo mesmo se casar?
       Vamos!  exclamou Roxy radiante de entusiasmo.
       Bom, que fantstico. Parabns!  Cage apertou a mo do amigo, depois deu um forte abrao em Roxy.
       Parabns, Gary  sorriu Jenny. E, entrando no esprito da ocasio, abraou-o com fora, coisa que fez as enormes orelhas dele ficarem vermelhas como um tomate. 
Ela abraou Roxy tambm. 
       Quero que sejam muito felizes.
       Eu tambm, menina, eu tambm. Ele  a melhor coisa que j me aconteceu. Eu no o mereo.
       Claro que o merece.  Jenny sorriu novamente, e as duas tornaram a se abraar.
       Agora, que histria  essa de lev-los a El Paso?  quis saber Cage quando as duas mulheres se separaram, enxugando as lgrimas.
       Ns temos reserva no vo do meio-dia de l para Acapulco amanh. Gary  to convencional  provocou Roxy , faz questo de se casar antes da lua-de-mel. 
Por isso estamos indo para El Paso procurar por um juiz de paz. Queremos que v junto para trazer de volta o carro de Gary, caso no se importe de ir nos buscar 
dentro de uma semana. Alm disso, vai ser muito mais divertido se estiver l no momento em que amarrarmos a corda no pescoo.
      Gary sorria tolamente e balanava a cabea, concordando com as explicaes de Roxy. Cage sorriu com satisfao.
       Eu estou nessa! E voc, Jenny?
      Passavam das dez horas. Ela no conseguia imaginar pegar a estrada no meio da noite. No caminho para El Paso s havia areia, erva rala e coelhos.
      Todavia a ideia de fazer uma viagem to impetuosa era instigante e diferente de tudo quanto havia feito na vida. Jenny passara a gostar muito de Roxy e de 
Gary e queria ser testemunha de seu casamento.
       Acho extraordinrio!
      Todos se entregaram a um tumulto de movimentos e tomadas de deciso, que enfim, vinte minutos mais tarde, culminou  porta do apartamento de Roxy.
       Acho que pegamos tudo  gritou ela, erguendo bem alto uma garrafa de champanhe. Trancou a porta depois de se certificar de que o apartamento estava em condies 
de passar uma semana fechado. A bagagem dos dois j tinha sido colocada no porta-malas.  O administrador assistente, o Sr. Burton, vai cuidar de tudo enquanto eu 
estiver fora, Cage  ela explicou ao se sentar no banco da frente, ao lado de Gary.
       No se preocupe. Jenny e eu tambm estaremos por aqui. Concentrem-se em ter uma lua-de-mel inesquecvel.
        o que pretendo  disse Roxy, aconchegando-se a Gary. Tocou-o num lugar to ntimo que o fez saltar no banco, perdendo momentaneamente o controle do automvel.
       Assim no d  sorriu Cage.  Gary no vai conseguir dirigir e ao mesmo tempo se controlar. Vamos parar l em casa e pegar o meu Lincoln. Assim vocs podem 
se divertir no banco traseiro durante todo o caminho para El Paso.
       tima idia!  entusiasmou-se Roxy.  Voc no acha, querido?
      Gary fez que sim.
       Alm disso  acrescentou Jenny com sarcasmo , se Cage estiver dirigindo, vamos chegar l na metade do tempo.
       Sabe de uma coisa, garota, se voc no parar de me gozar, sou obrigado a tomar medidas drsticas para cal-la.
      Cage a agarrou num abrao e a beijou, afastando-se dela s quando pararam diante de sua garagem.
       Tempo!  gritou Roxy como um rbitro interrompendo uma partida.
      Cage resmungou uma obscenidade.
       De qualquer modo ns teramos de parar para respirar, Cage  cochichou ela ao mesmo tempo em que alisava a roupa e arrumava os cabelos.
      Todos acharam o comentrio engraadssimo, e foi s gargalhadas que passaram do carro de Gary para o de Cage. O Lincoln era to antigo quanto a Corvette e 
tambm tinha sido meticulosamente restaurado. Cinza metlico, dava a impresso de ter meio quarteiro de comprimento.
       Fiquem  vontade  sorriu Cage por cima do ombro, voltando-se para o banco traseiro.
        a nossa inteno  respondeu Roxy. E aninhou-se num canto arrastando Gary consigo, que, embora algo inibido, mostrou-se igualmente disposto a aproveitar 
a viagem ao mximo.
      Ao entrar na estrada, Cage vaticinou:
       Duvido que eles digam mais alguma coisa antes de chegarmos a El Paso.  Exatamente nesse momento, ouviu-se um gemido de prazer no banco traseiro.  Bem, 
talvez digam  corrigiu-se, rindo baixinho.
      O Lincoln avanava rapidamente pelo centro da rodovia de duas pistas. Cage ia a cento e quarenta quilmetros por hora ou mais, porm Jenny se sentia segura. 
Podiam ver os faris dos outros veculos a uma grande distncia. Nada havia na paisagem que lhes encobrisse a viso.
       Est gostando?  ele perguntou aps vrios minutos de silncio. Havia sintonizado uma estao FM. A msica suave era interrompida de vez em quando por uma 
voz neutra que mantinha os ouvintes informados da hora e das condies do tempo.
       Hum, estou  suspirou Jenny.
       Com sono?
       No muito.
       Voc est to quieta.
       Pensando.
       Sabe? Mesmo que este carro seja enorme para os padres atuais, no somos obrigados a ocupar todo o banco da frente.
       Como assim?
       Em outras palavras: fique mais perto de mim. 
      Jenny sorriu e escorregou para junto dele.
       Melhorou muito.
      Cage ps o brao em seu ombro e, imediatamente, cobriu-lhe o seio com a mo.
       Cage!  Ela lhe afastou a mo.
       Eu desenvolvi e aperfeioei esta tcnica quando ainda estava no colgio. No venha me dizer que no funciona.
       Comigo no funciona  ela retrucou.
       Nunca funcionou com as boas garotas  resmungou ele.  Mas no custa tentar.  Passou a lhe acariciar o pescoo com os dedos.  Em que voc estava pensando?
      Com toda naturalidade, Jenny pousou a cabea no ombro dele. Ps a mo em sua perna e a deixou ficar.
       Eu nunca fiz uma coisa to maluca.
       Maluca? Ns s estamos viajando. Claro que no  todo dia que duas pessoas obviamente apaixonadas e que vo se casar em breve resolvem viajar no meio da 
noite.
       Eu no disse que vou me casar com voc. 
      Ele fez uma pausa breve e significativa.
       Eu estava me referindo a Roxy e Gary. 
      Jenny ficou mortificada. Retirou imediatamente a mo de sua perna e tentou afastar-se. Cage no permitiu. Segurou-a junto de si apesar da resistncia.
       Fique aqui  sussurrou.  E pare de querer fugir, pois no vou solt-la.  Jenny obedeceu.  Ento voc pensou que eu estava falando de ns dois? Quer dizer 
que somos duas pessoas obviamente apaixonadas? Ns estamos apaixonados um pelo outro, Jenny?
       No sei  murmurou ela, baixando a cabea.
       Eu s posso falar por mim,  claro.  Tirou os olhos da estrada.  Eu a amo, Jenny.
      Ela ergueu a cabea e ficou fascinada com a expresso eloquente de seus olhos. Os dois ficaram um longo momento entreolhando-se, o carro a avanar velozmente 
na rodovia. Por fim, ele voltou  ateno para a pista.
       Eu sei que voc est pensando que eu disse essas palavras a dezenas de mulheres. Bem, disse mesmo. Disse tudo que fosse necessrio para lev-las para a cama. 
Fiz amor com elas porque estava bbado, ou com raiva, ou triste, ou contente. Por todos os motivos que possa imaginar. E houve ocasies em que fiz mesmo sem vontade, 
simplesmente porque fiquei com pena da mulher e sabia que ela estava precisando de carinho. Estive com mulheres bonitas e algumas no to bonitas. Nunca fui de escolher 
muito. Mas eu juro Jenny  voltou o rosto para ela novamente, estava muito srio , que nunca amei ningum. At agora. Voc  a nica mulher que amei. E comeou 
h muito tempo, mas no via nenhum sentido em investir nisso. Todo mundo diria que eu no servia para voc. Voc mesma teria fugido apavorada se eu tivesse me aproximado 
seriamente. Mame e papai morreriam de dio e, alm de tudo, havia Hal, e eu no queria mago-lo.
      Jenny pressionou o rosto banhado de lgrimas no ombro dele.
       Por que est me contando isso agora?
       No acha que j estava na hora de saber?  Abraou-a com mais fora e lhe beijou a testa.
       Voc me ama, Jenny?
       Sim, acho que sim. Quer dizer, eu o amo, sei que amo, mas estou confusa.
       Confusa?
       At a alguns meses, minha vida estava to bem planejada e organizada, to cuidadosamente controlada! A partir da vspera da viagem de Hal para a Amrica 
Central, nada voltou a ser como antes. Aquela noite me mudou. Eu me tornei diferente, no consigo explicar.
      Cage fechou os olhos um momento. Queria lhe contar, queria dizer, "Voc mudou porque ns fizemos amor e foi lindo, os nossos corpos nos contaram uma coisa 
que j sabamos secretamente, mas que preferimos no fazer caso durante anos: voc estava envolvida com o irmo errado".
      Mas no podia lhe dizer isso. Ainda no. Nunca poderia. Era um segredo com o qual ele teria de conviver o resto da vida, mesmo que isso significasse no poder 
reconhecer seu prprio filho. Jenny j tinha sofrido muito, ele no a faria sofrer mais.
       Eu sou como um animal criado no cativeiro que acaba de ser posto em liberdade. Estou experimentando o meu caminho na vida. Aprendendo uma coisa por dia. 
Tem de ser um processo gradual.  Jenny ergueu a cabea e se virou para ele.  No me pea um compromisso, Cage. Tudo  to complicado.  Sua mo estava na perna 
dele novamente, seus dedos se crisparam na carne dura.  S sei que, se voc sasse repentinamente de minha vida, eu no suportaria.
      Cage cobriu a mo dela com a sua.
       Voc sabe o que teria acontecido se Roxy e Gary no nos houvessem interrompido, no sabe?
       Ns teramos feito amor.
       Ainda estaramos fazendo amor.
       O que seria errado.
       Como pode dizer isso se acabamos de admitir que nos amamos?
       H outra pessoa envolvida.
       Hal?
       O filho de Hal  respondeu ela em voz muito baixa.
      Cage ficou muito tempo calado antes de dizer:
       Esse filho tambm  seu, Jenny, uma parte viva de voc. Eu a amo, e tambm amo essa criana. Nada mais simples.
       No  simples.  Ela voltou a deitar a cabea em seu ombro e, depois de alguns momentos, confessou.  Eu queria fazer amor com voc hoje, mas at isso me 
confunde.
       Por qu?
       No sei dizer ao certo.  voc que quero ou apenas outra noite de amor como a que tive com Hal? Pode parecer horrvel e srdido, eu sei, mas, quando se trata 
de fazer amor, no consigo separar vocs dois em minha mente.
      Cage sentiu uma pontada no corao.
       Vai ser maravilhoso conosco. Eu prometo. Vai ser exatamente como voc quer que seja. Mas, j que a tenho, nunca mais vou deix-la partir.  J havia desistido 
dela em favor de Hal. No estava disposto a desistir novamente.  Esteja segura de poder assumir um compromisso antes de fazer amor comigo.
      Jenny sorriu para ele, um sorriso tmido e sexy que lhe fez o corao saltar no peito. Mas, em vez de apertar mais o acelerador, Cage pisou no freio e parou 
o carro no acostamento.
       Por que estamos parando?  perguntou Gary atordoado no banco traseiro.
       Eu estou com fome  respondeu Cage.
       Como consegue pensar em comida numa hora destas?  queixou-se Roxy.
       Eu no estou pensando em comida.  Cage puxou Jenny para junto de si e a beijou.
      Demorou bastante para que o Lincoln retomasse a viagem.
       Eu achei extremamente romntico  disse Jenny, tentando inutilmente cobrir com a mo um enorme bocejo.
       Pois, na minha opinio, ns fomos o grupo mais esquisito que j apareceu por aqui  comentou Cage.  Se eu fosse o juiz de paz, teria trancado a porta.
      Haviam tirado da cama o funcionrio pblico, que, embora sonolento, concordara em celebrar a cerimnia de casamento. Deixaram os noivos num hotel, onde passariam 
algumas horas antes de ir para o aeroporto. Depois de tomar diversas xcaras de caf numa lanchonete vinte e quatro horas e de reabastecer o Lincoln, Cage iniciou 
a viagem de volta.
       Ns podamos ter alugado um quarto e dormido algumas horas  disse a Jenny.
       No, eu estou to animada! Acho melhor fazer logo a viagem e depois dormir na minha prpria cama.
      Cage olhou para ela e riu. Em dado momento da noite, Jenny havia capitulado na batalha v de manter os cabelos presos e acabara tirando todos os grampos. As 
mechas castanhas pendiam desalinhadas ao redor de seus ombros. A saia e a blusa novas estavam totalmente amarrotadas.
       Eu devo estar um horror, no?  ela perguntou, adivinhando-lhe os pensamentos.
       Est um encanto. Deite-se e durma um pouco  disse Cage, dando um tapa na prpria perna para que Jenny nela pousasse a cabea.
       Tenho medo de que voc cochile se eu no lhe fizer companhia.
       No se preocupe, no vou cochilar. Tomei muito caf. Alm disso, estou acostumado a estas excurses noturnas.  Cage fez uma careta para ela e riu.  Venha.
       Tem certeza?
       Absoluta.
      Ela se deitou de lado, esticando o corpo tanto quanto possvel, e pousou a cabea na perna dele. Fechando os olhos, respirou fundo.
       Que gostoso.
      De olho na estrada, Cage puxou-lhe a blusa e se ps a massagear suas costas. Jenny suspirou.
       Voc est me mimando.
       O prazer  todo meu.
      A pele dela era suavssima e quente. Ele ficou passando a mo em sua espinha de cima para baixo, de baixo para cima, apertando-lhe os msculos para tirar o 
cansao e a tenso. s vezes lhe acariciava as costelas e a barriga. Abaixo de seu brao erguido, encontrou a maciez do seio.
       Cage...
       Calma  disse ele em voz baixa. Era to gostoso, Jenny voltou a relaxar.
       Onde est o seu suti?
       Eu tive de escond-lo debaixo da almofada do sof quando voc foi abrir a porta.  Cage riu, e ela sorriu com os lbios colados no tecido de sua cala.  
No tive tempo de recoloc-lo antes de partirmos.
       Ainda bem  sussurrou ele, e as carcias que fazia ecoaram suas palavras.
       Eu que o diga.
      Cage no tinha inteno de excit-la, queria apenas agradar. Estava com o corao cheio de amor, sentia-se feliz porque ela agora confiava nele a ponto de 
permitir aquele tipo de familiaridade. Poucos minutos depois, percebeu pela respirao regular que Jenny havia adormecido. Vencido pela tentao, passou os dedos 
em seu mamilo. Embora muito leve, o toque provocou uma reao instantnea mesmo durante o sono. Jenny se mexeu, mudou de posio e esfregou o rosto em seu colo, 
depois se acomodou e voltou a ficar imvel. Cage cerrou os dentes numa verdadeira agonia de prazer.
       Jenny  sussurrou a si mesmo , com uma coisa voc no precisa se preocupar. Enquanto sua cabea estiver no meu colo, no h perigo de eu pegar no sono.
      E o automvel seguiu avanando no cinzento do amanhecer.
       Onde ns estamos?  Jenny se sentou e piscou ante a luz do sol. Flexionou o pescoo e espreguiou.
       Em casa. Quer dizer, quase. Voc deve estar com fome. Eu estou morrendo.
      Pelo pra-brisa marcado de insetos esmagados, ela viu que se encontravam no mesmo hotel de beira de estrada, na periferia de La Bota, em que Cage a havia deixado 
na primeira noite. Ele havia estacionado em frente  lanchonete.
       Eu no posso entrar a com esta cara!  exclamou ela.
       Bobagem. Voc est linda.
      Abriu a porta do carro e, depois de parar para arquear as costas e espreguiar-se, contornou-o e foi para o lado de Jenny, que se entregara ao esforo intil 
de alisar a roupa e ajeitar os cabelos.
       Eu estou horrorosa  disse quando Cage lhe tomou o brao e a ajudou a descer. Vacilou e se agarrou a ele.  Oh, meu p dormiu. Voc vai ter de me carregar.
       No faz mal  ronronou ele em seu ouvido.  Mas voc precisa saber que eu tomei certas liberdades quando voc estava dormindo.
       Voc  bem capaz disso.  Jenny tentou fingir-se zangada, mas o brilho dos olhos a denunciou.
       Ei, o que  isso?  Alguma coisa lhe havia chamado a ateno  luz do sol matinal. Cage estendeu a mo atrs do banco dianteiro e pegou uma garrafa de champanhe 
fechada.  Puxa, veja s. Esquecemos de brindar com eles.
      Com um muxoxo, Jenny pegou a garrafa.
       Vamos guard-la para depois do caf.
       Caramba, eu criei um monstro! Voc vai ser uma mulher com gostos caros. Eu devia t-la acostumado  cerveja.
      Grogues e cansados, subiram tropegamente os degraus rumo  porta da lanchonete. Cage a abriu bem no momento em que outro casal ia saindo.
      Bob e Sarah Hendren.
      Era uma tradio deles tomar o caf da manh fora todo sbado. Desde que os filhos aprenderam a cuidar de si mesmos, os Hendren se permitiam essas duas horas 
semanais de solido. As exigncias da profisso de Bob deixava-lhes pouco tempo, de modo que eles encaravam toda manh de sbado como uma ocasio especial e passavam 
a semana planejando aonde iriam, procurando sempre escolher um restaurante diferente.
      O casal se deteve estarrecido ao ver o estado da roupa de Jenny  barba por fazer de Cage. A tentativa de passar a mo nos cabelos s serviu para chamar a 
ateno para quanto se achavam embaraados. Seus lbios estavam naturalmente pintados pelos beijos apaixonados da noite anterior. A maquiagem ficara borrada durante 
o sono. Se olhassem com mais ateno, os dois velhos teriam notado a mancha na cala de Cage. Mas sua ateno estava concentrada principalmente em Jenny, que sofrer 
uma enorme metamorfose desde que a tinham visto pela ltima vez e que, agora, abraava inconscientemente uma garrafa de champanhe.
       Ol, mame, ol, papai.  Cage foi o primeiro a romper o tenso silncio. Pensou em tirar o brao da cintura de Jenny para aliviar o constrangimento do momento, 
mas temeu que ela no conseguisse ficar de p por si s. Acabava de tropear.
       Bom dia  cumprimentou Bob com uma evidente falta de civilidade.
      Sarah no disse nada, continuou olhando fixamente para Jenny. As duas no tinham estado face a face desde a cena terrvel, na casa paroquial, em que Sarah 
a acusara de haver seduzido Hal. A expresso dura desta ltima mostrava que continuava achando que tinha razo em acus-la.
       Sarah, Bob  disse Jenny com voz de splica , no  o que parece. Ns... Cage e eu fomos... Fomos levar...
      Cage interferiu para ajud-la.
       Ns fomos levar a El Paso um casal amigo que ia se casar. Fomos e voltamos. Viajamos a noite inteira e acabamos de chegar.  Tentava enfatizar que no tinham 
dormido juntos, muito embora agora achasse que seria bem melhor se tivessem. Pelo menos Bob e Sarah no ficariam sabendo e aquela cena que, ele j previa, tendia 
a se tornar ainda mais desagradvel, teria sido evitada.
      Jenny riu um riso nervoso, como se acabasse de ser presa e acusada de um crime hediondo e no soubesse se si tratava de uma brincadeira ou no.
       O champanhe era para o casamento. Mas esquecemos de tom-lo. Est vendo? Nem o abrimos. Agora ns estvamos brincando e...
       Voc no precisa lhes dar explicao alguma  disparou Cage irritado.
      No estava zangado com Jenny. Sabia do seu constrangimento e daria tudo para poup-la de tal situao. Mas estava furioso com a atitude julgadora de seus pais, 
com o fato de haverem chegado precipitadamente    concluso  errada.
      No podia culp-los por pensarem o pior dele, mas ser que no podiam conceder a Jenny o benefcio da dvida?
       Voc era uma filha para mim  disse Sarah com voz trmula. Estava com os olhos cheios de lgrimas. Tentou refre-las piscando e apertando os lbios.
       Ainda sou  gemeu Jenny com meiguice na voz.  Quero ser. Eu os amo e sinto saudade.
       Saudade de ns?  O tom rude de Sarah rejeitou a idia.  J sabemos de seu apartamento novo. Voc no se deu ao trabalho de nos dar seu endereo, muito 
menos de vir nos visitar.
       Eu achei que no queriam me ver.
       Voc nos esqueceu to depressa quanto esqueceu Hal  acusou Sarah.
       Eu nunca vou esquecer Hal. Como poderia? Eu o amava. E estou esperando um filho dele.
      O lembrete falado com delicadeza rompeu o dique das lgrimas de Sarah, que se ps a soluar nos braos de Bob.
       Ela est transtornada  disse Bob com voz calma.  Sente muita saudade de voc, Jenny. Eu sei que no recebemos bem a notcia de sua gravidez, mas tivemos 
tempo de pensar melhor. Ns queremos participar da vida do nosso neto. Hoje mesmo falamos em telefonar para voc e fazer as pazes. E nosso dever cristo manter a 
famlia intacta. Eu no poderia dar o exemplo, que devo dar se no resolvesse o que h entre ns.  O pastor olhou para Cage, para o acusador champanhe, para o quadro 
escandaloso que os dois formavam.  Mas agora, vendo-os assim, eu no sei.  Sacudiu a cabea com tristeza e se voltou, abraando e protegendo Sarah, que no parava 
de chorar.
       Oh, por favor  pediu Jenny, dando um passo  frente e estendendo os braos como para toc-los.
       Jenny, no  disse Cage em voz baixa e a puxou para trs.  D tempo ao tempo. Eles precisam pensar sobre isso ainda.
      Levou-a de volta ao automvel sem mais discutir. Decerto Jenny agora no estava em condies de ser vista em pblico. De fato, assim que entrou no carro, ela 
comeou a chorar.
      Tinha a impresso de que para cada passo que avanava na vida acabava retrocedendo dois. Tinha se humilhado e suplicado a Hal que fizesse amor com ela, mesmo 
assim ele partira. Na ausncia do noivo, havia descoberto que no o amava como uma esposa devia amar o marido. Ele morrera, deixando-a com a culpa, como se ela o 
tivesse abandonado, no o contrrio.
      Tentando reorganizar a vida, ela arranjou um emprego, mas logo descobriu que estava grvida. Agora, era uma pria para os entes queridos que desde a adolescncia 
considerava a sua famlia.
      No queria retornar  vida que tivera antes da viagem de Hal. Era uma vida sufocante, e ela no poderia suportar novamente aquela espcie de morte lenta. Depois 
de haver experimentado a independncia, queria desfrut-la. Havia conquistado uma parcela de liberdade, mas a que preo? A libertao de Jenny Fletcher custara muito 
caro. Custara-lhe o amor e o respeito dos que lhe eram mais queridos.
      Lgrimas amargas rolaram em sua face at a boca. Sabendo que a fadiga e a gravidez eram parcialmente responsveis pela vontade de chorar, ela se entregou ao 
pranto. Era sadio extravasar as emoes, mais valia deixar acontecer, sem prestar ateno onde Cage a estava levando. At que ele desligou o motor.
      Jenny levantou a cabea e enxugou os olhos.
       E a sua casa  observou embora no houvesse a menor necessidade.
       Isso mesmo.
      Ele desceu e deu a volta para ajud-la.
       Que viemos fazer aqui?
       Vou providenciar um bom caf da manh para voc. E  ele enfatizou ao v-la abrir a boca para protestar  no vai haver nenhuma discusso sobre isso.
      Jenny estava exausta demais para discutir, de modo que no disse nada. Cage abriu a porta da casa e a levou para o quarto.
       O banheiro  todo seu durante dez minutos.  Ele abriu uma gaveta e tirou uma camiseta da Universidade do Texas. O U e o T vermelhos, num fundo preto, estavam 
desbotados aps muitas lavagens.  Tome um banho e vista isso quando sair. Se no estiver l embaixo dentro de dez minutos, eu virei busc-la.  Beijou-a rapidamente 
e saiu.
      A gua estava quente, o sabonete era cheiroso e fazia muita espuma, o xampu, delicioso, as tolhas, fofssimas. Quando ela vestiu a camiseta, estava se sentindo 
cem por cento melhor e faminta.
      Hesitante, parou  porta da cozinha. Sentia-se vulnervel e exposta. Com os cabelos molhados, tudo o que tinha no corpo, alm da camiseta, era a calcinha. 
Embora a barra da camiseta lhe chegasse  metade das coxas, continuava se sentindo sem jeito e envergonhada.
      Cage no deu mostras de notar nem a escassez de sua roupa nem o constrangimento que a atormentava. No momento em que a viu, disse:
       Muito bem, no fique parada a. Quatro mos valem mais que duas.
       Que quer que eu faa?
       Passe manteiga nas torradas.
      Ela obedeceu e, poucos minutos depois, ambos estavam sentados diante de dois pratos de ovos com bacon. A fome tornava as boas maneiras dispensveis, e ela 
atacou a comida sem pestanejar. Depois de vrios bocados vorazes, deu com os olhos divertidos de Cage pregados nela. Inibida, enxugou a boca com o guardanapo e tomou 
um gole de suco de laranja gelado.
       Voc cozinha bem.
       Posso fazer ainda melhor.
      Ao terminar de tirar a mesa, Jenny estava to exausta que mal conseguia segurar a xcara de ch que Cage havia preparado para ela.
       Venha antes que acabe caindo  disse ele, puxando sua cadeira.
       Aonde?
       Para a cama.  Ele a tomou nos braos.
       Para a sua cama?
       .
       Eu preciso me vestir e ir para casa. Ponha-me no cho, Cage.
       Primeiro vai dormir um pouco.
      Jenny devia det-lo antes que subisse mais um degrau da escada, porm no conseguiu reunir energias. O breve descanso no carro no fora suficiente. Ela no 
se lembrava de ter se sentido to cansada. Apoiando a cabea no peito dele, fechou os olhos. Cage era forte. Capaz. Confivel. E ela o amava.
      A manga de sua camisa era spera na parte posterior de suas coxas. Coisa que a lembrou da noite na cama com Hal e da aspereza de sua roupa, do quanto tinha 
sido sensual.
      Cage a colocou ao lado da cama, porm continuou amparando-a com o brao enquanto afastava a colcha. Ento, deitou-a delicadamente nos lenis cheirosos.
       Durma bem  sussurrou ao cobri-la. Afastou uma mecha mida de cabelo de seu rosto.
       Que vai fazer?
       Lavar a loua.
       No  justo. Voc dirigiu a noite inteira. Preparou o caf da manh.  Jenny estava com dificuldade para organizar as palavras na ordem correta. Mal conseguia 
articul-las.
       No faltar ocasio para que retribua. Agora, voc e o beb precisam descansar.
      Beijou-lhe os lbios de leve, mas ela no sentiu. J estava dormindo.
      
      
      
      
      
      
      
      
   CAPTULO XII
      
      
      
      Ao despertar, Jenny ficou alguns momentos desorientada. Imvel sob as cobertas, passou os olhos sonolentos pelos arredores at que enfim reconheceu o quarto 
de Cage. Ento se lembrou de toda a seqncia de eventos que a levaram a dormir na cama dele. Tanta coisa havia acontecido desde a noite anterior, quando abrira 
a porta de casa e dera com ele sorrindo, o buqu de rosas na mo.
      Era quase noite novamente. O cu que se entrevia pelas frestas da veneziana matizava-se do violeta ao prpura. Emoldurada pela janela, a lua leitosa parecia 
ao alcance das mos. Uma estrela brilhava alegremente pouco abaixo, a um lado.
      Jenny bocejou, espreguiou-se e, rolando no colcho, colocou-se de costas. Sentou-se e sacudiu os cabelos emaranhados. Viu a camiseta retorcida ao redor da 
cintura. Deslizou as pernas nuas nas cobertas, sentindo a sedosa maciez da prpria pele. Dobrou os joelhos e arqueou as costas para se espreguiar novamente.
      Teve um leve sobressalto.
      Cage estava deitado ao seu lado, de costas, os braos erguidos, as mos entrelaadas sob a nuca, absolutamente imvel, e a observava.
      Achando inconveniente dizer o que quer que fosse, Jenny o olhou em silncio.
      Ele havia tomado banho enquanto ela dormia. Seu corpo exalava o perfume do mesmo sabonete que usara. Tinha se barbeado tambm. Seus cabelos estavam revoltos 
como de costume. Aquelas mechas loiras e desordenadas eram to tpicas de Cage que Jenny teve vontade de toc-las. Porm aproximar-se dele tambm lhe pareceu inconveniente.
      Naquele momento, a carcia mais provocante era o contato visual. Por isso ela limitou-se a fit-lo com a mesma intensidade com que ele a fitava. O desejo vibrava 
entre os dois como as cordas de uma harpa. Seus sentidos estavam perfeitamente sintonizados, contudo, por ora, ambos concordavam tacitamente em se valer apenas do 
sentido da viso.
      Os olhos de Cage no se moviam, mas Jenny sabia que estavam olhando para ela toda: para os cabelos, o rosto, a boca, os seios. Claro que estavam olhando para 
seus seios. Jenny os sentia tremer de emoo, sentia os mamilos espetarem o fino tecido da camiseta como que para lhe chamar a ateno.
      Cage tampouco podia deixar de ver as pernas quase desnudas. Decerto aquela parte de seu corpo no tinha escapado aos seus olhos claros e observadores. Sob 
um olhar to ardente, as zonas ergenas do corpo dela se abrasavam e comeavam a pulsar numa deliciosa agonia. E Jenny no conseguia tirar os olhos dos dele.
      Notou que a parte interna dos braos de Cage no era to bronzeada como o resto do corpo. Teve vontade de cravar os dentes nos msculos duros de seu bceps, 
mas sabia que ele ficaria chocado se o fizesse. As mulheres deviam ser passivas, no deviam? Por outro lado, tal conduta ia muito alm de sua experincia.
      Os tufos de plo de suas axilas pareciam macios e perfumados. Ser que faziam ccegas? Sem dvida. Ela teria coragem de verificar? A timidez a fez baixar os 
olhos um momento, para logo ergu-los novamente.
      Desde a noite em Monterico, ela ficara fascinada por seu tronco nu. Totalmente  vontade agora, examinou-o por completo, registrando cada detalhe, os msculos 
curvos do peito, os plos dourados, o modo como o trax se estreitava  medida que descia para a barriga dura e plana.
      Cage tinha cruzado as pernas nos tornozelos. Descalo, vestia apenas um jeans, o qual estava desabotoado.
      Era a cala normalmente usada pelos operrios e caubis, com a antiquada braguilha de botes. As costuras estavam desbotadas, o tecido, esgarado em certos 
lugares. Envolvia-lhe as longas pernas, deixando entrever o volume do sexo. Um nico plo assomava na abertura.
      Jenny se deu conta de que estava com a respirao suspensa. Fechando os olhos, exalou um lento suspiro. Era fcil imaginar o que havia acontecido. Ao sair 
do chuveiro, Cage se rendera ao cansao e se deitara sem se dar ao trabalho de abotoar o jeans. Afinal de contas, tinha dirigido a noite inteira.
      Mal estava vestido, bastava que ela...
      Com o corao disparado, Jenny tornou a abrir os olhos. Como que donos de vontade prpria, eles se voltaram imediatamente para o colo de Cage, cujo trax subia 
e baixava com a respirao, fazendo com que os msculos abdominais executassem um bailado extremamente ertico.
      Jenny ficou hipnotizada. Sentia-se compelida. Por que resistir?
      Com a ponta dos dedos, percorreu a fina trilha de plos que lhe dividia o abdmen. Parou no umbigo. Testou, medrosa, a profundidade daquela tentadora depresso 
com o indicador, enroscando-o nos plos que a rodeavam.
      Ele era to quente e cheio de vida! A energia que emanava de seu corpo enviava correntes eltricas que lhe subiam pelos dedos. Cage era masculinidade em estado 
bruto. Jenny se sentia fraca e indefesa ante o seu poder.
      Inexoravelmente atrada, sua mo continuou descendo. Os plos que encontrou dentro da abertura da cala eram mais escuros e densos.
      Ela hesitou e virou a cabea. Ao lhe fitar o rosto, deixou escapar um gemido quase inaudvel.
      Cage estava com lgrimas nos olhos. No havia se movido, no alterara em nada a sua posio, no tinha dito uma palavra, porm seus olhos estavam cheios de 
emoo. Aquilo a comoveu de um modo que transcendia ao desejo.
      Ningum jamais havia demonstrado amor por aquele homem. Ningum o acariciara com afeto. O amor estivera ausente em sua vida. Ningum se entregara a ele com 
desprendimento.
      Jenny no vacilou. Na verdade nem pensou. Em sua mente nada havia de deliberado. Mergulhou a mo por dentro do jeans.
      Um gemido emergiu das profundezas do peito de Cage. Ele baixou as mos e agarrou os lenis. Cerrando os dentes numa expresso de xtase, mergulhou a nuca 
no travesseiro. As lgrimas lhe escorreram pelos cantos dos olhos quando os fechou, apertando muito as plpebras, e se entregou  paixo que flua dentro dele como 
um rio caudaloso.
      Num gesto impetuoso, desceu o jeans at a metade das coxas, depois, movimentando freneticamente as pernas, livrou-se dele.
      Os olhos de Jenny brilharam de espanto e ela o admirou com olhos indisfaravelmente vidos.
      Agindo por instinto, voltou-se e se deitou: o rosto apoiado na coxa de Cage, muito prximo daquela virilidade. Seus cabelos se espalharam sobre o corpo dele 
qual um manto de seda.
      Estava se sentindo muito bem e queria que ele soubesse quanto o achava maravilhoso, de corpo e alma. Levantando a cabea, aproximou-se ainda mais e, abandonando-se 
ao mais espontneo dos impulsos, beijou sua intimidade com voracidade.
      O que aconteceu a seguir ficou alm de sua compreenso. Com um doce gemido, Cage mudou de posio e comeou a acarici-la. Houve um momento em que Jenny percebeu 
que estava sem calcinha, muito embora no pudesse lembrar como ele a havia despido.
      Sentiu as mos que a apalpavam e acariciavam em suas coxas. Sentiu-se tocada da maneira mais ntima concebvel. E ento sentiu a sua boca ardente, mida e 
delicada.
      Fizeram amor com os lbios e a lngua. A atmosfera era rica e deliciosamente aveludada. Naquele reino no existiam arestas, dificuldades nem duras realidades. 
S doces sentimentos e emoes. Tudo era suave e completo, tudo fcil de compreender. No havia feira nem ambigidade. Tudo era bonito e luminoso.
      Virando-se e colocando-se sobre ela, Cage disse:
       Abra os olhos, Jenny. Olhe para quem a ama.
      Embora embaciados de emoo, Cage compreendeu que os olhos dela o estavam vendo e reconhecendo. Num movimento ao mesmo tempo gil e delicado, mergulhou no 
acetinado calor da intimidade de Jenny. Sorriu para ela com ternura. Observou as tantas expresses que danaram em suas feies amadas em resposta aos seus rtmicos 
movimentos. Viu o encantamento surgir em seus olhos  medida que alcanavam nveis cada vez mais elevados de excitao.
      Viu a luz brilhar nas profundezas de sua alma quando ela finalmente experimentou a satisfao... e a viu cintilar de amor quando ele experimentou a dele.
       Voc  maravilhosa, e eu a amo, Jenny. Sempre a amei.  Cage estava com os lbios colados em seu ouvido. As mechas loiras misturavam-se com os belos tons 
castanhos dos cabelos dela no travesseiro. Seu rosto pareceu igualmente febril quando ele o aproximou ainda mais.  Eu a amo.
      Ergueu a cabea e a fitou nos olhos, que brilhavam qual duas esmeraldas.
       Eu tambm o amo, Cage.
      Jenny lhe tocou a face, as sobrancelhas, os lbios, como para se convencer de que ele estava verdadeiramente ali, que no tinha sido um sonho.
       Lembra o que lhe prometi?
       Lembro. E voc cumpriu. Foi maravilhoso como disse que seria.
       Maravilhosa  voc. 
      Ele se moveu.
       No. Fique comigo.
        o que pretendo  sussurrou com os lbios nos dela.  Mas quero beij-la.
      O beijo proporcionou prolongados momentos de prazer para Jenny.
      Desnudando-a completamente, ele falou:
       E verdade o que eu disse, Jenny. Faz muito tempo que a amo. Mas no podia fazer nada. Voc pertencia a Hal. Aceitei isso sem discutir, exatamente como todo 
mundo, inclusive voc.
       Eu sentia que havia alguma coisa entre ns. Mas no sabia o que era.
       Desejo e paixo.
      Ela sorriu e passou os dedos em seus cabelos.
       Fosse o que fosse, me dava medo.
       Pensei que tivesse medo de mim.
       No, s do que me fazia sentir.
       Era por isso que me evitava?
       Era to bvio assim?
       Sim.  Ele estava concentrado nos seios dela, em sua forma, nos mamilos rosados. Examinava-os com amor.  Bastava eu chegar para que voc se escondesse.
       Era perigoso ficar perto de voc. Eu fazia o possvel para que no ficssemos a ss. Voc consumia todo o oxignio ao meu redor, e eu no conseguia respirar. 
 Ela gemeu quando Cage baixou a cabea e passou a ponta da lngua em seu mamilo.  E continua no me deixando respirar.
       No posso fazer segredo do que voc faz comigo. 
      Jenny sentiu-o excitado novamente e segurou os msculos firmes de suas ndegas, fazendo com que a penetrasse mais. Cage lhe acariciou o seio, provocou-lhe 
o mamilo at que ficasse trgido e corado, ento o tomou na boca.
      Jenny o observava acarici-la, via as contraes dos msculos de seu rosto enquanto ele satisfazia a necessidade que tinha dela. Queria ser capaz de apagar 
de seu passado todas s vezes em que ele precisou de amor e no o encontrou.
      Ela queria encontrar maneiras de lhe dar prazer e satisfaz-lo, mas acabou se entregando ao prazer que ele lhe dava. A excitao dele aumentara e ela arqueou 
o corpo ao seu encontro. Mas os movimentos se tornaram mais rpidos e ela teve medo. Seu corpo ficou rgido sob o de Cage e, em vez de procurar conhec-lo mais e 
mais, ela se encolheu.
       No, no, pare.  Agarrou-lhe a cabea e a levantou, afastando-a de seus seios. Retorceu-se at se livrar dele e virou-se imediatamente.  Pare, pare.
       Jenny!  A respirao de Cage estava acelerada. Ele demorou vrios segundos para focalizar a vista novamente e recolocar o mundo no eixo.  Que aconteceu? 
Eu a machuquei?  Seu corao se contraiu de medo ao v-la dar-lhe as costas e unir os joelhos ao peito em posio fetal.  Oh, meu Deus, alguma coisa est errada. 
O que houve? Conte-me!
      Nunca sentira tanto medo na vida. Segundos antes, Jenny estava fazendo amor com ele. Seu corpo reagia ao dele com avidez. Agora ela chorava e agia como se 
estivesse sentindo muita dor.
      Pousou a mo em seu ombro, e Jenny se encolheu ainda mais.
       Que foi? Quer que eu chame um mdico?  S recebeu soluos por resposta.  Pelo amor de Deus, Jenny, diga pelo menos se est sentindo dor.
       No, no  gemeu ela.  No  isso.
       O que  ento?  Ele passou a mo na cabea, empurrando com impacincia os cabelos que lhe caam na testa.  Que aconteceu? Por que voc parou?
       Eu senti o beb se mexer.
      As palavras foram murmuradas no travesseiro, a voz lhe saiu abafada. Cage demorou um pouco a decifr-las, porm, quando conseguiu entend-las, relaxou aliviado.
       Foi  primeira vez? 
      Jenny fez que sim.
       O mdico disse que em breve eu comearia a senti-lo. Foi  primeira vez.
      Ele sorriu atrs dela. Seu filho tinha falado com ele, mas era evidente que Jenny ficara preocupada com isso. Ele tornou a lhe tocar o ombro e, dessa vez, 
no retirou a mo mesmo quando ela ficou tensa de averso. Pelo contrrio, deitou-se a seu lado e tentou abra-la.
       Tudo bem, Jenny. No vamos machucar o beb se tomarmos cuidado.
      Ela se sentou abruptamente e o encarou.
       Ser que no entende?
      Cage fitou-a com incredulidade quando ela saltou da cama, puxou o lenol e o enrolou no corpo. Caminhou com passos apressados at a janela e ali ficou encostada, 
de costas para o quarto.
      Ele estava magoado e com raiva, coisa que se tornou evidente quando se levantou tambm, pegou o jeans e o vestiu com movimentos bruscos.
       Acho que no entendi Jenny. Por que no me conta?
      Ela no ouvira seus passos no macio carpete e se assustou ao voltar-se e dar com ele to perto. Estava carrancudo. O jeans ficara desabotoado. Seus cabelos 
estavam desfeitos das tantas vezes que ela mergulhara os dedos neles. Era a prpria personificao da sexualidade masculina e to atraente que foi difcil resistir.
       Pode ser que voc no tenha nenhuma restrio moral a esse comportamento de gato vira-lata, mas eu tenho.
       Voc acha que o que estvamos fazendo era comportamento de gato vira-lata?  perguntou ele, a voz trmula de raiva.
       Depois que senti meu filho se mexer, sim.
       Pois eu acho isso lindo. Queria que tivesse compartilhado a sensao comigo.
        o filho de outro homem, Cage! No percebe que tipo de mulher isso me torna?
      A raiva dela tinha passado, em seu lugar estava  vergonha e o sofrimento. Jenny baixou a cabea, e as lgrimas comearam a rolar. Cage viu seus ombros sacudirem-se 
com os soluos. Suas mos pequenas e frgeis seguravam o lenol ao redor de seu corpo do mesmo modo que Eva devia ter segurado a primeira folha de figueira para 
esconder sua vergonha.
       Que tipo de mulher isso a torna?
      Jenny sacudiu a cabea, incapaz de verbalizar os pensamentos. Tentou enxugar as lgrimas.
       O que ns fizemos... o modo como eu agi quando estvamos... fazendo amor...
       Continue  pediu ele quando ela hesitou.
       Eu no me conheo mais. Eu o amo, mas estou com o filho do seu irmo em meu ventre.
       Hal morreu. Ns estamos vivos.
       Eu neguei isso at para mim mesma, mas seus pais tinham razo quando disseram que tentei seduzir Hal para que abandonasse a misso.
       Que voc est dizendo?  Cage uniu as sobrancelhas, preocupado.
       Aquela noite, quando ele me levou para o quarto para me pr na cama, no tinha inteno alguma de fazer amor comigo. Eu o beijei e supliquei que ficasse, 
que desistisse da viagem e se casasse comigo.
       Voc j me contou isso. Disse que ele saiu, depois voltou.
        verdade.
       Portanto, voc no pode se condenar por hav-lo seduzido. Hal tomou sua prpria deciso sem nenhuma coero de sua parte.
      Ela encostou a cabea no batente da janela e ficou olhando sem nada ver pelas frestas da veneziana.
       Mas voc no compreende? Pode ser que ele tenha voltado s para ver se eu estava bem, para me dar mais um beijo de boa-noite. Eu estava desesperada, e ele 
deve ter percebido.
      Cage sentiu um n no estmago. Durante quanto tempo podia continuar insistindo naquela mentira? Por que insistia em vir assombr-lo toda vez que ele divisava 
a felicidade com Jenny? Como um porteiro maligno, aquele pecado isolado impedia-o de conhecer o paraso.
       Mesmo assim, a deciso foi dele  disse com firmeza.
       Mas se aquela noite no tivesse existido, talvez Hal ainda estivesse vivo. Eu no cheguei a me preocupar com a possibilidade da gravidez, mas talvez ele 
tenha se preocupado. Talvez estivesse pensando nisso quando se descuidou e acabou sendo capturado. Eu no tinha o direito de tentar seduzi-lo e dissuadi-lo de uma 
misso enviada por Deus se o tempo todo o amava, um amor que eu era muito fraca e medrosa demais para admitir. Agora, estou dormindo com voc... O beb no conhecer 
o pai por minha causa.
      Cage ficou um momento em silncio, depois foi para a cama e se sentou. Com os cotovelos apoiados nos joelhos e a testa nos punhos cerrados, ficou olhando para 
o cho entre seus ps.
       Voc no tem motivo para se sentir culpada, Jenny.
       No tente fazer com que eu me sinta melhor. Eu tenho raiva de mim mesma.
       Oua-me. Oua-me at o fim  disse Cage secamente, levantando a cabea.  Voc no  culpada de ter seduzido Hal, nem de hav-lo distrado de sua misso 
e muito menos de sua morte. Tampouco de fazer amor comigo ao mesmo tempo em que est com o filho dele na barriga.
      Ela se voltou perplexa. O luar incidia sobre um lado de seu rosto, deixando o outro na sombra. Melhor assim, pensou Cage. Ele temia ver sua expresso quando 
acabasse de lhe contar. Respirou fundo e falou em voz baixa, embora no houvesse nenhuma hesitao em sua confisso.
       No foi Hal que gerou o seu filho, Jenny. Fui eu. Eu entrei no seu quarto aquela noite. Eu fiz amor com voc.
      Ela fitou nele os olhos arregalados, parados. Escorregando lentamente pela parede, sentou-se no cho. O lenol se espalhou ao seu redor. S seu rosto ficou 
visvel, plido de incredulidade, e suas mos, cujas articulaes tinham ficado muito brancas.
       E impossvel  disse num frgil alento.
        a mais pura verdade.
      Jenny sacudiu furiosamente a cabea.
       Ele entrou no meu quarto. Eu o vi.
       Foi a mim que voc viu. O quarto estava escuro. Eu fiquei contra a luz ao abrir a porta. Voc s viu uma silhueta.
       Era Hal!
       Eu estava passando pela porta do seu quarto e a ouvi chorar. Pensei em ir chamar Hal, mas ele estava l em baixo, conversando animadamente com mame e papai. 
Ento resolvi entrar e ver o que estava acontecendo com voc.
       No  disse ela quase sem voz, sacudindo a cabea nervosamente.
       Antes que eu tivesse dito alguma coisa, voc se sentou na cama e se dirigiu a mim corno se fosse a Hal.
       No acredito em voc!
       Ento como posso saber o que aconteceu? Voc estendeu os braos para mim. Estava com lgrimas no rosto. Cheguei a ver a luz refletida nelas antes de fechar 
a porta. Reconheo que devia ter me identificado no momento em que voc me confundiu com Hal, mas no fiz isso. No quis fazer e no me arrependo.
       Eu no quero ouvir mais nada!  Jenny cobriu os ouvidos com as mos.
      Cage prosseguiu imperturbvel.
       Eu sabia que voc estava sofrendo. Que estava magoada e necessitava de consolo. Francamente, eu duvidava que Hal pudesse lhe dar o que voc precisava.
       Mas voc sim, voc podia!  rosnou ela em tom acusador.
      Cage se levantou e foi em sua direo.
       Voc me pediu que a abraasse, Jenny.
       Eu pedi a Hal que me abraasse!
       Mas Hal no estava no quarto, estava?  gritou ele com raiva.  Preferiu ficar l em baixo, falando sobre vises, vocao, causas, misses, quando devia 
estar cuidando da noiva.
       Eu fiz amor com Hal!  gritou Jenny numa derradeira e frentica tentativa de negar o que acabava de ouvir.
       Voc estava triste. Tinha chorado. Hal e eu tnhamos praticamente a mesma constituio, era fcil confundir um com o outro. Estvamos com roupa parecida, 
jeans e camisa. Eu no disse nada, de modo que voc no pde reconhecer a minha voz.
       Mas eu saberia a diferena.
       Com que poderia me comparar? Nunca tinha tido outro amante.
      Ela tentou esquecer a ansiedade com que seduzira aquele amante para que a abraasse e beijasse, do mesmo modo que tentou esquecer o sedativo que havia tomado 
aquela noite. Afinal, no estava sedada, com a mente nublada? Depois, no chegou at a pensar que aquilo podia ter sido apenas sua imaginao? No parecera tudo 
um sonho?
       No era a mim que voc esperava  disse Cage.  Era Hal. Simplesmente no lhe passou pela cabea que podia ser outra pessoa.
       O que equivale a reconhecer que voc  um srdido vigarista.
      Ele a mirou nos olhos.
       Aquela noite voc no me achou to vigarista assim. Nem chegou a se importar com isso.
       Pare. No...
       Me agarrou como um urso faria com um pote de mel.
       Cale a boca!
       Reconhea Jenny, voc nunca tinha sido beijada como aquela noite. Hal nunca a beijou assim, beijou?
       Eu...
       Reconhea!
       Nunca!
       Muito bem, pode negar quanto quiser, mas sabe que  verdade. Eu a toquei, e ns dois nos entregamos por completo.
      Jenny fechou os olhos.
       Eu no sabia que era voc.
       No tem importncia alguma. 
      Ela abriu os olhos de sbito.
        mentira!
       No, no . E voc sabe que no . 
      Jenny apertou os lbios.
       Como pode ter sido to vil? Como foi capaz de me enganar assim? Como teve a coragem de...  Engasgou com as ltimas palavras.
      Cage caiu de joelhos diante dela. Tinha passado a raiva, a voz lhe saiu trmula e grave.
       Porque eu a amava. Porque eu precisava de voc do mesmo modo que voc precisava do amor de um homem. Fazia anos que eu a desejava, Jenny. Era desejo, sim, 
mas tambm era muito mais do que isso. Aquela noite, voc estava l, na cama, nua, quente, doce e excitada. Primeiro pensei apenas em abra-la e beij-la algumas 
vezes antes de me identificar. Mas no momento em que a tomei nos braos, senti o seu gosto, a sua lngua na minha, no momento em que toquei em seus seios...  Ele 
deu de ombros num gesto de impotncia  No houve como conter a avalanche. Fiquei surpreso, no sabia que era virgem. Mas mesmo descobrir isso no bastou para me 
deter. Todo o meu ser se concentrou em am-la. Tudo o que eu queria era aliviar a sua dor com o meu amor. Pela primeira vez na vida, senti que estava fazendo uma 
coisa boa. Uma coisa pura e correta, Jenny. Voc mesma me comunicou isso.
       Eu pensei que estivesse me referindo a Hal.
       Mas no estava. Eu fui o seu amante. Pense bem naquela noite e compare-a com hoje. Voc sabe que no estou mentindo.  Cage levantou-se novamente e se ps 
a caminhar no carpete entre a cama e a janela.  Depois de termos feito amor, eu no consegui mais me afastar de voc. Queria conquist-la aos poucos. Planejei cortej-la 
de modo que, quando Hal voltasse, voc estivesse disposta a romper o noivado, se possvel sem sofrer, e a ficar comigo.  Parou e sorriu para ela.  No dia em que 
me contou que estava grvida, eu mal consegui me conter. Tive vontade de saltar e tom-la nos braos e danar com voc na lanchonete. Hoje, quando me contou que 
o beb se mexeu, fiquei no mesmo estado.
      Lembrando-se do que se passara poucos minutos antes, Jenny olhou para a cama. Era terrvel. Horroroso. Mas acreditava nele. Tudo tinha sentido. Como ela no 
havia percebido antes de saber? Era to bvio, to evidente.
      Na parte mais secreta do seu eu, ela sabia! No. Pelo amor de Deus, no!
       Por que no me contou Cage? Eu fiz amor com um homem pensando que era outro! Por que no me contou nada?
       Antes de mais nada, porque pensei que voc ainda amasse Hal. Voc ficaria arrasada se achasse que tinha sido infiel a ele.
       Eu fui.
       No foi. De jeito nenhum. Se algum foi infiel, esse algum sou eu!
      Ela fez um esforo para se levantar, seu peito arfou.
       J se passaram muitos meses. Por que no me contou depois?
       Eu no queria mago-la.
       E acha que no me est magoando agora?
       No devia. Voc no tem culpa alguma. O pecado foi meu, Jenny, no seu. Voc  inocente, e eu estava tentando poup-la.
       Por qu? 
       Porque voc tem uma tendncia masoquista a assumir a responsabilidade pelos erros das outras pessoas. Se sente culpada pelas falhas de todo o mundo. De meus 
pais, de Hal, das minhas.
      Ela suspirou profundamente.
       Mas esse no  o nico motivo.  Ele a fitou nos olhos.  Eu queria agir corretamente. Era como se eu tivesse o compromisso com Hal de no lhe contar a verdade. 
Enquanto eu passava a vida na farra, bebendo e dormindo com todas as mulheres que atravessassem o meu caminho, ele dedicava a vida a fazer o bem. Eu roubei uma coisa 
que pertencia a ele... muito embora eu a amasse.  Aproximou-se dela.  Queria que voc fosse parte de minha vida, mas sabia que o preo que teria de pagar seria 
altssimo. Um cafajeste como eu no  recompensado sem pagar muito caro.
       Que est dizendo, Cage? Para mim, at agora voc ficou isento. Que tributo pagou?
       Um deles foi ouvi-la gritar o nome de meu irmo quando chegou ao clmax pela primeira vez.
      Ela baixou a cabea.
       Outro foi saber que voc pensava que tinha sido Hal quem a levara a descobrir o paraso. Outro foi  noite em Monterico, quando a abracei enquanto dormia, 
mas no pude expressar o meu amor. O pior de todos foi voc pensar que o meu filho, o meu filho, era de outro homem.
      Jenny quase lhe perdoou nesse momento. Quase sucumbiu ao tremor de sua voz e ao seu olhar intenso. Quase se atirou em seus braos e clamou o seu amor. Mas 
no podia. O que ele tinha feito era horrvel, e um pecado daquela magnitude no podia ser perdoado levianamente.
       Ento, por que resolveu me contar agora?
       Porque est se culpando pela morte de Hal. Eu no suporto isso, Jenny. Ele partiu para sua misso com o corpo e a conscincia limpos. Voc no teve culpa 
alguma de sua morte. No podia t-la evitado. E no vou deix-la passar o resto da vida culpando-se disso e acreditando-se responsvel pelo fato de seu filho ter 
ficado rfo.  Estendeu a mo e tomou a dela. Estava fria e inerte.  Eu a amo, Jenny.
      Ela afastou a mo da dele.
       O amor no  feito de enganos e mentiras, Cage. Voc passou meses mentindo para mim. Que quer que eu faa?
       Que volte a me amar.
       Voc me fez de boba!
       Eu fiz de voc uma mulher!  Cage afastou-se dela, tentando controlar-se.  Se parar de passar tudo pelo filtro de pureza, conscincia e culpa, conseguir 
ver a situao com mais clareza. Aquela noite foi  melhor coisa que j aconteceu a ns dois. Libertou-nos a ambos.
       Libertou?  gritou Jenny.  Libertou? Eu vou passar o resto da vida carregando o peso daquela noite!
       Est chamando o meu beb de peso?
       No, no  o beb  replicou ela.   a culpa. A culpa de ter feito amor com um irmo estando noiva do outro.
       Oh...  gritou ele, dando um murro na parede.  Voltamos a tocar a mesma tecla!
       Exatamente. E estou cansada dela. Leve-me para casa.
       De jeito nenhum. No enquanto no tivermos resolvido tudo.
       Eu quero ir embora  teimou ela.  Se no me levar, eu pegarei a chave de um de seus automveis e vou sozinha.
       Voc vai ficar aqui, do contrrio eu...
       No me ameace! Eu no tenho mais medo de voc, mesmo porque suas ameaas so vazias. Que pode me fazer que seja pior do que j fez?
      Os maxilares de Cage se contraram de raiva. Jenny viu seus olhos se encherem de fria para, a seguir, tornarem-se duros e frios. Ele lhe deu as costas abruptamente. 
Entrando no banheiro, pegou uma camisa no armrio e um par de botas.
       Se vista  disse entre os dentes.  Virei busc-la dentro de cinco minutos.
      Quando Cage voltou, Jenny estava pronta. Desceu a escada diante dele e saiu pela porta da rua. Estava escuro quando atravessaram o quintal rumo  garagem. 
Ele abriu a porta do Lincoln, e ela entrou.
      Fizeram todo o percurso at a cidade em silncio. Cage segurava o volante como se quisesse arranc-lo. Dirigiu em alta velocidade. Quando freou diante do apartamento, 
Jenny foi jogada para frente com o impacto. Inclinando o corpo, ele abriu a porta. Ela saiu do carro.
       Jenny!  Cage continuava inclinado sobre o banco.  Eu j fiz coisas terrveis. Quase sempre por pura maldade. Mas desta vez tentei agir corretamente. Quis 
fazer o melhor por voc e pelo beb.  Riu de si mesmo com amargura.  Mesmo quando tento fazer o melhor, d tudo errado. Talvez seja verdade o que sempre disseram 
de Cage Hendren. Ele no presta para nada mesmo.  Agarrou a porta e a bateu com violncia.
      Jenny entrou no apartamento. Sentia-se esgotada, desanimada. Era possvel que na noite anterior ela tivesse jantado com Cage  luz de velas? Sim, as tigelas 
de sorvete e as xcaras de caf ainda estavam na mesa, esquecidas quando eles tiveram de sair para levar Roxy e Gary a El Paso. Podia ter acontecido numa vida passada.
      Deixando a luz apagada, Jenny atravessou o apartamento e caminhou para o quarto, que lhe pareceu frio, vazio, diferente do quarto da casa de Cage.
      No, no valia  pena pensar.
      Mas ela continuava pensando, e no havia como conter as lembranas que lhe assaltavam a mente. Cada contato, cada beijo, cada palavra.
      Recordou a expresso dos olhos dele pouco antes de se separarem. Ser que Cage estava tentando fazer o melhor possvel ao silenciar sobre o que havia acontecido 
entre eles?
      Sem dvida, no se mostrara orgulhoso na manh da partida de Hal. Estava tenso e alerta, mas de modo algum satisfeito ou presunoso. Se tivesse sido apenas 
um golpezinho cruel que aplicara nela, certamente teria se gabado disso depois.
      Cage a amava? Estivera disposto a abrir mo de reclamar o prprio filho. Tal sacrifcio no era uma prova extrema de amor por ela?
      E, se ele a amava, por que ela estava to chateada?
      Cage era o seu nico amante. Aquilo lhe dava uma sensao interior clida e vibrante. O encantamento daquela noite tinha sido dos dois. Ela devia saber! Nunca 
se sentira daquele modo na vida... at aquela noite!
      Quando eles se amaram, seu corpo no tinha sido familiar, uma extenso do dela? Ambas s vezes, ela no se sentira completa? A unio de seus corpos no montara 
todas as peas do complexo quebra-cabea que era Jenny Fletcher?
      Acaso era a fim de aliviar sua prpria conscincia que ela acusava Cage de hav-la enganado? Porque ela mesma enganara Hal, os Hendren e toda a cidade durante 
anos. Participara de seus planos de casamento sabendo perfeitamente que o amor que tinha por Hal no era suficiente para um matrimnio. Jamais tivera com ele a afinidade 
que tinha com Cage. Hal no satisfazia a inquietude de seu esprito. Com ele, Jenny teria continuado a viver sob restries permanentes. Cage a levou a ousar ser 
ela mesma.
      No podia perdo-lo por ter mantido segredo durante tantos meses? Se Cage no tivesse feito amor com ela aquela noite, se Hal no tivesse morrido, Jenny teria 
se casado com o noivo. E, por mais infeliz que isso a fizesse, aceitaria aquela condio. Antes de seu relacionamento com Cage, no teria reunido coragem para procurar 
sua prpria felicidade, teria continuado deixando que os outros o fizessem em seu lugar.
      Cage lhe havia ensinado a construir seu prprio futuro. No era razo suficiente para am-lo?
      No dia seguinte ela pensaria mais um pouco nisso. Talvez telefonasse para Cage, pedisse desculpas por sua intolerncia e, juntos, os dois conseguiriam resolver 
tudo.
      Fatigada, Jenny se despiu, ps uma camisola e foi para a cama. Mas no conseguiu dormir. Tinha dormido boa parte do dia, e o mundo parecia no querer deix-la 
ter o repouso tranqilo de que necessitava. As sirenes gemiam nas ruas da cidade e quando ela conseguiu afastar Cage do pensamento e comeou a relaxar, o telefone 
tocou com estridncia.
      
      
      
      
   CAPTULO XIII
      
      
      
      Considerando que podia ser Cage, Jenny pensou duas vezes antes de atender. J estava preparada para falar com ele? S quando o aparelho tocou pela sexta vez, 
cedeu e tirou o fone do gancho.
       Al.
       Srta. Fletcher?
      No era Cage, e ela sentiu uma pontada de decepo.
       Sim.
        Jenny Fletcher? A que morava com o reverendo Hendren?
       Eu mesma. Quem est falando?
       Rawlins, o auxiliar de xerife  identificou-se o interlocutor.  A senhora saberia dizer onde podemos localizar os Hendren?
       J procuraram na igreja e na casa paroquial?
       Sim, senhora.
       Neste caso, sinto muito, no sei onde esto. Posso ajudar em alguma coisa?
       Ns precisamos muito falar com eles  disse o policial sem ocultar a urgncia que tinha.  O filho deles sofreu um acidente.
      Jenny empalideceu. Um enjo lhe revolveu o estmago. Estrelas amareladas explodiram na escurido quando ela fechou os olhos. Foi-lhe necessrio um grande esforo 
para no cair.
        O filho deles?  perguntou com a voz entrecortada.
       , Cage.
       Mas ele acaba de...
       Aconteceu h poucos minutos.
       Ele est... foi... foi fatal?
       Ainda no sei, Srta. Fletcher. A ambulncia est a caminho do hospital.  grave, sem dvida. Um trem colidiu com seu carro.
      Jenny conteve o grito com a mo trmula. Um trem!
       E por isso que precisamos localizar um parente prximo.
      Santo Deus, que expresso oficial terrvel! "Localizar um parente prximo" era a frase normalmente empregada no jargo policial para designar os que precisam 
ser notificados que um ente querido faleceu num acidente longe de casa.
       Srta. Fletcher?
      Passaram-se vrios minutos de silncio enquanto Jenny procurava absorver a trgica enormidade daquele telefonema.
       Eu no sei aonde Bob e Sarah foram. Mas vou imediatamente para o hospital. At logo. Tenho de me apressar.
      Desligou o telefone sem dar ao auxiliar de xerife oportunidade de dizer mais nada. Seus joelhos se dobraram quando ela saiu da cama. Foi com passos trpegos 
at o armrio, de onde tirou a primeira roupa que suas mos tocaram.
      Tinha de ir ver Cage, naquele instante. O mais depressa possvel. Precisava dizer-lhe que o amava antes que...
      No, no. Ele no ia morrer. Jenny no podia nem sequer pensar em sua morte.
      Oh, meu Deus, por que fez isso?
      No momento em que o auxiliar de xerife a informou do acontecido, Jenny se perguntou se tinha sido acidente ou no. Qual era a ltima coisa que Cage lhe havia 
dito? "Eu no presto para nada mesmo." Teria sido a rejeio dela pelo seu amor a ltima que ele podia suportar? Teria sido aquele acidente uma tentativa de obter 
aprovao livrando o mundo de Cage Hendren?
      "No!"
      Ela s se deu conta de que tinha gritado quando a palavra ecoou nas paredes silenciosas do apartamento. Correu pelos cmodos escuros em direo  porta da 
rua. As lgrimas lhe banhavam a face, e seus dedos tremiam tanto que ela mal conseguiu pr a chave no contato do carro.
      Jenny avistou o local do acidente a vrios quarteires de distncia. Um guincho havia tirado o carro de Cage dos trilhos, mas a polcia continuava mantendo 
a rea isolada com holofotes a fim de desencorajar os curiosos.
      O Lincoln prateado parecia uma folha de alumnio que algum gigante petulante havia amassado nas mos e jogado fora. Jenny sentiu o peito dolorosamente apertado. 
Ningum podia ter sado vivo daquelas ferragens. Embora estivesse sentindo os braos muito fracos para dirigir, forou a si mesma a seguir adiante. Precisava chegar 
ao hospital a tempo.
      Ao chegar, estacionou e foi correndo para a porta do pronto-socorro. No morra, no morra, no morra, seu corao pedia a cada passo. Aquela comoo emocional 
e o esforo fsico no podiam fazer bem ao beb, porm Cage era a nica coisa que importava naquele momento.
       Cage Hendren?  perguntou ela quase sem flego, batendo a mo no balco da recepo.
      A enfermeira de planto ergueu os olhos para ela.
       J subiu para a cirurgia.
       Para a cirurgia?
       . Com o Dr. Mabry.
      Se resolveram oper-lo, ele ainda estava vivo, Graas a Deus, graas a Deus! Jenny respirou fundo para tomar flego.
       Em que andar?
       Terceiro.
       Obrigada.
      Ela correu para o elevador.
       Senhorita.  Jenny se voltou.  Pode ser que ele demore muito l em cima.
      A enfermeira lhe estava comunicando de forma diplomtica que no devia ter muita esperana.
       Eu esperarei, no importa quanto tempo demore.
      No terceiro andar, a enfermeira de planto no setor confirmou que Cage se achava na mesa de operao.
       A senhora  parente dele?  perguntou com delicadeza.
       Eu... eu fui criada com ele. Seus pais me adotaram quando fiquei rf.
       Compreendo. Ns no conseguimos entrar em contato com os pais dele, mas continuamos tentando.
       Tenho certeza de que saram um pouco, mas no demoram a voltar.  Jenny mal podia acreditar que estava conseguindo conversar. Tinha vontade de gritar at 
derrubar as paredes. Queria jogar-se no cho e arrancar os cabelos.
       Deixaram um policial esperando  porta da casa para traz-los para c.
      Jenny mordeu o lbio.
       Eles vo ficar desesperados. Perderam o filho mais novo h poucos meses.
      A enfermeira sacudiu a cabea, lamentando.
       No quer se sentar ali?  ofereceu, apontando para a sala de espera.  Tenho certeza de que em breve vo inform-la do estado do Sr. Hendren.
      Qual um autmato, Jenny foi para a sala de espera e se sentou no sof. Devia ir para a casa paroquial e encarregar-se de dar a notcia do acidente quando os 
Hendren chegassem. Mas no sairia dali. No tinha coragem de deixar Cage sozinho! Precisava ficar bem perto dele, transmitindo-lhe o seu amor e todas as palavras 
de encorajamento, atravs das paredes, para a sala de operao, onde ele se agarrava precariamente  vida.
      E sua vida era to preciosa para ela! Cage no sabia disso? Como podia ter...
      Oh, Deus, ela o deixara ir embora pensando o pior de si mesmo! Do mesmo modo que seus pais o haviam rejeitado na noite do enterro de Hal, ela batera a porta 
em sua cara quando ele abrira o corao. Os Hendren podiam ser ignorantes demais da psique de Cage para no perceber o mal que lhe tinham feito a vida inteira, mas 
ela o conhecia bem.
      Quantas vezes ele duvidara do valor de sua vida? No flertava com a morte toda vez que desafiava a autoridade ou se punha ao volante do carro para ultrapassar 
os limites de velocidade? No vivia cometendo loucuras unicamente para chamar a ateno que sempre lhe fora negada?
      Oh, Cage, perdoe-me. Eu o amo. Eu o amo. Voc  a pessoa mais importante neste mundo para mim.
       Srta. Fletcher!
      Ela se levantou de um salto ao ouvir o seu nome. Estava com os olhos fechados, rezando angustiada, pedindo a Deus que poupasse a vida de seu amado. Esperava 
ver um mdico olhando para ela com expresso de comiserao, mas o homem que a chamara estava com farda de policial.
       Sim?
       Eu sabia que era a senhora. Sou o auxiliar de xerife Rawlins. Falamos pelo telefone.
      Jenny enxugou as lgrimas.
       Claro, eu me lembro.
       E este  o Sr. Hanks. Foi  famlia dele que Cage salvou.
      S ento ela reparou no homem parado um pouco atrs do policial. Ele avanou um passo desajeitado, o macaco e as botas de trabalho a contrastar com a limpeza 
do corredor do hospital.
      Estava com os olhos vermelhos de chorar, a cabea calva humildemente inclinada.
       Salvou?  indagou Jenny. A voz mal lhe saiu.  No entendo.
       A mulher e os filhos dele estavam no carro que ficou preso nos trilhos. Cage se colocou atrs dele e o empurrou para fora. Apenas teve tempo de tir-los 
de l.  claro que o maquinista percebeu o que estava acontecendo e diminuiu a velocidade do trem o mais que pde, mas no teve tempo de parar.  Pigarreou sem jeito. 
 Ainda bem que a batida foi do lado do passageiro, e Cage teve sorte de no estar com a Corvette. Teria sido esmagada como um inseto.
      Cage no tentara se suicidar! Fora embora zangado e ressentido, mas no tivera inteno de tirar a prpria vida. Que tola ela havia sido de simplesmente ter 
suspeitado tal coisa!
      As lgrimas tornaram a correr em seu rosto. Ele havia tentado salvar outras vidas. Se morresse, seria um heri, no um suicida. Ela olhou para o Sr. Hanks.
       Sua famlia est bem? 
      Ele fez que sim.
       Continuam assustados, mas, graas ao Sr. Hendren, esto todos vivos. Eu gostaria de lhe dizer pessoalmente quanto estou agradecido. E peo a Deus que o salve.
       Eu tambm peo.
       Sabe  disse o Sr. Hanks, levantando a cabea e sacudindo-a com tristeza , eu sempre tive uma pssima impresso de Cage Hendren por causa das histrias 
que contam por a. Sempre o via na cidade com seus carros de luxo, dirigindo feito um demnio. Achava que s podia ser louco para arriscar a vida daquele jeito. 
 Suspirou.  Reconheo que tive de aprender da pior maneira a no condenar um homem que mal conheo. Ele no tinha nenhuma obrigao de subir nos trilhos e tirar 
o carro de minha mulher da frente do trem de carga. Mas subiu.  Seus olhos se encheram de lgrimas novamente. Constrangido, ele cobriu o rosto com as mos.
       V para casa, Sr. Hanks  sugeriu delicadamente o auxiliar de xerife Rawlins, colocando a mo em seu ombro.
       Obrigada, Sr. Hanks  disse Jenny.
       Por qu? Se no fosse aquele meu calhambeque imprestvel...
       Obrigada assim mesmo  repetiu ela em voz baixa.
      Hanks se curvou solenemente diante dela antes que o policial o conduzisse ao elevador.
      A previso da enfermeira, segundo a qual em breve teriam notcia do estado de Cage, era falsa. Jenny ficou sozinha na sala de espera. Ningum saiu da sala 
de operao para inform-la de nada.
      Fazia quase duas horas que ela aguardava quando as portas do elevador se abriram e Sarah e Bob saram precipitadamente. Estavam com os olhos arregalados, o 
rosto desfigurado de preocupao e renovado pesar.
      Jenny os viu deter-se junto ao balco e identificar-se. Receberam da enfermeira as mesmas palavras tpidas de consolo que ela ouvira. Apoiando-se um no outro, 
voltaram-se para a sala de espera. Quando viram Jenny, seus passos vacilaram.
      No primeiro momento, os olhos dela os condenaram. Sua expresso parecia dizer, Vocs no gostavam dele, agora vm chorar no seu leito de morte. Mas no podia 
incrimin-los sem tambm incriminar-se a si mesma. Afinal, podia haver assumido o seu amor por Cage anos antes se no tivesse tanto medo de como isso podia transformar 
a sua vidinha pacata.
      E naquele dia, quando ele precisava tanto saber que tinha sido perdoado e que ela o amava, rejeitara o seu pedido de desculpas. O mais irnico era que Cage 
lhe havia pedido desculpas por ter feito amor com ela, por lhe ter proporcionado a noite mais esplndida de sua vida. E ela se recusara a desculp-lo! Como podia 
condenar os Hendren por sua miopia se a dela tinha sido ainda mais cruel?
      Jenny se levantou e abriu os braos para Sarah. Com um grito de alegria, a velha avanou tropegamente. As duas se abraaram.
       Calma, Sarah, ele vai ficar bom. Eu sei que vai.
      Soluando a cada palavra, Sarah explicou onde estavam.
       Ns fomos visitar um amigo doente fora da cidade. Quando voltamos, demos com o carro do xerife estacionado em frente a nossa casa. Adivinhamos que tinha 
acontecido alguma coisa terrvel.  Sentaram-se juntas no sof.  Primeiro Hal, agora Cage. Eu no vou agentar...
       Vocs sofreriam tanto assim se Cage morresse? 
      Jenny mal pde acreditar que lhes tinha feito de maneira to direta a pergunta que no lhe saa da cabea. Os dois olharam chocados para ela. Embora soubesse 
que deveria ser branda com eles naquele momento difcil, ela no encontrava piedade no corao. Se a crueldade era capaz de despert-los para a maneira horrvel 
como tratavam o filho, ela seria cruel. Estava lutando por Cage.
       Ele acha que vocs no sofreriam.
       Mas Cage  nosso filho. Ns o amamos  gritou Sarah.
       Alguma vez lhe disseram que o amavam? Alguma vez lhe disseram que do valor a ele?  Bob baixou a vista cheio de culpa. Sarah engoliu em seco.  No precisam 
responder. Enquanto morei com vocs, no os ouvi dizer nada disso.
       Ns... ns tnhamos dificuldades com Cage  disse o pastor.
       Porque ele no se ajustava ao molde ao qual queriam que se ajustasse. Cage nunca se sentiu aceito. Vocs detestavam a sua individualidade. Ele sabia que 
jamais conseguiria corresponder s suas expectativas, por isso desistiu de tentar. As suas atitudes duras, frias e cnicas no passam de um mecanismo de defesa. 
Ele quer desesperadamente ser amado. Quer que vocs, os seus pais, o amem.
       Eu tentei am-lo  confessou Sarah.  Mas ele no parava quieto. No ficava aninhado no meu colo como Hal. No se comportava bem como Hal. Era difcil gostar 
de Cage. Sua turbulncia e seus modos inquietos me assustavam.
       Eu sei o que quer dizer  sorriu Jenny ao mesmo tempo em que dava um tapinha na mo de Sarah.  Aprendi a entend-lo. Eu o amo muito.
      Bob foi o primeiro a falar.
       Voc o ama, Jenny?
       Sim. De todo o corao.
       Como  possvel to pouco tempo depois da morte de Hal?
       Eu amava Hal. Mas ele era mais um irmo para mim. S percebi isso quando passei h conviver o tempo todo com Cage. Ento compreendi que fazia muito tempo 
que o amava, mas como vocs, eu tinha medo dele.
       Vai demorar para que nos acostumemos com a idia de v-los juntos.
       Eu tambm demorei a me acostumar.
       Eu sei que no fomos justos com voc  interveio Sarah.  Queramos conserv-la conosco para compensar o vazio no corao que a morte de Hal nos deixou.
       Eu tenho a minha prpria vida.
       Agora ns percebemos. A nica maneira de conserv-la conosco  deixando-a partir.
       No vou muito longe  assegurou Jenny com um sorriso.  Eu os adoro. Fiquei muito triste com a nossa briga.
       O beb foi um choque para ns, Jenny.  Bob olhou para a barriga dela.  Sei que  capaz de entender. Mas, enfim, tambm  o filho de Hal. Vamos aceit-lo 
e am-lo por esse motivo.
      Jenny chegou a abrir a boca para falar, porm outra voz a interrompeu.
       Reverendo Hendren?
      Eles se voltaram e reconheceram o Dr. Mabry com o avental verde de cirurgio. Estava com a testa mida de suor. Parecia exausto. Jenny abraou o prprio ventre 
como que para impedir o filho de ouvir a m notcia sobre seu pai.
       Ele est vivo  informou o mdico, aliviando-os do maior medo.  No sei como. Sua situao ainda  crtica. Ele se achava em estado de choque quando o trouxeram 
para c. Os rgos internos foram muito afetados. Estava com hemorragia interna. Tivemos de fazer transfuso de sangue e de remend-lo, literalmente. Mas acho que 
conseguimos costurar tudo. Ele quebrou a tbia direita e est com uma fratura capilar no fmur direito. Escoriaes e cortes no corpo todo. Mas isso  de menos.
       Ele vai sobreviver Dr. Mabry?  Sarah fez a pergunta como se sua prpria vida dependesse da resposta.
        bem possvel porque  um homem forte como um touro e teimoso como um elefante. Sobreviveu ao acidente e  operao. Se conseguiu resistir aos dois traumas, 
sou capaz de apostar muito dinheiro que vai se recuperar. Agora, com licena, preciso voltar.
       Ns podemos v-lo?  Jenny perguntou, segurando o brao do mdico.
      Ele refletiu por um momento, mas a ansiedade naqueles rostos o convenceu.
       Assim que for transferido para a UTI, um de vocs poder passar trs minutos com ele. Falarei com vocs mais tarde.  Virou-se e seguiu pelo corredor com 
passos apressados.
       Eu preciso v-lo  disse Sarah.  Preciso lhe contar quanto o amamos.
       Claro, querida  concordou Bob.  Voc vai. 
       No  Jenny se ops com firmeza.  Eu  que vou ficar com ele. Vocs tiveram a vida inteira para lhe dizer que o amavam e no o fizeram. S espero que tenham 
o resto da vida para remediar esse mal. Mas quem vai v-lo hoje sou eu. Ele precisa de mim. Oh, e quanto ao beb...  Ela sentiu a ltima corda de opresso soltando-lhe 
o corao.  No  filho de Hal. E de Cage. Eu estou esperando um filho de Cage.
      Os dois velhos ficaram boquiabertos em muda surpresa, porm a Jenny pouco importava que entendessem ou no. Dessa vez, no deixaria que as convenes e os 
hbitos de uma vida inteira a intimidassem.
       Espero que vocs nos amem.  Ps as mos nos ombros de ambos e falou com toda sinceridade.  Ns os amamos e gostaramos de ser uma famlia.  Respirou fundo 
e deixou as mos carem junto ao corpo. Refreou rapidamente as lgrimas que lhe inundavam os olhos, no fossem os pais de Cage atribuir sua origem  fraqueza, no 
o alvio.  Mas, se no puderem nos aceitar como somos, se no puderem aceitar o amor que temos um pelo outro, vocs  que sairo perdendo.  A coragem e a esperana 
fervilhavam dentro dela.
       Eu amo Cage e ele me ama, e me recuso a me sentir culpada por causa disso. Ns vamos nos casar e criar o nosso filho, e ele saber em cada dia de sua vida 
que  amado pelo que ele , no pelo que ns queiramos esperar que seja.
      Meia hora depois, quando o mdico retornou para levar um deles ao leito de Cage na UTI, Jenny o acompanhou.
      
      
      
      
   Eplogo
      
      
      
       O que est acontecendo aqui afinal?
       Nada. S estamos tomando banho.
       Mas que baguna!
       A culpa  de Trent. Ele adora jogar gua para todos os lados.
       E quem o ensinou a fazer isso?
      Da porta do banheiro, Jenny sorriu para o marido e o filho na banheira. Aos sete meses, Trent estava sentado no colo do pai, as costas apoiadas nas coxas de 
Cage, os pezinhos gorduchos em sua barriga.
       Ele est ficando limpo pelo menos?
       Quem? Trent? Claro. Positivamente imaculado.
      Jenny entrou e se ajoelhou junto a eles. Reconhecendo a me, Trent abriu um belo sorriso, mostrando com orgulho seus dois nicos dentes. Apontou para ela e 
balbuciou alguma coisa.
       Isso mesmo, meu filho  disse Cage.  Ela  estonteante, no acha?
       Estonteados vo ficar vocs dois se no sarem logo da para enxugar o cho.  Jenny tentou se mostrar sria, mas riu ao se inclinar para tirar Trent da 
banheira. Ao ergu-lo, viu a cicatriz rosada no abdmen de Cage. Aquilo nunca deixava de afet-la e faz-la enderear aos cus uma orao de agradecimento.
       Veja s, ele est mais escorregadio que uma truta  disse Cage, emergindo do banho. A gua escorreu em seu corpo musculoso e esguio. Jenny sabia agora que 
ele no tinha a menor vergonha de sua nudez, o que a agradava muito.
       Estou vendo  sorriu ela ao mesmo tempo em que tentava segurar o filho que esperneava e envolv-lo numa toalha. Desistira de se manter seca. O corpinho inquieto 
de Trent j havia molhado a frente de seu penhoar.
      Ela levou o beb para o quarto, que ficava em frente  sute, do outro lado do amplo hall. Tinha transformado um dos cmodos do primeiro andar do velho casaro 
num quarto de beb digno de qualquer revista. Seguindo suas instrues, Cage se encarregara da maior parte do trabalho nos fins de semana. Estavam muito satisfeitos 
com o resultado.
      Jenny era to habilidosa para cuidar do filho sempre em movimento que, quando Cage se juntou a eles, j enxuto e com um robe felpudo, Trent estava de fralda 
e acabava de vestir o pijama.
       D boa-noite para o papai.  Jenny ergueu o filho para receber o beijo de Cage, que o tomou nos braos e lhe deu um sonoro beijo na bochecha.
       Boa noite, meu filho. Eu o adoro.  Abraou o beb enquanto Jenny os observava encantada. Trent estava com sono. Deitou a cabea coberta de cachos dourados 
no ombro do pai e abriu um enorme bocejo.
       Ele estava precisando dormir  disse Jenny mais tarde, a caminho de seu prprio quarto.  E eu tambm estou.  Abriu os braos e se jogou de costas na cama. 
 Vocs dois me deixam exausta.
       Ah, ?  Cage passou os olhos pelo seu corpo da cabea aos ps. O penhoar tinha ficado aberto, expondo-lhe a perna esguia e macia. Naquela posio, os braos 
estendidos no colcho, seus seios pareciam ao mesmo tempo sensuais e vulnerveis. Sem a menor cerimnia, ele desatou o cinto do robe, despiu-o e se deitou sobre 
ela.
       Voc precisa superar a timidez, Cage.
       Espertinha!  Ele riu, colando os lbios no ouvido dela. Jenny tinha se banhado pouco antes dele e de Trent, sua pele estava quente e perfumada. No vestia 
nada alm do penhoar.  Para que perder tempo com as preliminares? Prefiro ir logo ao que interessa.
       E o que  que interessa, eu?
       Hum...  Ele lhe cobriu o pescoo de beijos inocentes.  Sempre interessou. Os trs meses mais longos de minha vida foram os que se seguiram ao nascimento 
de Trent.
       No se esquea das semanas antes do parto.
       No me esqueci  rosnou ele.  Continuo achando que aquele mdico imps restries desnecessrias. Deve ter sido vingana.
       Qu?
       Nada.
      Jenny mergulhou os dedos em seus cabelos e os puxou at que ele levantasse a cabea.
       Qu?
       Ai!
       Conte.
       Tudo bem, tudo bem. No  nada de mais. Anos atrs eu andei saindo com uma enfermeira dele. Quando brigamos, ela ficou to zangada que largou o emprego e 
saiu da cidade. Ele ainda tem raiva de mim.
       Com quantas mulheres voc... teve caso? 
      Cage ficou calado. Parou de acarici-la. Fitou-a nos olhos.
       Isso tem alguma importncia, Jenny?
      Ela desviou o olhar do dele e ficou olhando para seu pescoo.
       Voc tem saudade daquele tempo?
       Que voc acha?
      Cage lhe abriu o penhoar e pressionou o corpo no dela. Jenny sentiu sua clida virilidade no ventre.
       Acho que no.
       Acertou.
      Ele a beijou com apaixonada voracidade, eliminando qualquer resqucio de dvida. Quando seus lbios se separaram, o sangue de Jenny pulsava ardente nas veias.
       Eu o amo, Cage.
       Eu a amo.
       Sabe que dia  hoje? 
      Ele pensou um momento.
       O acidente?
       Est fazendo um ano.
       Como voc se lembrou? 
      Jenny lhe tocou os lbios.
       Porque este  o dia em que pensei que o havia perdido. Passei horas na sala de espera daquele hospital sem saber se voc viveria o suficiente para que eu 
lhe contasse quanto o amo e quanto a sua vida  importante para mim. Primeiro, eu s rezava por isso. Depois, quando voc estava fora de perigo, fiquei mais ambiciosa 
e passei a rezar para que vivesse at ficar muito velho.
      Ele sorriu.
       Espero que Deus atenda o segundo pedido.
       Eu tambm. Mas no desperdio nenhum dia. Dou graas a Ele a cada dia que passamos juntos.
      Beijaram-se novamente, reconfirmando seu amor. 
      Quando se separaram, Cage mergulhou os dedos nos cabelos dela, espalhando-os na colcha.
       Quando eu recuperei a conscincia, na UTI, vi seu rosto e no tive coragem de morrer e deix-la.
       Voc se lembra daqueles primeiros dias?
      Ela achava estranho que no tivessem conversado muito sobre o acidente. Ralhara com ele e tivera de control-lo nos primeiros meses de convalescena. Cage 
no estava acostumado a ficar confinado e a ter suas atividades limitadas. Seu ajustamento psicolgico tinha sido to difcil quanto  recuperao fsica.
      Todavia, a paciente diligncia de Jenny valera  pena. Tanto que surpreendeu os mdicos que Cage voltasse ao normal poucos meses depois da operao. E, alis, 
passaram a provoc-lo porque ele havia parado de fumar e at de beber.
      Depois, Trent nasceu, e eles se acomodaram  rotina familiar. Os negcios de Cage continuaram a prosperar, pois ele conseguira dirigi-los por telefone durante 
a convalescena. Agora, tinha dois empregados na folha de pagamento, uma secretria, que passou a ocupar o lugar de Jenny depois do nascimento de Trent, e um gelogo 
encarregado de colher e analisar as amostras. Mas ainda era Cage quem especulava, quem convencia os investidores a aplicar seu dinheiro, quem fazia os negcios e 
achava o petrleo.
      O ano anterior tinha sido to movimentado que Jenny preferira esquecer as horas difceis e os dias sombrios que se seguiram ao acidente. Nunca perguntara a 
Cage s impresses que tivera no hospital.
       No lembro muita coisa, s que voc estava l. Tambm me lembro de que vi mame e papai. Recordo que tentei sorrir para que soubessem que eu estava contente 
de v-los. Mame me segurou a mo, inclinou-se e me beijou. Papai tambm. Pode no ser muita coisa, mas para mim foi um mundo.
      Jenny reprimiu as lgrimas.
       Voc teria ficado orgulhoso de me ver enfrent-los, dizer-lhes que o beb que eu estava esperando era seu.
      O beijo que se seguiu foi consideravelmente mais sedutor que o anterior.
       Mame e papai j superaram o susto  disse Cage quando suas bocas se separaram.  So loucos por Trent e o acham o beb mais maravilhoso do mundo.
       Adivinhe quem foi que lhes deu essa idia!  Ela brincou com os plos de seu peito.  Se no tomarmos uma providncia, esse menino vai acabar ficando mimado 
demais nas mos deles, de Roxy e de Gary.  Jenny riu.  Sabe quando descobri que a sua famlia ia nos aceitar?
       Quando papai nos casou no hospital?
       No  disse ela, sorrindo automaticamente com a recordao.  Antes disso, quando Gary telefonou de El Paso, querendo saber por que no estvamos no aeroporto 
para apanh-los quando eles voltaram da lua-de-mel. Eu fiquei chateada e sem jeito. Tinha esquecido completamente deles enquanto voc estava em tratamento intensivo. 
Bob se ofereceu para ir busc-los em El Paso. Ento eu compreendi que, se ele podia aceitar Roxy, podia aceitar-nos tambm.
       Voc ganhou muitos pontos com eles quando criou o Fundo Hal Hendren de Ajuda aos Refugiados Polticos.
       E voc ganhou mais pontos ainda quando fez aquela enorme doao.
       S porque voc insistiu em que eu doasse a mesma quantia que tinha gastado para comprar o seu anel de noivado.
       Voc teria dado o dinheiro de qualquer jeito.
       No sei  sorriu ele, olhando para o anel de esmeraldas e brilhantes.  Foi carssimo.
      Ela lhe beliscou a pele macia. Os dois riram muito. Depois, ele a fitou com os olhos brilhando de desejo.
       Voc  o meu amor, Jenny. Eu a adoro. Minha vida s passou a valer  pena quando voc comeou a me amar.
       Ento vai valer a pena  vida inteira, pois eu vou am-lo para sempre.
       Jura?
       Juro.  Seus lbios se uniram uma vez mais, incendiando-lhes o desejo.  Mas voc continua sendo terrvel  sussurrou ela.
       Eu?
       Hum-hum. Veja o que fez de mim.  Abriu o penhoar e colocou a mo dele em seu seio. Cage sentiu o clido volume, o mamilo intumescido.
       Eu fiz isso?
       Fez. E eu era uma menina to boazinha. Voc me desencaminhou.
      Ele lhe beliscou de leve o j excitado mamilo.
       Eu sou um garoto levado,  verdade. Baixou a cabea e roou a boca no seio rosado.
      Beijou-o muitas vezes.
       Voc tem um sabor delicioso.
      Cage entregou-se ao seu sabor e a sua textura. Quando subiu a mo pela sua coxa, encontrou-a j antecipadamente mida. As carcias a fizeram esquecer tudo. 
Ento sua masculinidade a reclamou.
       Jenny, eu a amo tanto!
      O tempo ficou suspenso at que o universo explodisse numa cascata de luz. Demorou muito tempo para que eles voltassem a respirar em ritmo normal. Ento, Cage 
se ergueu e sorriu para ela.
      Jenny tambm sorriu lentamente, cheia de sensualidade, e ronronou:
       Voc  impossvel, Cage Hendren. E os dois riram de si mesmos.
Bestseller 06        PAIXO EXPLOSIVA        Sandra Brown

Projeto Revisoras
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